Com Frio e sem Poder Entrar em Casa

Estou gelado. Estive duas horas sentado no café à espera dela. E não apareceu. Bem… Não sei. Pode ter aparecido depois de me ter vindo embora.
Ao chegar ao café, despi o casaco e sentei-me. Pedi uma bica e pus-me à espera.
Acabei por agarrar-me ao telemóvel e, entre Facebook, Instagram, Flickr, Pinterest, Tumblr, Twiter e Messenger, acabei por ficar sem bateria.
Pedi outro café.
Estalei os dedos das duas mãos.
Alisei as unhas das mãos utilizando os dentes como uma espécie de lima.
Comi as peles dos cantos dos dedos.
Revi, mentalmente, os vencedores dos Oscars de 2018. Ainda os tinha bastante presentes na memória.
Percebi que ela já não vinha.
Levantei-me. Larguei umas moedas na mesa e vesti o casaco. E foi quando vesti o casaco que percebi que estava cheio de frio. Estava gelado. Tremi. Tinha estado ali duas horas a acumular frio e agora percebia-o todo de uma vez.
Saí do café e pus-me a andar rápido para ver se aquecia.
A meio da rua parei. Para onde é que vou?, inquiri-me. E, por momentos, não sabia qual o meu destino. Depois lá percebi e disse, sonoro, Casa!
Recomecei a andar. Os dentes começaram a bater uns nos outros. Eu ouvia o barulho que eles faziam a bater uns nos outros. Senti um arrepio a subir pela coluna acima.
Começou a chover.
Puxei as golas do casaco para cima e disse uma asneira qualquer. E olhei para o céu com cara zangada.
Comecei a ficar encharcado.
Tentei correr, mas a perna direita estava machucada e não me permitia grandes saltos.
Os dentes continuavam a bater uns nos outros. Sentia-me gelado e, para me distrair do frio, comecei a programar os meus passos para quando abrisse a porta da rua e entrasse em casa.
Tirar o casaco e as botas; despir as calças e o resto da roupa; tomar um banho bem quente de duche; secar-me; vestir o pijama de flanela; acender a lareira; encher um copo de vinho tinto; levar uma bandeja com uns queijinhos e um naco de pão para a sala e assistir ao telejornal.
Depois levantei o braço para ver as horas e perceber se ainda ia a tempo de ver o telejornal.
E, de repente, parei debaixo de toda aquela chuva.
As chaves. Não tinha as chaves de casa. Era por isso que me ia encontrar com ela no café. Ela tinha umas chaves minhas e ia devolvê-las para eu poder entrar em casa.
Ela não tinha aparecido.
Eu não tinha chaves.
Não conseguia entrar em casa.
A chuva continuava a cair-me em cima. Sentia-me frio. Gelado. Parecia congelar.
E fiquei sem saber para onde ir. O que fazer.
Fiquei parado ali, no meio da rua, sem conseguir mexer-me, sem saber o que fazer.
E agora?, dizia para mim próprio.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/11]

