Num Distante Silêncio

Estávamos dentro do carro, parados na falésia sobre o mar. À nossa frente o sol, quente, e as ondas do mar a convidar a um mergulho tépido. De vez em quando víamos um surfista mais afoito que se aventurava mais longe à procura de uma boa onda.
Estávamos dentro do carro. O rádio desligado. As janelas abertas. O silêncio instalado entre nós. Ao fundo ouvíamos o barulho de gente na praia. Gente feliz. Gente cúmplice, em brincadeiras, em jogos, em amores.
Ao fim de muito tempo sem nos falarmos, ela saiu do carro e fechou a porta com estrondo. O barulho da porta a bater irritou-me. Ela pegou logo no telemóvel, fez uma ligação e eu ainda consegui ouvir Vem buscar-me, enquanto descia da falésia até ao centro da vila.
Eu desci do carro e fui sentar-me no capot, a olhar o mar lá ao fundo, a ver os surfistas no seu mundo idílico enquanto ia fumando um cigarro atrás de outro. Não sei quantos cigarros fumei, mas foram bastantes.
Entretanto caíra a noite. Os surfistas desapareceram e os cigarros acabaram. Voltei para dentro do carro e arranquei dali, devagar, como se não quisesse ir para lugar nenhum.
Ia a meio do caminho quando o telemóvel tocou. Atendi e uma voz, lá do outro lado, informou-me do acidente. Eles tiveram um acidente. Ele estava bem. Ela estava em estado crítico.
Acelerei para o hospital. Agora tinha um destino. Não a podia deixar partir. Tinha que a ir ajudar. Dar o meu contributo. Estar lá. Onde devia estar.
Quando cheguei ao hospital saí do carro a correr, entrei a correr no hospital, e fui a correr para dentro do elevador. Não corri no elevador porque não adiantava, mas estava nervoso, não conseguia estar quieto, o nervosismo era mais que muito e queria chegar lá o mais rápido possível.
No corredor encontrei o médico que me deixou entrar depois de me acalmar um pouco. Bebi uma garrafa de água tirada de uma máquina automática que funcionava e entrei dentro do quarto onde ela estava. Sentei-me numa cadeira ao pé dela. Olhei-a e fui levado de volta ao passado e revi pedaços da nossa vida. Os pedaços bons. Os que sempre interessam.
E o tempo foi passando, passando…
A determinada altura, e quando tinha as minhas mãos sobre a cama e estava num estado dormente, quase adormecido, senti a mão dela na minha. Despertei. Percebi que ela estava a agarrar-me a mão. Com força. A puxar por mim. A querer-me com ela. Mas retirei a minha mão. Fiquei lá, ao lado dela o tempo todo, mas não consegui dar-lhe a minha mão. Ela estava na cama. E eu na cadeira. E as nossas mãos distantes, na distância do silêncio.
Quando finalmente ela despertou e o médico confirmou que estava fora de perigo, saí do quarto e do hospital. E não olhei para trás.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/28]

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