A Girls Night Out

Ela chegou eufórica a casa.
Era Sexta-feira. E tinha combinado sair com duas amigas. Uma girls night out. Há quanto tempo não saía!
Chegou a casa e gostou do silêncio que encontrou. Despachou os filhos para casa do pai e sentiu-se no paraíso.
Pôs a banheira a encher de água quente e despejou sais de banho. Fez espuma. Muita espuma. E tomou um banho de imersão. Estava tão cansada que adormeceu no banho. Quando acordou, a água já estava fria. Saiu. Enxugou-se. Escolheu umas calças de ganga apertadas com as quais teve de saltar para as conseguir passar pelo rabo. Uma camisa com um decote considerável. E um delicioso perfume floral.
Saiu de casa, apanhou um táxi e foi ter ao restaurante onde combinou com as amigas.
Era um restaurante selecto. Caro. Mas não havia confusão de grupos e adolescentes. Comeram cozinha de fusão. Qualquer coisa de estranho, mas que gostaram. Ou pelo menos pensaram que sim. Beberam vinho branco. Duas garrafas. Atiraram-se sem remorsos aos doces conventuais, cheios de ovos e açúcar. Mas gostaram. E lamberam os lábios para não perderem uma migalha.
Saíram do restaurante e foram até um bar. Beberam um gin da moda, cujo nome desconhecem mas que vinha mais enfeitado que uma árvore de Natal. Reparou nos olhos dos homens sobre ela. E gostou. Mas não queria mais que aquilo. Só queria ser apreciada. Olhada. Vista. Também pelas mulheres, Especialmente pelas mulheres. Mas claro, pelos homens também. Queria sentir-se no olho do furacão. E durante algum tempo sentiu-se. Depois, com o bar a encher, teve de partilhar as atenções com raparigas mais novas. Mais disponíveis. E que lhe roubaram o protagonismo.
Saíram do bar e foram até à discoteca. Fartaram-se de dançar êxitos dos anos ’80. Até parecia que tinha viajado na cápsula do tempo. Beberam cerveja. Foram apalpadas na confusão da pista de dança, mas não ligaram.
A meio da noite ela sentia-se cansada. O corpo já não queria mexer-se. Queria ali, ao pé dela, o seu sofá. Já não conseguia beber mais um gole de cerveja. Já não queria olhar mais para a cara imberbe dos rapazes que a olhavam com curiosidade. Falaram as três e decidiram ir embora. As duas amigas tinham actividades familiares de manhã. Sim, queriam ir embora. Mas tinham gostado muito da noite. Todas as três. E prometeram repetir a dose. Uma noite destas.
Ela chegou de táxi a casa. Sozinha. Foi para a sala e ligou a televisão para ouvir barulho. Despiu-se na sala e largou a roupa por lá. Depois foi às escuras corredor fora até ao quarto. Entrou para dentro da cama, sentou-se à cabeceira, com as pernas encolhidas e o edredão puxado para cima. Nos seus ouvidos uma parede sonora com os baixos a explodir. Os olhos, debaixo das pálpebras fechadas, teimavam em ver.
De repente sentiu uma boa dose de angústia a caminhar pelo peito, e a comprimi-lo. De repente sentiu-se velha. De repente sentiu-se sozinha e velha numa casa enorme. De repente sentiu que a sua vida estava marcada pela ausência. Não sabia bem de quê. De qualquer coisa que a tirasse daquele vazio melancólico e a preenchesse. Ficou com medo. Estava sentada sozinha na cama e ficou cheia de medo da solidão. A sentir-se velha e sozinha. Perdida, talvez.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/27]

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