Não Morrer sem Viver

Não sei o que fazer. Não sei o que mais posso fazer, a não ser deixar-me ir por aí fora. E seja lá o que for.
Avisaram que vinha aí o Félix. Uma tempestade terrível, de vagalhões e chuva e neve e frio e vento de não-sei-quantos-quilómetros-hora.
Peguei em mim e arranquei para a Praia do Norte. Estava rendido às experiências radicais. Não morrer sem viver. Queria ver essas ondas gigantescas, esses ciclones que se formam no mar.
Cheguei e parei o carro. Mas algo não estava bem. O sol estava espetado lá no alto. Não se via uma única nuvem no céu. A praia estava cheia de gente que se passeava nos limites da beira do mar. Casais de namorados de mãos dadas trocavam beijos salgados. Vários cães corriam uns atrás dos outros numa loucura sem par. Uma miúda tentava segurar uma pequena cadela pela trela que queria entrar no carrossel da loucura canina.
A tarde estava amena. Só o vento estava um pouco acelerado. E fazia-se ouvir. Produzia carneiros nas cristas das ondas. Mas morriam logo na areia.
Fiz como toda a gente e desci a arriba até à praia e fui andando até ao mar.
Descalcei-me, arregacei as calças e mergulhei os pés na água gelada do Atlântico Norte. A Nazaré não é para meninos.
De repente o céu escureceu. As nuvens chegaram rápidas, não sei donde, e fecharam o céu. A vida deixou a cor e passou a preto e branco, com muitas tonalidades de cinzento.
Ouviu-se trovejar. Viram-se relâmpagos a riscar o céu cinzento. Começou a chover torrencialmente. O mar tornou-se agressivo e as ondas cresceram e começaram a invadir a praia.
As pessoas começaram a correr para sair da areia. Um pai largou uma menina ali na praia e foi a correr, rápido, para a arriba. Uma mãe corria com uma criança ao colo, tropeçou e caiu. Alguns cães estavam parados, como que hipnotizados, a olhar a fúria do mar. Mas toda a gente estava a tentar correr. Queriam subir a arriba, entrar dentro dos carros e fugir dali.
Mas não conseguiram.
A invasão das ondas do mar foi tão rápida e violenta que ninguém conseguiu chegar às arribas. Só o mar. Só a violência do mar galgou as arribas e conseguiu puxar os carros para baixo e fazê-los rodopiar.
A água ia e vinha. Vinha buscar corpos e quando ia, levava-os lá para longe, para o meio do mar, para o meio dos vagalhões, da chuva, do barulho infernal que ambientava a nossa desgraça.
Eu vi-me lá no meio das ondas. Apanhado por uma, andei ali embalado, entre a terra e o mar, enrolado no meio da espuma amarela, sem conseguir nadar, a engolir alguns pirolitos salgados, rodeado de mais gente como eu, sem saber o que fazer, apanhado de surpresa, a tentar boiar, a tentar sobreviver, a manter-me ali, naquela fronteira, entre a vida e a morte e esperar O que Deus quiser.
Depois, senti-me sem forças, senti-me perder a noção das coisas. Senti que o meu corpo era puxado para baixo, para dentro do mar, para de onde não poderia nunca mais fugir.
E senti-me perder os sentidos. Deixei de ouvir barulho. Deixei de sentir medo. Senti-me ir…

Acordei com o sol a bater-me nos olhos, com força e calor. Estava deitado em cima de uma porta de madeira, no meio do mar. Sentei-me na porta, em equilíbrio difícil. Olhei à minha volta e o horizonte era todo igual. Um risco suave a separar dois azuis quase iguais. Não havia uma única nuvem no céu. Não havia mais ninguém à minha volta. Estava sozinho no meio do mar. Não sei onde. Não sei quando.
Não sei o que fazer. Não sei o que mais posso fazer, a não ser deixar-me ir por aí fora. E seja lá o que for.
Será isto a morte?

[escrito directamente no facebook em 2018/03/10]

Morcela de Arroz

Tenho uma morcela de arroz à frente. Uma morcela de arroz de Leiria. Foi uma oferta do talho aqui da rua. Fui lá limpar o vidro da montra e ofereceram-me uma morcela.
Podia cozê-la. Assá-la na chapa. Ou no carvão.
Vou comê-la assada. Gosto da morcela estaladiça. Com a pele crocante.
Mas não vou assá-la na chapa. A casa fica com um cheiro horrível. Não tenho velas de cheiro.
Também não posso assá-la no carvão que não tenho carvão cá em casa. Mas tenho um fogareiro. É neste fogareiro que costumo assar as sardinhas durante os santos.
Tenho um daqueles assadores eléctricos de levar à mesa.
Levo o assador para a varanda.
Encho um copo com vinho tinto.
Coloco a morcela no assador.
Acendo um cigarro e ponho-me a olhar lá para baixo, para a rua.
Não se vê quase ninguém. Está a chover. Não muito, mas chove. E não está muito frio.
Sabe-me bem estar aqui à varanda.
Encosto-me ao varandim, de costas para a rua, e bebo um gole de vinho. Ouço os vizinhos de cima, também à varanda, a falar Lá está aquele gajo a assar merdas na varanda e nós a levar com o cheiro. É melhor recolher a roupa. E eu não ligo. Não quero saber deles nem das suas queixas. Também tenho as minhas e calo-as. Alguém me ouve dizer mal de quem quer que seja? Queixar-me de alguém? De alguma coisa?
Viro a morcela ao contrário. Está brilhante. A pele já tem alguns rasgos, não muitos nem muito grandes para o arroz não sair lá de dentro e ela não se desfazer.
Acabo de fumar o cigarro e deito a beata fora. Já sei que se os vizinhos de cima virem a beata a voar vão dizer Lá está outra vez o gajo a mandar beatas para a rua. Encolho os ombros.
Desligo o assador. Coloco a morcela num prato onde já tenho uma fatia de broa, da amarela, e sento-me ali à varanda. A pouca chuva que cai não vem tocada a vento e não me incomoda.
Como a morcela na companhia da broa. Acamo tudo no estômago com o resto do copo de vinho.
Dou um arroto sonoro e ouço, outra vez vindo de cima, Que nojo, meu Deus. Esse tipo é um porco.
Pego no maço de cigarros e descubro que está vazio. Amachuco-o e deixo-o cair no chão da varanda. Tenho de ir à rua e não me apetece nada.
Agora ficava aqui, a beber mais um copo de vinho, a fumar um cigarro e a digerir a morcela. Que bem que me soube.
Mas tenho de ir à rua.
Será que os vizinhos aqui de cima não têm um cigarro?

