O Profiler

O elevador voltou a avariar. Já é sina minha. Dia-sim, dia-não, lá tenho de me pôr a subir as escadas do prédio porque os elevadores estão cansados. E cansam-se ao mesmo tempo. E cansam-me a mim.
Sorte que não trazia compras. Ia leve, e leve comecei a subir as escadas.
As luzes do prédio iam acendendo-se à minha passagem. Sempre achei graça aos sensores. Dá um toque mágico à nossa existência. Dou um passo e acende-se a luz. Para trás vão-se apagando as outras. As que ficam. Nós somos o centro da iluminação, da vida. Levamos a luz connosco.
Estava no terceiro andar quando uma das luzes se acendeu e reparei num líquido um pouco viscoso e claro que saía por baixo de uma porta. Aproximei-me e examinei o líquido. Parecia sangue. Mas diluído.
Bati à porta. Toquei à campainha. Bati com mais força. Mas, lá de dentro, o silêncio. Somente o silêncio. Peguei no telemóvel e liguei para o 118.
Passou tempo. Algum tempo. A mim, na altura, pareceu-me muito tempo. Mas não sei se, efectivamente, foi muito tempo. Mas lá apareceu a polícia, os bombeiros e os paramédicos.
Os bombeiro arrombaram a porta. Os polícias avançaram pela casa dentro logo seguidos pelos paramédicos.
Eu, cá de fora ia ouvindo os barulhos que faziam no interior da casa. As frases entrecortadas e sem sentido. Vi os flashes a serem disparados e a iluminarem o interior do apartamento. Depois os paramédicos saíram com uma maca e alguém lá deitado. O corpo ia tapado por um cobertor. Notei que tombavam pequenas gotas de sangue da maca, que iam ficando pelo chão a acompanhar o trajecto da maca até à rua.
Passado algum tempo, os polícias e os bombeiros saíram para o patamar do apartamento. E ficaram lá a conversar. Um dos polícias estava a avisar a central da ocorrência. Ninguém deu por mim. Sou invisível. Ninguém me liga. E eu entrei na casa.
Entrei devagar pelo corredor sombrio e segui o rasto de sangue até à casa-de-banho, e vi o estado em que esta estava. Inundada de água encarnada. E, de repente, como um profiler, vi o que aconteceu: um homem nu sentado no chão de um polibã, a chorar e com a água do duche a tombar-lhe sobre a cabeça. Numa mão, uma navalha de barba. E vi a navalha cortar os pulsos, de cima para baixo, primeiro um, depois o outro. E vi o sangue a começar a jorrar. A navalha a cair no chão. O corpo a perder a postura, a tombar, a ficar inerte. Vi o pé do homem tapar o ralo, o polibã a encher e começar a verter água, encarnada, para fora. E a água fugiu casa-de-banho fora, passou pelo corredor e saiu para fora do apartamento, onde se cruzou comigo.
Saí daquela casa a correr. Subi o resto das escadas até ao meu apartamento. Entrei depressa e fui directo à casa-de-banho. E vomitei na sanita.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/18]

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