Não Me Arranjas Nada para Comer?

Ela acordou serena, com um sorriso nos lábios e a luz do dia a bater-lhe leve nos cabelos espalhados pela almofada. Estendeu a mão para a mesa-de-cabeceira e puxou o telemóvel para si. Viu as horas e o sorriso desapareceu. Levantou-se rapidamente e enfiou-se na casa-de-banho. Um duche rápido, um salto para as roupas enquanto trincava uma maçã, que comeu enquanto preparava a mala para sair, e uma última ida à casa-de-banho para lavar os dentes. Depois olhou-se ao espelho. Puxou a camisa para baixo, para a alisar. Lambeu o dedo com a língua e passou-o pelas sobrancelhas. Gostou-se e sorriu-se. Vestiu o casaco. Estava pronta para sair. E então, tocou a campainha da rua.
Com o casaco vestido e a mala na mão, ela abriu a porta e viu um rapaz parado frente à entrada de casa que lhe perguntou Não me arranjas nada para comer?, e ela, apanhada de surpresa, sabendo que não tinha pão, respondeu sem pensar Queres bifinhos de peru com arroz de passas do jantar de ontem?, e o rapaz, tão ou mais admirado que ela voltou a perguntar, Não tens um pão com manteiga?, e ela, Desculpa, mas não tenho pão. Queres os bifinhos?, e ele aceitou, e ela franqueou a porta da rua e fê-lo entrar em casa. Levou-o para a cozinha, colocou um bocado generoso de arroz com passas e dois bifinhos de peru num prato e levou-o ao micro-ondas. Ele sentou-se à mesa da cozinha. Ela colocou-lhe um copo com coca-cola à frente.
Tocou a campainha do micro-ondas, ela retirou o prato lá de dentro e colocou-o à frente do rapaz que começou logo a comer, sofregamente, mal conseguindo respirar. Não falaram nada um com o outro. Estavam ambos incomodados com o silêncio, mas a vergonha e a timidez impedia-os de falar.
Quando ele acabou de comer, ela estendeu-lhe uma maçã e disse-lhe que tinha de se ir embora que estava muito atrasada. E ele foi embora. Ela ficou, por momentos, parada em frente à porta da rua a olhar, não sabia bem para onde, pois não havia nada para olhar para além da madeira da porta, e acabou por abri-la e sair também.
Esteve o dia todo a trabalhar e, mais tarde, ao final do dia, voltou para casa.
Quando entrou em casa, o marido estava a preparar um risotto de cogumelos. Disse-lhe que estava quase pronto. Ela foi à casa-de-banho, lavou as mãos e a cara e voltou para a cozinha enquanto o marido lhe colocava um copo de vinho branco à frente. Sentou-se e foi servida de risotto. O marido sentou-se à sua frente e começaram a comer devagar, enquanto falavam do dia de um e do outro, até que ela lhe ia contar o estranho acontecimento de manhã e a campainha da rua tocou. E a campainha da rua voltou a tocar.
Olharam-se admirados e pensaram Quem é que será a estas horas?, e ela levantou-se e foi à porta da rua e abriu-a e, do outro lado, um rapaz parado frente à entrada de casa perguntou-lhe, Não me arranjas nada para comer?

[escrito directamente no facebook em 2017/11/05]

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