[escrito directamente no facebook em 2018/03/09]

Às Vezes Gostava de Me Sentir Mulher

Estou do outro lado da rua, a fumar um cigarro, e vejo-as entrar no restaurante. São um grupo grande. Um grupo heterogéneo. Passa por várias idades. Por vários tipos. Há ali várias classes sociais. Percebe-se pela roupa. Pelos sapatos. Pelo corte de cabelo. Pela mala que ostentam. Pelas unhas das mãos. Umas falam mais alto que outras. Umas são mais recatadas. Outras mais extrovertidas.
Passa uma rapariga, muito novinha, por mim e pede-me lume. Puxo do isqueiro, acendo-o e aproximo-o do cigarro que tem na boca. A boca agradece, silenciosa, e vai embora.
Do outro lado da rua as mulheres já entraram todas no restaurante.
Hoje é Dia da Mulher. É uma questão política. De luta. De afirmação. Há quem se perca no conceito. Quem julgue que é outra coisa. Principalmente alguns homens. Mas não só. Hoje, as mulheres comemoram um dia em que querem lembrar ao mundo que são diferentes, mas iguais aos homens. É uma luta difícil.
Olho para o meu cigarro aceso. Sopro a cinza e penso nas mulheres que irão jantar ali em frente e comemorar este dia. Gostava de estar ali com elas. Há dias em que gostava de ter companhia. Há dias em que desgosto menos da humanidade. Nem sei bem porquê. Talvez me sinta mais frágil. Talvez me sinta mais mulher. E rio. As mulheres não são frágeis, acabo por me ouvir dizer em voz alta. E rio de novo.
Sou homem mas isso nunca foi uma auto-estrada para a minha vida.
Tenho estudos. Sou letrado. Inteligente. Bem parecido. E no entanto… E no entanto estou sem trabalho. Não consigo trabalho. Não consigo um salário. Não consigo ser homem.
As oportunidades afunilam. Estou a ficar velho. E não sou um yes-man. Sou uma daquelas pessoas chatas que não conseguem estar caladas ao ver tudo acontecer à sua frente. Tenho opinião e não a calo. E isso tem-me trazido alguns problemas.
Levo a mão ao bolso das calças e conto as moedas que tenho.
Deito a beata fora e entro no café atrás de mim. Peço uma aguardente e deixo cair umas moedas no balcão.
Pela montra do café vejo duas, três mulheres que vêm para a entrada do restaurante fumar um cigarro. Acendem os cigarros e ficam ali a fumar e a conversar, de braços cruzados frente ao peito, talvez por frio, talvez por vergonha, não sei, mas ficam ali a conversar. Por vezes riem. Gostava de ouvir o que dizem.
Acabo com o resto da aguardente e saio do café. À porta volto a acender outro cigarro. Olho para elas e vou embora, passeio fora, sem destino, sem vontade nenhuma de ir para casa. Hoje sinto-me só. Abandonado pela vida.
E penso Às vezes gostava de ser mulher.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/08]

