Fui Defender o Pinhal do Rei e Não o Encontrei

Tínhamos acabado de jantar enquanto víamos as notícias dos incêndios no país. Ouvi que oitenta por cento do Pinhal do Rei tinha ardido. E esta notícia ficou-me na cabeça. A zumbir.
Fui lavar a louça. E quando ela fechou os estores da janela, fiquei irritado. Ainda havia luz no exterior. E gosto de ver as luzes coloridas que vêm lá de fora. Mas ela tem medo dos fantasmas que se aglomeram à entrada da janela para entrar em casa e chateá-la. Eu percebo-a. Mas irrita-me. E com esta história dos oitenta por cento do Pinhal do Rei estava realmente muito sensível. E gritei. Gritei-lhe. E ela foi sentar-se no sofá, sentida comigo que não a percebia.
Acabei de lavar a louça e fui até ao quarto. Sentei-me na cama e pensei no Pinhal do Rei. E nos oitenta por cento que arderam. E nos vinte por cento que restavam. Algo estava a nascer. Uma ideia. Uma vontade.
Fui debaixo da cama e retirei a AK-47 que tinha comprado aos tipos que assaltaram o arsenal de Tancos. Embrulhei-a numa toalha. Fui à cozinha e arranjei um farnel. Um naco de pão. Um bocado de queijo. Meio chouriço. Uma garrafa de vinho tinto das Cortes. Meti tudo numa mochila. E disse-lhe Venho tarde, e ela respondeu Tem cuidado, e eu fui, mas antes apanhei a metralhadora no quarto.
Pus a mota a trabalhar e arranquei. Fui para São Pedro de Moel. Ia procurar os vinte por cento de Pinhal que tinham sobrevivido.
Mas quando cheguei a São Pedro de Moel, percebi que ainda era de noite. Como raio é que ia descobrir os vinte por cento de Pinhal que não tinha ardido?
Parei a mota ao pé do Observatório Astronómico, que estava deserto, e resolvi descansar. Abri a garrafa de vinho tinto das Cortes e depressa dei cabo dela. Tão depressa que nem me lembro de ter acabado a garrafa, de ter adormecido e do dia ter chegado. Do que me lembro é que quando abri os olhos o sol já estava alto. Era tão grande a claridade que tive de colocar os óculos de sol. E foi aí que pensei de novo nos vinte por cento do Pinhal do Rei que tinham sobrevivido. Montei na mota e saí por ali fora à procura desses vinte por cento de Pinhal intacto. Quando o descobri, parei, escondi a mota e preparei a metralhadora. E pus-me a patrulhar a zona a pé.
Já ao final do dia, vi aproximar-se um jipe da GNR. O que raio é que eles aqui estavam a fazer? Deviam ter estado aqui era no dia do incêndio.
Mirei o jipe e disparei. Acertei na chapa. Os guardas assustaram-se e foram embora.
E pensei que ainda bem que eu estava ali. Não tinha de a aturar, a ela, e estava a defender aquilo que era meu. E o próximo que ali chegasse, levava com a mesma conta.
Agora, não há muito tempo, lá ao fundo, muito ao fundo da estrada, comecei a ouvir o barulho de camiões. Vários camiões, parece. O que será?

[escrito directamente no facebook em 2017/10/20]

Quantas Vezes Temos de Perder as Nossas Vidas?

Este espaço era para falar da minha paixão pela Surma depois de ouvir Antwerpen e depois dos vários, não muitos admito, concertos que vi. Só que, entretanto, aconteceu Domingo. E São Pedro de Moel. Desculpa, Débora.

Fui alertado por amigos do que estava acontecer no Pinhal do Rei. Um braseiro. São Pedro de Moel estava cercado pelas chamas. Ninguém podia sair. A primeira preocupação foi a família. Ao descobrir todos bem, veio o amargo pelo que estava acontecer a um sítio que já foi, para mim (e sempre será nas minhas memórias) uma espécie de quintal das traseiras onde vivi uma parte muito importante da minha vida. Um quintal cheio, vivido, silencioso…

Ao mesmo tempo acabei por descobrir que São Pedro de Moel não era caso único. O mesmo estava a acontecer um pouco por todo o país, do Tejo para cima. E descobri o horror. Mais de 500 fogos activos ao mesmo tempo. Ainda não consigo processar a coincidência. É demasiado certinho para ser natural.

