O Passeio da Barata na Sala da Psiquiatria

Hoje fui ao hospital.
Tive uma consulta de psiquiatria. Já nem me lembrava da marcação. Foi através do médico de família e já há cerca de seis meses.
A consulta foi logo de manhãzinha. O médico atrasou dez minutos. Nada de extraordinário. Cumprimentou-me, perguntou-me o que me levava ali e eu fui sincero Já não me lembro, senhor doutor!, e era verdade.
Ele olhou para o computador que lhe escondia metade da cara do sítio onde eu estava sentado e lá se inteirou dos meus problemas.
Voltámos aos fantasmas. Às pessoas que vivem comigo cá em casa. Gente que eu nunca vi, não conheço, mas vêm ter comigo e falam-me com um à vontade que me irrita. Há noites que desespero, principalmente quando fazem do meu quarto uma discoteca onde toda a gente fuma, e não consigo pregar olho. Agora já me habituei. Já não ligo tanto. Por isso não me lembrava porque é que estava ali.
O médico começou por me fazer umas perguntas, somar números, subtrair, dizer o abecedário para trás, desenhar um relógio e marcar dez e dez, qual o nome do país e da cidade em que vivo…
E foi então que a vi. Pequenina, mas grande o suficiente para a ver. No meio de toda aquela brancura asséptica, aquela coisinha escura a deslocar-se chamou-me a atenção. E nunca mais a perdi de vista. Esqueci-me do médico, mas devo ter continuado a responder-lhe porque não fui interrompido na minha observação do longo caminhar da barata ao longo do chão da sala de consulta psiquiátrica do hospital, até chegar ao pé do lavatório que subiu sem nunca cair. Perdi-a de vista por duas vezes, quando caminhou para as traseiras do pé do lavatório, mas voltou sempre ao meu convívio. Chegou à parte de cima e percorreu-a toda, de uma ponta a outra, passando por baixo do sabonete líquido e desinfectante. Depois mergulhou uma pequena ranhura atrás do lavatório e foi nessa altura que, finalmente, deixei mesmo de a ver.
Virei-me para o médico que estava a escrever numa folha com um pequeno pedaço de lápis e, percebendo a minha admiração, disse Agora com os computadores, as canetas desapareceram todas. Este restinho de lápis que apareceu aqui no outro dia é que me tem safado, e eu sorri, solidário com ele.
Depois estendeu-me um papel com a receita. Perguntei-lhe o que era e ele disse Um anti-psicótico e um anti-depressivo, que vai tomar todas as noites durante algum tempo, e depois vai cá voltar. Despedi-me dele, e ao sair olhei para o lavatório e ela lá estava outra vez, a espreitar para mim, à espera que eu saísse.
Eu só queria era que não aparecesse na festa que, obviamente, iria acontecer outra vez no meu quarto. Com luzes psicadélicas e charros, e raparigas com cabelos coloridos e assim.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/02]

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