Um Homem É um Homem, Mesmo Quando Não Sabe o que Fazer

Pus-me a atravessar a ponte com toda aquela ventania. Sei que não devia fazê-lo, mas queria ir para casa. Precisava de ir para casa. Precisava do meu sofá. De me sentar nele. De me deixar envolver na sua suavidade e conforto.
Estava muito vento. E chovia. Bátegas grossas que faziam um barulho infernal ao baterem na chapa do carro.
Ia devagar, de faróis acesos e muito atento à estrada. Mas não se via vivalma.
Já no tabuleiro, a meio da ponte, vi um carro parado na faixa da direita. Sem luzes. Sem sinalização. Um verdadeiro perigo. Eu ia devagar, apercebi-me e ultrapassei-o pela esquerda. Ao passar por ele, notei que não havia ninguém no seu interior. Cheguei-me à direita, mais à frente, e parei o meu carro. Liguei os quatro piscas. Saí. Fui recebido por um temporal. Fiquei logo encharcado. Agarrei-me ao carro até chegar às grades da ponte e, depois, agarrei-me a elas e olhei em volta. À procura de alguém. Andei um bocado para trás, passei o carro parado, mas não vi ninguém nem me lembrava de ter visto ninguém ao passar. Fui até mais à frente, agarrado às grades da ponte, a tentar ser mais forte que o vento.
O meu carro abanava.
Depois vi-o. Era um homem de meia idade. Estava parado em cima do varandim da ponte e agarrava-se à estrutura. Olhava para baixo. Viu-me chegar. Olhou para mim. Não dissemos nada um ao outro. Ele voltou a olhar para baixo. Para o rio. Eu encostei-me ao varandim, a uma certa distância dele e também olhei para o rio. Parecia um mar. Com ondas. Umas grandes vagas. Com espuma branca a coroar-lhes os limites. Como carneiros aos pinotes.
Puxei de um cigarro que ficou logo encharcado. Coloquei-o na boca mas não o acendi. Não conseguiria. Fiquei só assim, com ele na boca, a olhar para as ondas no rio e a ouvir o forte assobio do vento que parecia querer levar-me com ele. De vez em quando olhava para o homem. E sentia-o a olhar para mim. Mas não o pressionei. Percebi o que estava em causa. Percebi a violência que estaria a sofrer. Percebi que tinha de o respeitar. Percebi que um homem é um homem, mesmo quando não sabe o que fazer. A única coisa que podia fazer era estar lá. Para o acompanhar. Para dizer-lhe que não estava sozinho. Que o compreendia. Que aceitaria qualquer que fosse a sua decisão.
Ficámos assim aquilo que pareceu uma eternidade.
Não passou nenhum carro.
A chuva continuou a fustigar-nos com enormes bátegas.
O vento continuou a soprar-nos aos ouvidos gritos agonizantes.
O rio, lá em baixo, estava cinzento e assustador. Parecia querer abrir as goelas para nos tragar.
O meu cigarro acabou por se desfazer debaixo de toda aquela água.
Depois o homem começou a mexer-se. Olhei para ele. Parecia com medo. Começou a tentar descer. Aproximei-me e dei-lhe a mão. Ajudei-o a descer. Já no chão, abraçámo-nos. Não dissemos nada.
Levei-o para o meu carro.
Arranquei ponte fora.
Pelo espelho retrovisor, vi o carro dele a ficar lá atrás, no meio do tabuleiro da ponte, cada vez mais pequeno.
Então ele começou a chorar. A chorar convulsivamente. Dobrava-se sobre si próprio. Chorava um lamento. Eu continuei a não dizer nada. Limitei-me a estar ali.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/07]