A fúria, logo seguida da frustração, não tardou a chegar. Os canais de notícias mantiveram, até demasiado tarde, as suas emissões normais. Quando passaram aos directos, foram em busca do circo, da imagem de encher o olho, da emoção, da morte. A informação concreta do que se estava a passar e onde e como e porquê e como sobreviver em certas zonas e o que fazer e as necessidades e toda a informação relevante e útil acabou por chegar pelos meios de comunicação regionais e, acima de tudo, pelas tão mal tratadas redes sociais.

Ainda não refeitos de Pedrogão Grande, o inferno voltou a consumir-nos. E não aprendemos nada. Quantas vezes temos de perder as nossas vidas para perceber? As beatas lançadas do carros, as queimadas, os plásticos largados no chão… Não me interessa demissões de ministros. Nada tenho contra a compra de submarinos, que um dia podem ainda vir a ser úteis. Mas é necessário que se priorizem as prioridades. Onde estão os guardas-florestais? A limpeza das matas? O controle da industria da eucalipto? As nomeações por mérito e responsabilidade? É necessário que quem coordena saiba coordenar. E que quem investiga, investigue. E que quem julga, julgue. Mas não só politicamente. Estamos a falar de negócios, de negócios de milhões que se fazem à custa da morte, da madeira queimada, dos eucaliptos, dos terrenos, dos helicópteros e aviões, da reconstrução, do reordenamento, da alteração de políticas e, acima de tudo, do poder que se exerce.

Segunda-feira o ar estava irrespirável em Leiria. Seguramente muito pior na Marinha Grande, em São Pedro de Moel e noutros pontos críticos do país. Descubro que o Pinhal do Rei desapareceu. E quem me trata da bronquite?

[escrito para o Jornal de Leiria em 2017/10/19]

O Profiler

O elevador voltou a avariar. Já é sina minha. Dia-sim, dia-não, lá tenho de me pôr a subir as escadas do prédio porque os elevadores estão cansados. E cansam-se ao mesmo tempo. E cansam-me a mim.
Sorte que não trazia compras. Ia leve, e leve comecei a subir as escadas.
As luzes do prédio iam acendendo-se à minha passagem. Sempre achei graça aos sensores. Dá um toque mágico à nossa existência. Dou um passo e acende-se a luz. Para trás vão-se apagando as outras. As que ficam. Nós somos o centro da iluminação, da vida. Levamos a luz connosco.
Estava no terceiro andar quando uma das luzes se acendeu e reparei num líquido um pouco viscoso e claro que saía por baixo de uma porta. Aproximei-me e examinei o líquido. Parecia sangue. Mas diluído.
Bati à porta. Toquei à campainha. Bati com mais força. Mas, lá de dentro, o silêncio. Somente o silêncio. Peguei no telemóvel e liguei para o 118.
Passou tempo. Algum tempo. A mim, na altura, pareceu-me muito tempo. Mas não sei se, efectivamente, foi muito tempo. Mas lá apareceu a polícia, os bombeiros e os paramédicos.
Os bombeiro arrombaram a porta. Os polícias avançaram pela casa dentro logo seguidos pelos paramédicos.
Eu, cá de fora, ia ouvindo os barulhos que faziam no interior da casa. As frases entrecortadas e sem sentido. Vi os flashes a serem disparados e a iluminarem o interior do apartamento. Depois os paramédicos saíram com uma maca e alguém lá deitado. O corpo ia tapado por um cobertor. Notei que tombavam pequenas gotas de sangue da maca, que iam ficando pelo chão a acompanhar o trajecto da maca até à rua.
Passado algum tempo, os polícias e os bombeiros saíram para o patamar do apartamento. E ficaram lá a conversar. Um dos polícias estava a avisar a central da ocorrência. Ninguém deu por mim. Sou invisível. Ninguém me liga. E eu entrei na casa.
Entrei devagar pelo corredor sombrio e segui o rasto de sangue até à casa-de-banho, e vi o estado em que esta estava. Inundada de água encarnada. E, de repente, como um profiler, vi o que aconteceu: um homem nu sentado no chão de um polibã, a chorar e com a água do duche a tombar-lhe sobre a cabeça. Numa mão, uma navalha de barba. E vi a navalha cortar os pulsos, de cima para baixo, primeiro um, depois o outro. E vi o sangue a começar a jorrar. A navalha a cair no chão. O corpo a perder a postura, a tombar, a ficar inerte. Vi o pé do homem tapar o ralo, o polibã a encher e começar a verter água, encarnada, para fora. E a água fugiu casa-de-banho fora, passou pelo corredor e saiu para fora do apartamento, onde se cruzou comigo.
Saí daquela casa a correr. Subi o resto das escadas até ao meu apartamento. Entrei depressa e fui directo à casa-de-banho. E vomitei na sanita.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/18]

