Um Homem Disponível

Ele gostava e não gostava dos dias festivos.
Não gostava porque geralmente não tinha nada para festejar. Mas, por outro lado, sempre tinha trabalho, ele que trabalhava à hora, dava jeitos nos apertos. Sempre que precisavam de um reforço, ou de um substituto, ele estava sempre pronto e disponível. Ele era um homem disponível.
Hoje andava ali a dançar entre as mesas cheias de jovens barulhentos em plena actividade festiva. A maior parte deles estava mascarado. De bruxas, diabos, piratas, fantasmas…
O restaurante estava cheio. A clientela muito nova. Tinham daqueles menus de preço fixo, barato, e com bebida à discrição. Os miúdos geralmente escolhiam o vinho tinto, que ele tirava dos pacotes de cartão, porque batia mais rápido. No fim da noite ele tinha de andar a lavar a rua, ali nas imediações do restaurante, onde os miúdos acabavam por vomitar e por lá deixar os restos do bacalhau com natas e dos bifinhos com cogumelos, envoltos numa pasta tendencialmente grenat, bordeaux, à vezes encarnado escuro, mas com um incrível cheiro a azedo. Era tudo lavado à mangueirada.
No fim das horas, depois de ter reorganizado a posição das mesas, de ter juntado uma série delas, de ter colocado os pratos, os talheres, os copos, o pão e as azeitonas, de ter servido uma série de jovens com as hormonas aos saltos, de ter vazados uma série de pacotes de cartão de vinho tinto rasco, de ter desfeito tudo, limpado a sala, voltado a ter posto as mesas e as cadeiras como estavam e limpo a rua, e depois de receber uns parcos euros em troca do seu trabalho disponível e, em dias de sorte, levar um bocado de jantar, ele voltava para casa.
Passava pelo meio da cidade e via os outros nas suas brincadeiras, nos seus jogos, na alegria de quem vive a vida, e achava que mesmo se pudesse, não estaria ali com eles. Ou talvez… Ou talvez estivesse. A dúvida sobrepunha-se sempre às suas certezas. Mas não lhe fazia mossa. Ele sabia o que tinha de fazer. Era um homem marcado pelo destino. E tinha de o cumprir.
Chegava a casa e agradecia à senhora que lá estava a tomar conta da sua mãe. Pagava-lhe uma boa parte dos seus ganhos dessa noite. E depois… e depois ia ter com a mãe, ela olhava para ele e perguntava-lhe Quem és tu? E ele sorria, aquele sorriso de quem não pode chorar, que era o amor da vida dela, o seu filho querido e que estava ali para tomar conta dela. Ela virava-se de novo para a televisão e, mais tarde, voltava a perguntar-lhe Quem és tu? e dessa vez, depois de algum tempo a observar a sua ausência pontuada por momentos únicos de lucidez, ele voltava a sorrir, mas na companhia de uma lágrima.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/31]

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