Levo Só os Meus Segredos

Tento fugir ao inevitável. Tento fintar o destino. Mas sei que não vale a pena. Sei como tudo vai acabar.
Por vezes sinto-me como a personagem d’A Viagem, dos Contos Exemplares da Sophia de Mello Breyner. Vou deixando de ter opções e, no fim, só me resta o último passo, o que me leva para o vazio.
Sim, estou à beira do precipício. Sei que já não posso voltar atrás. E, no entanto, gostava que o desenlace fosse outro. Mas sei que vou dar o passo. Tenho de dar o passo em frente e deixar-me ir. Deixar-me cair.
Estou em casa, mas tenho de sair porta fora. Tenho de partir. Acendo um cigarro a protelar tempo, à espera de um milagre que não vai chegar. Mas tento acreditar até ao fim. É a única coisa que me resta. Acreditar em algo que não acredito.
A cinza cai ao chão. Eu olho a casa, talvez pela última vez. Na verdade nunca foi bem a minha casa. Acho que em toda a vida nunca tive bem uma casa, com excepção do meu quarto em casa dos meus pais, ainda em criança, miúdo, adolescente, ainda longe disto tudo. Depois, fui vivendo em enxergas onde calhava. Sempre acampado. Saltimbanco. Recomecei do zero inúmeras vezes. Comprei o mesmo livros três vezes, quatro vezes. E no entanto, voltava a ficar de novo sem ele.
Sinto os olhos a molharem-se.
Olho à minha volta tudo o que vou deixar por cá. Os livros, essencialmente. Mas tudo o resto. Levo só comigo os meus segredos. Aquilo que nunca contei a ninguém. Aquilo que é verdadeiramente só meu e nunca partilhado, nem num disco externo, nem nas páginas amareladas de um diário, nem no feed do Facebook.
Abro a janela e lanço a beata para a rua.
Sinto-me agoniado. Sinto vontade de vomitar. Aproximo-me do lava-louças e sai em agonia uma espuma amarelada, azeda, que cuspo para o lavatório. Abro a torneira e deixo a água lavar o meu azedume. Bochecho um bocado de água na boca. Depois bebo um pouco. Tenho a boca seca. Seca e com um travo azedo.
Sinto medo.
Sinto medo das minhas decisões.
Sinto medo das consequências das minhas decisões.
Mas sei que é inevitável e, por mais que fuja, o destino agarra-me e trucida-me.
Saio de casa consciente que não vou voltar.
À porta do elevador resolvo optar pelas escadas. Obrigo-me a atrasar o tempo. Tento vergar os ponteiros do relógio. Quero que o tempo volte atrás. Quero poder ter outras opções. Quero poder fazer as coisas de outra maneira. Quero poder ser diferente. Numa vida diferente.
Sinto-me fraco. Frágil. Sinto-me parvo.
Desço as escadas e chego à rua. Coloco os olhos no chão para não se cruzarem com ninguém. Não quero ver ninguém. Não posso ver ninguém.
Está a chover. Cruzo a cidade sozinho, debaixo de chuva, sem ver ninguém. A água da chuva mistura-se com as lágrimas. Não consegui travá-las.
Paro debaixo de um toldo para fumar um cigarro. Preciso de me acalmar. Deixo o fumo invadir-me os pulmões. Relaxo um pouco. Puxo a camisola para cima e limpo a cara. Mas não serve de muito que a água escorre-me do cabelo encharcado.
Deito fora o cigarro e arranco de novo rua fora debaixo da chuva, mãos no bolsos, olhos no chão e cabeça não sei onde.
Vou ao encontro do precipício. E não lhe consigo fugir. As pernas tremem. Sinto arrepios pelo corpo. A mão esquerda começa a tremer.
Tenho medo.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/06]