O Apocalipse Passou por Aqui

Eu vi-os rezar para que chovesse.
Eu vi quando começou a chover. Já lá vão três meses. E ainda não parou. A chuva passou de solução a problema. E já não é um problema. É uma catástrofe.
Estou aqui em cima, em casa, à janela, a fumar. Tenho uma pequena abertura na janela por onde sai o fumo do cigarro. Não me atrevo a ir à varanda. Aquelas bátegas magoam.
Desde que comecei a fumar este cigarro, este que ainda tenho aqui entre os dedos, já vi passar lá em baixo, na enxurrada, três cadáveres. Já lhes perdi a conta desde que passou o primeiro há cerca de um mês.
Tive sorte de haver um quiosque no rés-do-chão deste prédio e lá ter ido buscar o aproveitável quando as coisas começaram a dar para o torto. Vários volumes de tabaco. Revistas. Pastilhas. Muitas latas de tabaco de enrolar. Pena não ser um supermercado ou uma mercearia.
As pessoas deixaram de ir trabalhar com a persistência e a violência da chuva. A sociedade parou. Os alimentos começaram a desaparecer das lojas e nunca mais foram repostos. As lojas fecharam. Depois começaram os assaltos. Mas não durou muito tempo. A chuva que criou o problema, também foi salvação contra os assaltos. As pessoas deixaram de sair à rua. A rua passou a ser um enorme rio. Vivemos todos numa gigantesca Veneza. Mas sem o romantismo. Só mesmo em último, dos últimos casos, alguém se atreve a sair de casa.
Mas se ainda tenho tabaco, a comida começa a escassear. Mesmo com o controle que tenho feito, estou a ficar sem comida. Amanhã ou depois vou ao apartamento de cima. Vivia lá uma idosa. Pode ser que já tenha morrido. E tenha lá deixado alguma coisa que comer.
É preciso aguentarmos até que pare de chover e esperar que não seja tarde de mais. Preciso de encontrar gente. Preciso de conversar. Preciso de um beijo. Estou farto desta solidão e do barulho repetitivo das bátegas de chuva a bater em todo o lado com violência. Estou farto das noites em completa escuridão. Já não tenho paciência para ler. Passo os dias aqui, à janela, a fumar enquanto houver tabaco, à espera que algo aconteça.
Penso que alguém, algures, há-de estar a rezar para isso, para que algo aconteça, para que a chuva pare. Depois, depois havemos de ter muitos cadáveres para enterrar.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/17]

