Um Piquenique na Fonte da Felícia

Era domingo. Um domingo de Outono. O sábado tinha corrido mal. Chateámos-nos, eu e ela. Por coisas sem sentido e peso. Mas foi o que aconteceu. E ela deu-me um estalo. E eu parti uma jarra que a mãe dela lhe tinha dado.
Por isso, no domingo passei lá por casa com uma cesta para um piquenique e ela ficou sensibilizada, muito contente, agarrou-se com os braços ao meu pescoço e encheu-o de beijos até me deixar todo lambuzado.
Saímos de carro e fomos até à Fonte da Felícia, ali no Pinhal do Rei, perto de São Pedro de Moel, nas margens da ribeira.
Levei uma manta que coloquei no chão. Depois retirei do cesto uns pratos de plástico, uns talheres e uns copos. Os copos eram de vidro, claro. Retirei do cesto uns queijinhos secos, um frasco com alcaparras e uma latinha com anchovas e outra com azeitonas, e um grande pão do Soutocico. Abri uma garrafa de vinho tinto. E servi o vinho. Fizemos um brinde a nós. Petiscámos e, um pouco mais tarde, surpresa das surpresas: desvendei um tacho com arroz de frango que ainda estava quente. Ela fartou-se de rir quando me viu tirar o tacho que estava envolvido em folhas de papel do jornal A Bola. E fartámos-nos de comer.
De barriga cheia, deitámos-nos na manta, abraçados um ao outro e adormecemos. E passámos um pouco pelas brasas.
Quando acordámos estava calor e fomos tomar um banho na ribeira.
Despimo-nos e, nus, a brincar um com o outro como miúdos, fomos para o meio da ribeira, molhámos-nos, chapinhámos e pulámos ridiculamente. Não deu para nadar, porque a água era pouca, mas deu para nos entusiasmarmos e, passado pouco tempo, estávamos a fazer amor nas margens da ribeira.
Depois voltámos para a manta e fumámos uns cigarros. E mandámos as beatas fora. Estávamos eufóricos. Parecíamos dois putos apaixonados. Por isso nem ligámos ao lixo que fizemos e por lá deixámos. Arrumámos as nossas coisas e resolvemos voltar para casa para ir ao cinema. Era preciso não perder a onda da boa disposição.
Foi mais tarde, quando saímos do cinema, que ouvimos, no noticiário, que o Pinhal de Leiria tinha ardido quase todo. E foi aí que fiquei preocupado e pensei Apagámos os cigarros? Mas não comentei nada com ela. Não queria que nos chateássemos de novo.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/24]

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