Abrir as Janelas e Deixar Entrar o Ar

Ela abriu a porta e eu entrei.
A casa estava com um cheio a bafio. Sentia-se a humidade ao longo do corredor até chegar à sala.
Ela sentou-se numa poltrona, com os pés debaixo do rabo, e cobriu-se com uma mantinha. Encostou a cabeça a trás e deixou tombar o olhar para o chão.
Sentei-me no sofá grande. A olhar para ela. Não sabia o que dizer.
Levantei-me e fui abrir as janelas para deixar entrar o ar. Olhei em volta e vi restos de fruta espalhados por todo o lado, cheios de mosquitos. Vi uma caixa grande, aberta, com metade de uma pizza já toda ressequida. Várias garrafas de plástico de água, umas vazias, outras com restos, algumas deitaram água fora e via-se a mancha molhada em redor. Vi uma embalagem de gelado meio-cheio com um gelado já líquido.
Aproximei-me dela e sentei-me no braço da poltrona. Fiz-lhe uma festa na cara e puxei-lhe o cabelo para trás e perguntei-lhe Queres ir dar uma volta? De carro! Vamos sair, mas ela respondeu abanando a cabeça de uma forma quase imperceptível.
Levantei-me e fui até ao quarto dela. Abri as janelas. Mudei-lhe a roupa da cama. Apanhei todas as peças de roupa que estavam caídas pelo quarto e pela casa-de-banho, levei-as para a cozinha e coloquei-as na máquina de lavar. E liguei a máquina. Aproveitei e abri também as janelas da cozinha.
Abri o frigorífico. Depois fui à despensa. Fritei um tacho de arroz. Encontrei duas coxas de galinha já a entrar em fase colorida, mas ainda sem mau cheiro, e resolvi assá-las no forno. Polvilhei-as com sal e pimenta, juntei uma folha de louro, um bocado de manteiga em cima da carne e coloquei no forno.
No fim, deixei tudo em cima da mesa da cozinha.
Voltei à sala e sentei-me, de novo, no braço da poltrona. Tens tomado os comprimidos?, perguntei-lhe, e ela acenou com a cabeça. Puxei-a para mim e envolvi-a nos meus braços. E ela deixou-se abraçar. Mas algum tempo depois saiu da sala e foi para o quarto. Fui atrás dela e, da porta, disse-lhe Tenho de me ir embora, mas venho jantar contigo. Já deixei tudo feito. Tomas um banho e jantamos na sala, está bem?, e ela acenou que sim e puxou o edredão sobre a cabeça.
Fechei as janelas do quarto. Voltei à sala, e apanhei todo o lixo que por lá estava e fechei, também, as janelas. Passei na cozinha e peguei no saco do lixo que lá estava e, carregado de sacos do lixo, saí de casa dela.
Sabia que quando voltasse, ela iria estar ainda ali, dentro da cama. Mas sabia que tinha de a ajudar. Não sabia era bem como.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/01]

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