Umas Fissuras no Tecto

O tecto tinha umas fissuras, que iam de uma parede até quase à outra, mas acabando por morrer ali, algures no tecto, depois de passar pelo candeeiro da sala.
Eu estava deitado no sofá. A televisão ligada, mas a trabalhar para o boneco. Eu estava mais interessado no tecto e nas suas fissuras. E voltei lá várias vezes, às fissuras. É que cada vez que começava a olhar e a pensar nelas, a minha cabeça ia, invariavelmente, para outro lado, pensar noutras coisas e, o mais curioso, é que não lhes achei nenhuma ligação com as fissuras.
Por isso não estranhei quando, a olhar, de novo para as fissuras no tecto, me veio um desejo louco de comer uma maçã.
Levantei-me do sofá e comecei a sair da sala quando a ouvi chamar-me. Virei-me para trás e descobri-a ali, no sofá, com os óculos na mão, a olhar para mim e a dizer Vais à cozinha? Traz-me uma maçã, se fazes favor! e eu fiquei ali assim, a olhar para ela e a perguntar-me O que é que ela aqui está a fazer? Depois ela colocou os óculos, ajeitou a mantinha sobre as pernas e começou a mexer no telemóvel.
Saí da sala e fui até à cozinha. Lavei duas maçãs. Dei uma trincadela numa delas e voltei para a sala para lhe dar, a ela, a outra maçã.
Quando entrei na sala, reparei que ela não estava lá. Como era natural. Ela não estava ali. Eu tinha imaginado tudo. Na verdade, eu estava sozinho.
Coloquei a outra maçã na mesa de apoio e voltei a deitar-me no sofá. E descobri umas fissuras no tecto. Umas fissuras que iam de uma parede até quase à outra. Trinquei a maçã e decidi Tenho de mandar arranjar aquelas fissuras.
Na mesa de apoio estava uma outra maçã, já trincada.

[escrito directamente no facebook em 2017/19/22]

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Lembro-me, Sim Eu Lembro-me

Lembro-me. Sim, lembro-me.
Lembro-me de quando o Outono era Outono e chegava depois do Verão. Lembro-me que largava os calções e regressavam as calças, as botas, as camisolas e os casacos. Lembro-me que, pouco-a-pouco, chegava o frio e dizia ao calor para se ir embora, mas devagarinho.
Lembro-me de regressar às aulas, do cheiro dos livros novos, do reencontro com os amigos, da descoberta dos recreios com gente nova.
Lembro-me que os dias ficavam mais pequenos porque tinham medo da noite.
Lembro-me que ainda se estava longe do Natal, mas que este prometia coisas boas e não a angústia de hoje. Lembro-me das idas à praia nas férias grandes ser uma memória viva que se contava e recontava com o prazer na ponta da língua. O Pedrogão, a Vieira, São Pedro de Moel e a Nazaré. Dos piqueniques no Pinhal do Rei. Das sestas depois de almoço. Das sardinhadas aos fins-de-semana.
Lembro-me de devorar os livros dos Cinco e dos Sete e das Gémeas e da minha mãe me fazer parar de ler e mandar para a rua brincar.
Lembro-me dos primeiros namoros. Da mão-na-mão, do primeiro beijo quase roubado e que foi um bilhete de ida-e-volta à Lua.
Lembro-me do centro da vida ter passado dos meus pais para os meus amigos e depois para as minhas paixões e depois para a minha família e depois… E depois…
Lembro-me de quando a vida era muito mais simples. De quando a responsabilidade não era minha. De quando ninguém esperava nada de mim. De quando podia ser o que era e não o que deveria ser.
Lembro-me de quando a criança era criança…
Lembro-me de quando a criança queria crescer para ter aquilo que já não quer ter. Quando queria ser aquilo que já não quer ser.
Lembro-me de quando a criança cresceu e não queria. Queria ser o miúdo d’O Tambor.
Mas agora, que lembro tudo o que fui, e vejo o que sou, sei que não quero voltar atrás. Mas quero lembrar. E deixar-me embriagar.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/21]