Vi à Minha Frente uma Vaca a Voar

Vi passar uma vaca à minha frente.
Vivo num terceiro andar e, da janela da cozinha, vi passar uma vaca a voar à minha frente.
Apareceu um furacão aqui na cidade. Não sei de onde é que ele veio. Não sei onde é que se formou. Mas aqui, na cidade, libertou milagres.
Só na minha rua desfez a esplanada da pastelaria. Os chapéus foram os primeiros a voar. Logo seguidos das mesas e cadeiras. Ainda vi uma pessoa agarrada a uma porta, de pernas no ar, mas que conseguiu entrar dentro da loja. Não apareceu mais ninguém na rua. As pessoas esconderam-se. Alguns carros ganharam vida. Deslizaram pela estrada empurrados pela força do vento. Uns subiram para cima de outros. Houve um que se enfaixou na varanda do primeiro andar. Placas, ramos de árvore, árvores, motas, bicicletas, arbustos inteiros, lixo, pedaços de vida tornados lixo, tudo a voar pelo meio da rua e a subir até à janela da minha cozinha.
Eu acendi um cigarro, mas não abri a janela. Era muito o vento. E assobiava. Fiquei ali a ver o drama a desenrolar-se à minha frente. Nunca tinha visto nada do género. O ar parecia riscado a grafite com a quantidade de… Coisas… Que rodopiavam num remoinho sem fim. O prédio em frente perdia as telhas. As tralhas que os vizinhos guardavam nas janelas já tinham levantado voo há muito tempo. Alguns vidros partiram-se.
E foi então que a vi. A vaca. Estava a voar à frente da minha janela. O cigarro caiu-me ao chão.
Virei-me para o interior de casa e chamei-a. Gritei Anda! Anda cá ver isto! e saí para a varanda, agarrado, com força, à grade de ferro.
A vaca deu uma volta circular e estava, de novo, a aproximar-se da varanda quando ela chegou e eu, apontando a vaca disse-lhe Olha! Olha ali! e ela olhou e abriu a boca de espanto.
Agarrou-se como eu à grade da varanda e depois estendeu o corpo para fora para ver melhor o trajecto que a vaca estava a levar.
E, de repente, tudo parou. Tudo parou para mim.
O vento parou. A chuva parou. O barulho parou. O tempo parou. Tudo parou. E eu fixei o meu olhar nela, e no seu corpo estendido sobre a grade da varanda a ver o trajecto da vaca e tive tempo para analisar todas as variáveis da minha vida, todos os prós e os contras, vi com extrema clareza os diferentes caminhos que a minha vida poderia levar ao optar pelas diferentes soluções. Pensei, analisei, estudei, desejei e decidi.
E tudo recomeçou de novo a funcionar e eu estendi o braço sobre as costas dela e empurrei-a para o meio do furacão, e foi o bastante para ela galgar a varanda e ser arrastada, juntamente com a vaca, num remoinho imparável. E vi-a ganhar altura, olhar para mim por segundos e mostrar todo o horror nos seus olhos, e depois, girar, girar cada vez mais rápido e cada vez para mais longe de mim, ela e a vaca, até desaparecerem as duas lá no alto, onde a minha vista já não conseguia alcançar e, depois, depois o tempo acalmou e tudo morreu.
Todas as coisas que estavam a voar, caíram. Parecia uma chuva de objectos bizarros. Mas houve coisas que desapareceram. Entraram noutra dimensão.
Parou de chover. De fazer vento. Parou o barulho. A esplanada tinha desaparecido. O cão do vizinho da frente, também. Nunca mais vi a vaca. Nem a vi a ela.
Fui à cozinha buscar um cigarro e voltei para a janela para ver se a via. Tinha de me certificar que não, que ela não voltaria.
Já passaram dois dias.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/05]

