Matar Percevejos na Cama

Estou magro. Já fiz dois furos no cinto, mas as calças continuam a cair pelo rabo abaixo.
Não tenho fome. Não consigo comer. Nem dormir.
Esta noite passei-a a matar percevejos na cama. Eles passam assim, armados em espertos, a correr, rápidos, de um lado para o outro, mas eu vejo-os. Agarro-os e esmago-os entre as unhas dos dedos das mãos. De manhã tinha os dedos cheios de sangue dos percevejos.
Foi por isso que não fui abrir a porta da rua hoje de manhã, quando cá vieram o Suoer-Homem, o Batman, o Harry Potter e um que parecia o Mandrake, mas não deveria ser porque eles não sabem quem é o Mandrake, e outros que nem reconheço, para pedir bolinho. Não queria assustar os miúdos. E não tinha nada para lhes dar, nem chocolates, nem gomas, nem sequer moedas. Contudo, gostava de ter conversado com eles. Preciso de falar. Preciso de ouvir a minha voz. Ainda ensaio reproduzir os meus pensamentos em voz alta, como dizer alto o que estou agora a pensar sobre o meu dia, mas pareço um maluquinho como às vezes se vê na rua, e eu não sou maluco. Por isso não posso falar sozinho.
Só quando ela cá veio de tarde, e me mandou uma mensagem pelo telemóvel para eu abrir a porta da rua, para perguntar se eu precisava de alguma coisa, eu desatei a contar o filme de merda que vi ontem à noite na televisão. Só percebi que estava a ser chato quando ela bocejou três vezes de seguida. Pedi-lhe desculpa e disse-lhe que queria ir dormir, para que se fosse embora e não estar ali a aturar-me. Eram seis da tarde. Já era de noite, mas ainda era de tarde. Raios partam o tempo e as horas. Mas ela pensou mesmo que eu queria ir deitar-me. O tamanho das minhas olheiras também é grande.
Ela foi embora. Eu fui ao quarto fazer não sei o quê. A cama estava por fazer. Peguei nos lençóis e no edredão para os puxar para cima e vi, outra vez, os percevejos por ali a passear. Assim como assim, já tinha as mãos sujas com sangue, fui apanhá-los e comecei a esmagá-los entre as unhas dos meus dedos. Lembrei-me de quando era pequeno e a minha mãe me catava os piolhos e também era assim, apanhava-os na cabeça, e depois esmagava-os entre as unhas. E ouvia-se um pequeno barulho, crack, crack. Acho que não ia à escola nessas alturas. Era um bom tempo, quando se tinha piolhos e se ficava em casa. Agora fico em casa, mas não queria. Queria falar com pessoas, mas também acho que não consigo. Elas cansam-me. Por isso fico por aqui, a matar percevejos.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/29]

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