Fui Defender o Pinhal do Rei e Não o Encontrei

Tínhamos acabado de jantar enquanto víamos as notícias dos incêndios no país. Ouvi que oitenta por cento do Pinhal do Rei tinha ardido. E esta notícia ficou-me na cabeça. A zumbir.
Fui lavar a louça. E quando ela fechou os estores da janela, fiquei irritado. Ainda havia luz no exterior. E gosto de ver as luzes coloridas que vêm lá de fora. Mas ela tem medo dos fantasmas que se aglomeram à entrada da janela para entrar em casa e chateá-la. Eu percebo-a. Mas irrita-me. E com esta história dos oitenta por cento do Pinhal do Rei estava realmente muito sensível. E gritei. Gritei-lhe. E ela foi sentar-se no sofá, sentida comigo que não a percebia.
Acabei de lavar a louça e fui até ao quarto. Sentei-me na cama e pensei no Pinhal do Rei. E nos oitenta por cento que arderam. E nos vinte por cento que restavam. Algo estava a nascer. Uma ideia. Uma vontade.
Fui debaixo da cama e retirei a AK-47 que tinha comprado aos tipos que assaltaram o arsenal de Tancos. Embrulhei-a numa toalha. Fui à cozinha e arranjei um farnel. Um naco de pão. Um bocado de queijo. Meio chouriço. Uma garrafa de vinho tinto das Cortes. Meti tudo numa mochila. E disse-lhe Venho tarde, e ela respondeu Tem cuidado, e eu fui, mas antes apanhei a metralhadora no quarto.
Pus a mota a trabalhar e arranquei. Fui para São Pedro de Moel. Ia procurar os vinte por cento de Pinhal que tinham sobrevivido.
Mas quando cheguei a São Pedro de Moel, percebi que ainda era de noite. Como raio é que ia descobrir os vinte por cento de Pinhal que não tinha ardido?
Parei a mota ao pé do Observatório Astronómico, que estava deserto, e resolvi descansar. Abri a garrafa de vinho tinto das Cortes e depressa dei cabo dela. Tão depressa que nem me lembro de ter acabado a garrafa, de ter adormecido e do dia ter chegado. Do que me lembro é que quando abri os olhos o sol já estava alto. Era tão grande a claridade que tive de colocar os óculos de sol. E foi aí que pensei de novo nos vinte por cento do Pinhal do Rei que tinham sobrevivido. Montei na mota e saí por ali fora à procura desses vinte por cento de Pinhal intacto. Quando o descobri, parei, escondi a mota e preparei a metralhadora. E pus-me a patrulhar a zona a pé.
Já ao final do dia, vi aproximar-se um jipe da GNR. O que raio é que eles aqui estavam a fazer? Deviam ter estado aqui era no dia do incêndio.
Mirei o jipe e disparei. Acertei na chapa. Os guardas assustaram-se e foram embora.
E pensei que ainda bem que eu estava ali. Não tinha de a aturar, a ela, e estava a defender aquilo que era meu. E o próximo que ali chegasse, levava com a mesma conta.
Agora, não há muito tempo, lá ao fundo, muito ao fundo da estrada, comecei a ouvir o barulho de camiões. Vários camiões, parece. O que será?

[escrito directamente no facebook em 2017/10/20]

Quantas Vezes Temos de Perder as Nossas Vidas?

Este espaço era para falar da minha paixão pela Surma depois de ouvir Antwerpen e depois dos vários, não muitos admito, concertos que vi. Só que, entretanto, aconteceu Domingo. E São Pedro de Moel. Desculpa, Débora.

Fui alertado por amigos do que estava acontecer no Pinhal do Rei. Um braseiro. São Pedro de Moel estava cercado pelas chamas. Ninguém podia sair. A primeira preocupação foi a família. Ao descobrir todos bem, veio o amargo pelo que estava acontecer a um sítio que já foi, para mim (e sempre será nas minhas memórias) uma espécie de quintal das traseiras onde vivi uma parte muito importante da minha vida. Um quintal cheio, vivido, silencioso…

Ao mesmo tempo acabei por descobrir que São Pedro de Moel não era caso único. O mesmo estava a acontecer um pouco por todo o país, do Tejo para cima. E descobri o horror. Mais de 500 fogos activos ao mesmo tempo. Ainda não consigo processar a coincidência. É demasiado certinho para ser natural.

A fúria, logo seguida da frustração, não tardou a chegar. Os canais de notícias mantiveram, até demasiado tarde, as suas emissões normais. Quando passaram aos directos, foram em busca do circo, da imagem de encher o olho, da emoção, da morte. A informação concreta do que se estava a passar e onde e como e porquê e como sobreviver em certas zonas e o que fazer e as necessidades e toda a informação relevante e útil acabou por chegar pelos meios de comunicação regionais e, acima de tudo, pelas tão mal tratadas redes sociais.

Ainda não refeitos de Pedrogão Grande, o inferno voltou a consumir-nos. E não aprendemos nada. Quantas vezes temos de perder as nossas vidas para perceber? As beatas lançadas do carros, as queimadas, os plásticos largados no chão… Não me interessa demissões de ministros. Nada tenho contra a compra de submarinos, que um dia podem ainda vir a ser úteis. Mas é necessário que se priorizem as prioridades. Onde estão os guardas-florestais? A limpeza das matas? O controle da industria da eucalipto? As nomeações por mérito e responsabilidade? É necessário que quem coordena saiba coordenar. E que quem investiga, investigue. E que quem julga, julgue. Mas não só politicamente. Estamos a falar de negócios, de negócios de milhões que se fazem à custa da morte, da madeira queimada, dos eucaliptos, dos terrenos, dos helicópteros e aviões, da reconstrução, do reordenamento, da alteração de políticas e, acima de tudo, do poder que se exerce.

Segunda-feira o ar estava irrespirável em Leiria. Seguramente muito pior na Marinha Grande, em São Pedro de Moel e noutros pontos críticos do país. Descubro que o Pinhal do Rei desapareceu. E quem me trata da bronquite?

[escrito para o Jornal de Leiria em 2017/10/19]