Alguns de Nós, Condenados a Falhar

Os portões abriram-se e eu saí.
Foram difíceis aqueles passos que me levaram para fora. Uma diferença de metros, e uma vida.
Cinco anos na cadeia. Cinco anos do lado de fora. Cinco anos longe de tudo, só a envelhecer e a tentar sobreviver.
Tantas foram as vezes que perguntei Porquê? Porque é que continuo aqui? Porque é que não acabo com tudo de vez?, e ainda hoje não sei responder.
Podia ser empático e politicamente correcto, e dizer que tinha sido pelos meus filhos, pela minha mulher, pela minha mãe, pela minha família, pelos meus amigos… Não! Não foi por ninguém. Nem por mim. E continuo sem resposta. Acho que foi só uma resiliência. Estava vivo e ia-me deixando estar. Claro que houve alturas que que, mesmo no deixa-andar, o poço abria as goelas para me engolir. O medo é que me salvou. Se eu fosse corajoso tinha me matado de qualquer forma, meios não faltavam. Mas eu era, sou, cobarde. E assim cheguei aos portões a abrirem-se para mim.
E agora? Que vou fazer agora? Pensei isso quando saí e continuo a pensar nisso agora, seis meses depois, e com uma vida ainda mais complicada do que então.
Não procurei ninguém. Achei que não tinha o direito de procurar ninguém. Os meus filhos cresceram sem mim. A minha mulher andou com a vida dela para a frente. A minha mãe já faleceu, a família… A família! A família e os amigos! A família e os amigos ficaram lá atrás, antes de tudo acontecer. Antes de eu me tornar nisto, num cadastrado, num gajo que esteve cinco anos na cadeia, num marginal. Se calhar mesmo drogado, paneleiro, se calhar até portador de sida que terá apanhado lá dentro. Mas no meio de todo o azar, de toda a merda que envolveu a minha vida, acabei por ser bafejado pela sorte. Passei ao lado de todos estes problemas. Mas só a minha mãe, e muito ao início, me foi visitar. Depois adoeceu, coitada.
Claro que tive de arranjar amizades lá dentro. Ninguém está bem sozinho. Mas essas amizades ficaram lá. Cá fora somos outros. Seremos outros. Queremos ser outros. E no entanto… E no entanto a minha vida ficou onde estava.
Sem filhos nem mulher. Sem família nem amigos. Vivo na rua. Sozinho no meio de anónimos que não me vêem. Peço esmola. Faço alguns biscates. Vivo da caridade alheia. Às vezes vou às igrejas, à sopa. E estendo a mão. Às vezes tenho sorte. Às vezes olham para a minha mão.
Não voltei para a minha cidade. Não tinha coragem de encarar o meu passado. Fiquei por aqui onde ninguém me conhece. Mas tenho saudades. Dos meus filhos. De um pouco de carinho. De colo.
Mas alguns de nós somos assim. Condenados a falhar.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/30]

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