Quando o Dinheiro Fresco se Torna Frágil

O dinheiro fresco faz muito mal à ignorância. Torna-a arrogante.
Ele, o Dinheiro Fresco, chegou montado no seu automóvel topo de gama, parou nas cargas e descargas, deixou o carro a trabalhar e entrou dentro da loja cheio de pressa. O Dinheiro Fresco anda sempre com pressa.
Exigiu, porque o Dinheiro Fresco não pede, ser atendido com brevidade, que tinha o carro mal parado, estava com muita pressa e tinha muitos, e importantes, afazeres. A loja em polvorosa dedicou-se a alimentar o ego do Dinheiro Fresco que viu, apreciou, discutiu, afirmou e concluiu o que queria e queria, também, uma atençãozinha, porque o Dinheiro Fresco não discute dinheiro, mas afunila as despesas. É assim que se acumula, pensou.
Despachado da loja, sem um adeus ou um obrigado, que o Dinheiro Fresco não compra a boa educação, nem é servil, arrancou no seu carro topo de gama, saltando para a estrada obrigando o trânsito que lá vinha a travar bruscamente para dar passagem a quem manda no mundo.
O Dinheiro Fresco mora fora da cidade, embora tenha casas lá dentro, porque gosta da opulência da dimensão da vivenda, ou chalé como é costume chamar-se por aqui.
Num cruzamento à saída da cidade deu de caras com uma fila de trânsito parado lá à frente pela polícia que impedia a passagem à direita. Ignorando as ordens, até porque paga os seus impostos que pagam os salários àqueles tipos, o Dinheiro Fresco deu aso à velocidade do seu automóvel, guinando para a direita, e passando pela berma, junto aos polícias, mandando passear a autoridade que gesticulava na sua direcção a impossibilidade de seguir para onde queria seguir.
Como o Dinheiro Fresco na sua arrogante ignorância achava que sabia tudo, não percebeu que estava a meter-se labirinto dentro e, quando o descobriu, quando percebeu que estava rodeado de chamas, que estava no meio de um enorme e terrível incêndio e que já não conseguia sair de lá, de andar para a frente ou para trás, já era tarde. E nesse momento, o Dinheiro Fresco tornou-se um homem como todos os outros, frágil perante a morte.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/16]

