É Assim o Mal

Ele estava à janela da cozinha a olhar para a rua. Já era de noite mas o bafo que vinha lá de fora fazia-o transpirar bastante. Verão em Outubro não era normal.
Ele fumava um cigarro. E depois outro e outro. Não chegava a acabá-los. Mandava invariavelmente fora mais de metade do cigarro, porque queria voltar para dentro de casa, para fazer não sabia bem o quê, mas andar por lá, ver coisas, cheirar coisas, lembrar coisas.
Pouco antes das dez da noite pegou no telemóvel, na carteira, nas chaves e saiu de casa.
Foi à rodoviária e comprou um bilhete para as dez da noite. O expresso chegou e ele entrou. Viu a cidade passar diante das grandes janelas, depois a escuridão polvilhada de pequenas luzes, umas mais distantes que outras, e sentiu-se levado estrada fora.
Foi dormitando. Lia as notícias no telemóvel. Jogava pequenos jogos tipo puzzle. Voltava a passar pelas brasas e, constantemente, ia olhando as luzes que lhe provavam a existência de vida lá fora, no meio da escuridão silenciosa.
Por volta das duas da manhã, o expresso parou uma estação de serviço. Saiu como os outros, foi à casa-de-banho urinar, lavou as mãos e foi à cafetaria beber uma cerveja e comer um rissol de camarão que era só massa, sem conteúdo e, de camarão, nem cheiro.
O expresso voltou a arrancar e o seu ritmo manteve-se. Dormitou, viu o Facebook, o Instagram e o Tweeter.
Eram seis da manhã quando chegou ao seu destino. Saiu do autocarro e sentiu o bafo quente misturado com o ar salgado da praia. Inspirou fundo e sentiu os pulmões crescerem. Ouviu, ao fundo, algum barulho de gente, restos da noite.
Foi directo a casa dela. Primeiro bateu à porta, devagar. Depois com mais força. Por fim tocou à campainha. Várias vezes. Mas a porta não se abriu. Não ouviu nenhum barulho no interior. Ela não estava em casa.
Triste e desiludido saiu para a rua. Caminhou ao longo da marginal e virou para a zona velha à procura de um sítio aberto onde ficar algumas horas e tomar o pequeno-almoço.
Ao virar a esquina deu de caras com quatro tipos, mal-encarados. Um deles dirigiu-se-lhe Tens lume, pá? ao que respondeu Não fumo, e mal teve tempo de responder que lhe saltaram logo para cima, aos murros e pontapés, até ele cair no chão, e enrolar-se sobre si próprio numa tentativa de se proteger, mas continuou a levar muitos pontapés em todas as partes do corpo, e murros, e puxaram-lhe o cabelo e arrastaram-no e depois, era já quase tudo uma mera memória de um pesadelo, e sentiu que o levantavam e o levavam para qualquer lado. Sentiu medo, mesmo horror, mas não havia nada que pudesse fazer, que conseguisse fazer. Sentia-se morto. Até que, de repente, deixou de sentir o que quer que fosse.
Acordou na praia, já o sol estava no seu trajecto descendente.
Era Outubro mas a praia estava cheia. Algumas crianças e um cão estavam de volta dele, a olhá-lo. Ele levantou-se, dorido. Levou a mão ao bolso e reparou que tinha com ele o telemóvel e as chaves e a carteira tinha o dinheiro e o cartão multibanco. Quem lhe bateu, bateu-lhe só por maldade. É assim o mal. Não se justifica.
Eram cinco da tarde. Ficara adormecido na praia o dia quase inteiro. Desceu ao mar e molhou a cara. Doeu-lhe. Mas todo o corpo lhe doía.
Foi até à paragem dos autocarros e esperou pelas seis da tarde. Chegou o expresso que queria. Entrou nele e deixou-se levar de volta para casa.
Veio a dormir o tempo quase todo. Eram duas da manhã quando chegou. Foi tomar um duche. Viu como tinha o corpo dorido e cheio de hematomas. Depois foi até à janela da cozinha e fumou um cigarro enquanto olhava a rua e sentia o bafo quente que lhe chegava adormecer-lhe as dores. E pensou Parece um Dejá vu. Porque raio lá fui? Estava tão bem quietinho…
Entretanto, numa casa junto à praia, um corpo nu de mulher jazia tombado na casa-de-banho. À volta da cabeça uma poça de sangue escura.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/15]

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