A Vertigem de um Desejo

Vivo numa casa que está por cima do rio.
A casa onde vivo faz parte de um edifício que cruza o rio de uma margem à outra, criando um pequeno túnel por onde a água corre e, nos dias de Verão, onde pares de namorados param as gaivotas para poderem dar aso aos seus desejos físicos mais urgentes e carnais.
Todos os dias vou à varanda de minha casa fumar um cigarro e ver a água a passar, com pressa, por baixo de mim. Nas margens são os curiosos que se juntam para observar este devaneio arquitectónico que já quiseram deitar abaixo.
Não deitaram.
E eu continuo a ir à varanda fumar um cigarro, olhar a fúria da água e observar as pessoas à distância.
A água que passa lá em baixo, numa correria louca, exerce em mim um grande fascínio. É uma espécie de lareira. Começamos a olhar para ela e, quando damos por nós, já não estamos lá, já estamos hipnotizados e já não somos donos do nosso destino.
Há alturas em que o desejo é uma vertigem.
Hoje foi uma dessas alturas.
Estava na varanda a fumar um cigarro e a ver a água a correr, a observar os vincos que a sua força criava na fuga para diante, e a deixar-me embalar pelo som que subia do leito pelas paredes do prédio, quando lancei fora a ponta do cigarro, subi para a grade da varanda e mergulhei.
O mergulho foi perfeito. Entrei de cabeça, com os braços esticados à minha frente, e o corpo hirto entrou no leito tão direito que mal se ouviu o mergulhar. Parecia uma agulha a furar linho. Mal toquei na água, virei o corpo para cima e o impulso levou-me debaixo de água durante muitos metros, uma quantidade enorme de metros e, quando emergi, quando a minha cabeça veio à tona, já estava fora da cidade e ia embalado na corrente pelos Campos do Lis fora.
Depois não foi muito difícil. Ia dando, calmamente, aos braços, a nadar suavemente, porque a corrente cuidava bem de mim, e fui por ali fora, levado pelo rio que passava debaixo de minha casa e seguia até ao mar.
À medida que me aproximava da foz do rio, na Praia da Vieira, sentia uma enorme angústia a crescer dentro do meu peito, não sei se era por estar a afastar-me de casa, se era o prenúncio de algum acontecimento, mas a necessidade, não muito grande diga-se, de nadar, ia disfarçando.
Quanto mais me afastava de casa, mais vontade sentia de a ela regressar. Mas continuei. Continuei por ali fora. Os braços já quase mal se moviam. A corrente, cada vez mais forte, fazia todo o meu trabalho.
Na última recta antes do mar, quando estava a passar debaixo da ponte da estrada que liga a Praia da Vieira ao Pedrogão, vi o corpo de uma rapariga a cair à água. Desviei-me um pouco na sua direcção e agarrei-a. Estava inanimada. Segurei-a. Nadei para a margem esquerda do Lis, poucos metros antes de entrar no mar.
Puxei a rapariga para a areia da margem, uma pequena praia muito apreciada no Verão, e tentei reanimá-la. A princípio ela não reagiu mas, depois, acordou, vomitou água e tossiu. Agarrou-se ao meu pescoço a chorar e a cantar o Let England Shake da PJ Harvey.
Olhei para o lado e vi o telemóvel, em cima da pequena mesa de apoio, na varanda, a tocar. Tinha ainda um resto de cigarro nos dedos, já apagado e, lá em baixo, a água do rio continuava a correr furiosa. Indiferente aos meus desejos.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/04]

À Espera dos Acontecimentos

Ainda não tirei o pijama. O tempo está cinzento. Chove. Já trovejou também.
Este tempo convida-me à letargia. Não me apetece fazer nada. Não consigo ler. Não consigo ouvir música. Nem olhar para a televisão. Não tenho fome. Custa-me respirar. Custa-me estar vivo.
A janela é a minha única motivação. Arrasto-me até ela. Os pés descalços no soalho escorregam. Mas insisto. Cravo as unhas no chão e puxo por mim. Puxo pelo meu corpo. Gosto da janela. Gosto de olhar para a rua. Gosto de ver as pessoas à distância. É a única forma de as suportar.
Acendo um cigarro e deixo-me ficar por ali. Abro a janela. O fumo sai. O ar frio entra. Arrepio-me. Fecho a janela. O meu bafo embacia o vidro. Com o dedo escrevo lá letras, depois palavras. Palavras soltas. Sem sentido, acho. Corroído. Tóxico. Talvez signifique alguma coisa para mim. Mas não recordo. Talvez seja algo escondido. Perdido.
Volto a abrir a janela. Para o fumo sair lá para fora. As letras que escrevi começam a desfazer-se. As gotas tombam, vão caindo vidro abaixo e deixam de ser letras, palavras, e tornam-se desenhos. Abstrações. Que porra é que estou para aqui a dizer? O que é que se passa com a minha cabeça?
O meu olhar dirige-se lá para baixo, para a rua. Um homem agarra outro pelo casaco e vai esmurrando-o. O outro tenta fugir. Defende-se dos murros colocando os braços à frente da cara. Uma rapariga grita e bate com uma mala no homem que esmurra.
Eu fumo o cigarro e vou olhando o confronto. As pessoas são más. As pessoas são más companhias. As pessoas procuram o confronto. A porra da competição. Eu sou o melhor.
Sento-me numa cadeira. Estou saturado. Cansado das pessoas das suas regras razões e prioridades. Eu eu eu eu eu eu eu…
Cheira-me mal. Percebo que sou eu. Ainda não tomei banho. Não me apetece tirar o pijama. Não me apetece despir. Nem ir para debaixo da água.
Volto a levantar-me. O confronto exerce um certo fascínio em mim. Um dos homens está agora caído no chão. O outro está sentado em cima dele e continua a bater-lhe. À volta uma série de pessoas assiste como se fosse um jogo. A rapariga chega agora lá do fundo com um polícia que grita para o homem. Mas este continua a bater no outro. Ninguém respeita o polícia.
Mando o cigarro pela janela e ele cai em cima do homem que se vira para cima, para o prédio, e vê-me. Larga o outro que fica caído no chão, com sangue a escorrer pela cara. A rapariga cai sobre ele. Afaga-lhe a cara, espalha-lhe o sangue que é já só uma massa. O polícia tenta agarrar o homem que não lhe liga e que vai mandando gritos para mim que estou cá em cima.
O homem dirige-se para a porta de entrada. O polícia pede apoio pelo rádio e segue-o, mas o homem nem o nota. A rapariga fica a chorar agarrada ao corpo inerte do outro. As pessoas continuam à volta a assistir ao desenrolar dos acontecimentos. Alguns deles olham cá para cima, para a minha janela.
Eu levanto-me e vou abrir a porta da rua. Depois volto a sentar-me na cadeira, acendo outro cigarro e ponho-me à espera. À espera dos acontecimentos.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/03]