É Assim o Mal

Ele estava à janela da cozinha a olhar para a rua. Já era de noite mas o bafo que vinha lá de fora fazia-o transpirar bastante. Verão em Outubro não era normal.
Ele fumava um cigarro. E depois outro e outro. Não chegava a acabá-los. Mandava invariavelmente fora mais de metade do cigarro, porque queria voltar para dentro de casa, para fazer não sabia bem o quê, mas andar por lá, ver coisas, cheirar coisas, lembrar coisas.
Pouco antes das dez da noite pegou no telemóvel, na carteira, nas chaves e saiu de casa.
Foi à rodoviária e comprou um bilhete para as dez da noite. O expresso chegou e ele entrou. Viu a cidade passar diante das grandes janelas, depois a escuridão polvilhada de pequenas luzes, umas mais distantes que outras, e sentiu-se levado estrada fora.
Foi dormitando. Lia as notícias no telemóvel. Jogava pequenos jogos tipo puzzle. Voltava a passar pelas brasas e, constantemente, ia olhando as luzes que lhe provavam a existência de vida lá fora, no meio da escuridão silenciosa.
Por volta das duas da manhã, o expresso parou numa estação de serviço. Saiu como os outros, foi à casa-de-banho urinar, lavou as mãos e foi à cafetaria beber uma cerveja e comer um rissol de camarão que era só massa, sem conteúdo e, de camarão, nem cheiro.
O expresso voltou a arrancar e o seu ritmo manteve-se. Dormitou, viu o Facebook, o Instagram e o Tweeter.
Eram seis da manhã quando chegou ao seu destino. Saiu do autocarro e sentiu o bafo quente misturado com o ar salgado da praia. Inspirou fundo e sentiu os pulmões crescerem. Ouviu, ao fundo, algum barulho de gente, restos da noite.
Foi directo a casa dela. Primeiro bateu à porta, devagar. Depois com mais força. Por fim tocou à campainha. Várias vezes. Mas a porta não se abriu. Não ouviu nenhum barulho no interior. Ela não estava em casa.
Triste e desiludido saiu para a rua. Caminhou ao longo da marginal e virou para a zona velha à procura de um sítio aberto onde ficar algumas horas e tomar o pequeno-almoço.
Ao virar a esquina deu de caras com quatro tipos, mal-encarados. Um deles dirigiu-se-lhe Tens lume, pá? ao que respondeu Não fumo, e mal teve tempo de responder que lhe saltaram logo para cima, aos murros e pontapés, até ele cair no chão, e enrolar-se sobre si próprio numa tentativa de se proteger, mas continuou a levar muitos pontapés em todas as partes do corpo, e murros, e puxaram-lhe o cabelo e arrastaram-no e depois, era já quase tudo uma mera memória de um pesadelo, e sentiu que o levantavam e o levavam para qualquer lado. Sentiu medo, mesmo horror, mas não havia nada que pudesse fazer, que conseguisse fazer. Sentia-se morto. Até que, de repente, deixou de sentir o que quer que fosse.
Acordou na praia, já o sol estava no seu trajecto descendente.
Era Outubro mas a praia estava cheia. Algumas crianças e um cão estavam de volta dele, a olhá-lo. Ele levantou-se, dorido. Levou a mão ao bolso e reparou que tinha com ele o telemóvel e as chaves e a carteira tinha o dinheiro e o cartão multibanco. Quem lhe bateu, bateu-lhe só por maldade. É assim o mal. Não se justifica.
Eram cinco da tarde. Ficara adormecido na praia o dia quase inteiro. Desceu ao mar e molhou a cara. Doeu-lhe. Mas todo o corpo lhe doía.
Foi até à paragem dos autocarros e esperou pelas seis da tarde. Chegou o expresso que queria. Entrou nele e deixou-se levar de volta para casa.
Veio a dormir o tempo quase todo. Eram duas da manhã quando chegou. Foi tomar um duche. Viu como tinha o corpo dorido e cheio de hematomas. Depois foi até à janela da cozinha e fumou um cigarro enquanto olhava a rua e sentia o bafo quente que lhe chegava adormecer-lhe as dores. E pensou Parece um Dejá vu. Porque raio lá fui? Estava tão bem quietinho…
Entretanto, numa casa junto à praia, um corpo nu de mulher jazia tombado na casa-de-banho. À volta da cabeça uma poça de sangue escura.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/15]

Mesmo Quando as Coisas Correm Mal, Correm Bem

São Miguel, Açores.
Dei uma volta a pé pela ilha. Fiquei fascinado por todo aquele verde. Um verde mesmo verde, de erva, de relva cuidada, de árvores de sede saciada. De terra lavada. Um cheiro fresco.
Não sendo muito dado a paisagens bucólicas, a verdade é que me senti rendido ao pastoral. Tive vontade de mandar passear a minha vida no continente e deixar-me ficar por lá. Patetices de quem tem muito tempo para pensar e acaba por não pensar nada de jeito.
Estava perdido nestas conversas idiotas comigo próprio quando fui interceptado por ela. A Ophelia. A maldita da Ophelia. Depois dos 14 furacões anteriores terem resolvido chatear os americanos, esta Ophelia teve o desplante de arrepiar caminho e vir até à Europa. Talvez por ser mais fraquinho.
Bom, apanhado a meio do passeio, longe da pensão onde estava hospedado, olhei à volta e não encontrei nada melhor que a piscina ferrosa do Terra Nostra. Corri para lá já o vento era poderoso e me dificultava o caminho. Já havia coisas a voar. Não sei o quê. Coisas. Cheguei-me ao pequeno muro, despi-me, enfiei a roupa num buraco do muro, coloquei-lhe umas pedras em cima e entrei dentro da piscina. Deitei-me lá dentro no quentinho e só deixei a cabeça de fora, para ficar atento ao que se passava. Por cima formava-se uma verdadeira enciclopédia da humanidade, tal a quantidade e variedade de coisas bizarras que passaram rente a mim, a voar, levadas pelo vento que, por esta altura já era terrível.
E eis que a vi, a rapariga. Agarrada à corrente que encima o muro e o acompanha. Tentou puxar-se. Por vezes o corpo voava, só se fixando pelas mãos à corrente. Eu fui rastejando dentro da piscina, junto ao muro, até me aproximar dela. Estendi-lhe a mão, enquanto me agarrei também à corrente. Ela passou para dentro da piscina e deitou-se no fundo, só com a cabeça de fora. Tal como eu. E quando estávamos os dois lá no fundo agarrou-se a mim com força. E medo. Eu disse-lhe Desculpa, estou nu. Ela sorriu, mas um sorriso amarelo, de medo, de quem não sabe o que fazer ou dizer. Um sorriso de quem tem medo que o céu lhe caia em cima da cabeça. E ficámos assim por muito tempo, não sei quanto, a ouvir a Ophelia a refilar, as coisas a voar e os guinchos e os sopros e… E adormecemos.
Quando despertámos, a Ophela já tinha passado. Levantámos-nos. Fui buscar a roupa e vesti-me. Ela tremia de frio e medo. À nossa volta estava tudo muito destruído, ramos de árvores, muitas folhas, lixo, uma vaca com um golpe no quadril por onde saía sangue, pedaços de muro caídos, um carro virado, um tractor tombado numa pequena valeta…
Peguei na rapariga e dirigimos-nos até ao Terra Nostra. Pedimos para tomar um banho e lavar a roupa.
Enquanto esperávamos, comemos um queijo da ilha barrado com piri-piri e vinho tinto. Vindo lá de fora ouvíamos ainda o sopro do que restava da Ophelia e cá dentro o crepitar de uma lareira acesa.
Acho que nos Açores a vida é assim. Mesmo quando as coisas correm mal, correm bem.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/14]

