O Apocalipse Passou por Aqui

Eu vi-os rezar para que chovesse.
Eu vi quando começou a chover. Já lá vão três meses. E ainda não parou. A chuva passou de solução a problema. E já não é um problema. É uma catástrofe.
Estou aqui em cima, em casa, à janela, a fumar. Tenho uma pequena abertura na janela por onde sai o fumo do cigarro. Não me atrevo a ir à varanda. Aquelas bátegas magoam.
Desde que comecei a fumar este cigarro, este que ainda tenho aqui entre os dedos, já vi passar lá em baixo, na enxurrada, três cadáveres. Já lhes perdi a conta desde que passou o primeiro há cerca de um mês.
Tive sorte de haver um quiosque no rés-do-chão deste prédio e lá ter ido buscar o aproveitável quando as coisas começaram a dar para o torto. Vários volumes de tabaco. Revistas. Pastilhas. Muitas latas de tabaco de enrolar. Pena não ser um supermercado ou uma mercearia.
As pessoas deixaram de ir trabalhar com a persistência e a violência da chuva. A sociedade parou. Os alimentos começaram a desaparecer das lojas e nunca mais foram repostos. As lojas fecharam. Depois começaram os assaltos. Mas não durou muito tempo. A chuva que criou o problema, também foi salvação contra os assaltos. As pessoas deixaram de sair à rua. A rua passou a ser um enorme rio. Vivemos todos numa gigantesca Veneza. Mas sem o romantismo. Só mesmo em último, dos últimos casos, alguém se atreve a sair de casa.
Mas se ainda tenho tabaco, a comida começa a escassear. Mesmo com o controle que tenho feito, estou a ficar sem comida. Amanhã ou depois vou ao apartamento de cima. Vivia lá uma idosa. Pode ser que já tenha morrido. E tenha lá deixado alguma coisa que comer.
É preciso aguentarmos-nos até que pare de chover e esperar que não seja tarde de mais. Preciso de encontrar gente. Preciso de conversar. Preciso de um beijo. Estou farto desta solidão e do barulho repetitivo das bátegas de chuva a bater em todo o lado com violência. Estou farto das noites em completa escuridão. Já não tenho paciência para ler. Passo os dias aqui, à janela, a fumar enquanto houver tabaco, à espera que algo aconteça.
Penso que alguém, algures, há-de estar a rezar para isso, para que algo aconteça, para que a chuva pare. Depois, depois havemos de ter muitos cadáveres para enterrar.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/17]

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