Sozinho, em Silêncio e na Penumbra

Todas as semanas a história repete-se.
Chego a Sexta-feira cheio de esperança de um fim-de-semana memorável, retemperador, final do tédio semanal e princípio de qualquer coisa de muito interessante que irá mudar a minha vida para sempre.
Não sei se é por ser dia de Euromilhões. Se é por começar mais uma jornada da Primeira Liga. Ou se é por toda a gente estar preparada para se embebedar, ir dançar a uma discoteca e arranjar um engate de última hora. Não sei. Nunca ganhei o Euromilhões e, na maior parte das Sextas-feiras esqueço-me de ir registar o boletim ou, se me lembro, não tenho dinheiro para o jogo. O Campeonato não me interessa. Só me interessa os jogos do Benfica. E o dançar, o beber, o beber até cair e cair nos braços de uma beldade dançante toda transpirada e de boca adocicada dos Pisang Ambon e dos Campari – sim, sou um filho dos anos ’70 –, não me interessa. Desde há muito tempo que deixei de acreditar no Pai Natal, no coelhinho da Páscoa e nos unicórnios. Sim, gosto de música. E de dançar. Mas é tão difícil fazê-lo sentado no sofá.
E sim, é no sofá que acabo por terminar todos os fins-de-semana que desejava memoráveis.
O tédio semanal prolonga-se pelo Sábado e Domingo. Abre as portas à má disposição e à casmurrice. Por vezes chega na companhia das enxaquecas e depois só me resta ficar sozinho. Sozinho e em silêncio. Sozinho, em silêncio e na penumbra.
E até que acabo por gostar.
Não ter de falar com ninguém.
Não ter de ouvir alguém. Alguém que não pára de falar e de lançar ideias e desejos e fantasias e que descreve o rol semanal do seu fantástico trabalho onde desenvolveu projectos e alavancou programas e ganhou rios de dinheiro e comprou tudo e mais alguma coisa e comeu do bom e do melhor e fez e aconteceu e marcou e conheceu mulheres interessantíssimas cujo nome esqueceu mal virou na primeira esquina a caminho de casa, da mulher e dos filhos e nunca, nunca perguntou se precisavas de alguma coisa.
E, depois, posso fazer isto: agarrar num cigarro, acendê-lo e fumá-lo sem estar a violar não-sei-quantas-leis-ou-regras que a saúde vem primeiro, principalmente se não for necessário mandar ninguém para o fundo de uma mina, nem vender comida feita de gordura e restos, cheias de hormonas e químicos. E que bem me sabe fumar um cigarro. Fumá-lo quando me apetece. E onde me apetece.
Estar em casa sentado no sofá, eu e a minha rabugice, a fumar um cigarro sem ninguém a olhar-me de lado ou a discutir comigo a liberdade dos outros. Mesmo que depois tenha de me levantar para abrir a janela da sala. Porque não gosto do cheiro frio do tabaco.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/02]