Quero Parar de Tomar os Comprimidos

Hoje decidi parar de tomar os comprimidos.
Sinto-me bem. Há muito tempo que não me sentia tão bem. E é fim-de-semana. E quero viver este fim-de-semana. Quero beber uns copos. Quero arranjar umas miúdas. Quero sentir-me bem, outra vez.
Por isso, decidi parar de tomar os comprimidos.
Quero beber umas cervejas ao fim-do-dia. Vinho ao jantar. E ir para o gin ao longo da noite. Por isso, é melhor parar de tomar os comprimidos.
Além de que os comprimidos tiram-me a tesão. E este fim-de-semana preciso de sexo. Quero sexo. Umas raparigas giras que me queiram aturar, e dar-me colo e um par de estalos na cara para aquecer.
Por isso, o melhor foi mesmo parar de tomar os comprimidos. Até porque são uma perda de tempo. Eu estou bem. Sinto-me bem. Tudo o que se passou não foi culpa minha. Estão sempre a chatear-me, a fazer-me perder a paciência. Fazem de propósito. E ninguém percebe. Quero dizer, os meus amigos percebem. Aqueles que são realmente meus amigos sabem que a culpa não é minha, só reajo ao que me fazem, e fazem só para me provocar.
Por isso, parei de tomar os comprimidos.
Vou sair para a noite. Beber uns copos. Arranjar umas miúdas…
Mas, e se não conseguir ter relações com elas? Será que é suficiente ter parado hoje de tomar os comprimidos? E se eu não tiver tesão em frente às raparigas? E o álcool pode agravar isso. Acho que não ia aguentar. E depois ainda gozavam comigo. E chamavam-me impotente. E se calhar sou. Se calhar sou impotente. Se calhar a culpa não é dos comprimidos. Se calhar sou mesmo eu que sou assim, falho.
Acho que é melhor ficar em casa. Não me apetece ver gente. Nem me apetece vestir. Nem tomar banho. Quero dizer, ir tomar banho e vestir uma roupinha lavada para me ir embebedar e passar vergonhas frente a umas miúdas. Não, não, não. É melhor não. Não quero. Não quero ver pessoas. Elas só me querem chatear. Só me querem provocar. Acho que vou ficar por casa. E desligar o telemóvel. Não quero ver ninguém. Quero ir para a cama e dormir. Quero dormir. Sozinho.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/13]