Uma Paixão Feita de Distância

Vivemos tempos esquisitos.
O Verão assaltou o Outono. Agosto entrou por Setembro dentro, continuou pelo Outubro e não se sabe onde irá parar. São cada vez mais os avisos de Fim do Mundo por parte de seitas, cujo número não pára de aumentar. Uma figura importante levanta a hipótese de a vida ser uma simulação. O Big Bang já não é a origem do Universo. O algoritmo passou a ser a entidade mais importante do mundo. E o twitter comanda a humanidade.
Mas aqui, nesta pequena cidade também presa ao calor do Verão, um homem assentou arraiais no passeio e passou os dias a olhar para um dado apartamento de um dado prédio.
O homem está lá de manhãzinha e observa o levantar dos estores. Acompanha o bailado da rapariga entre as diferentes janelas das diferentes divisões da casa. Ele já sabe quando ela se levanta ou se vai deitar, quando cozinha e quando se senta para almoçar ou jantar. O pequeno-almoço é feito em andamento pela casa. A rapariga trabalha em casa. Ele sabe quando ela precisa de sair e para quê. E nessas alturas afasta-se do seu sítio para que ela não o veja.
O homem sabe quando é que a rapariga está a ver um filme ou a ouvir música ou até a ler. Os movimentos e as luzes da casa reflectem cada uma dessas realidades. Até percebe se ela está bem ou mal.
Ele também sabe quando ela se vai deitar, e se vai mesmo dormir ou ler ou navegar numa rede social. E fica lá, a olhar para os estores fechados e as luzes desligadas, a sentir o sono, o sonho, a calma da noite dormida da rapariga.
Mas nunca lhe fala. Nunca se lhe dirige. E evita cruzar-se com ela quando ela vem à rua. A paixão do homem é intensa, mas tímida e feita de distância.
São tempos estranhos, estes.
Uma dia ela não abriu os estores e ele passou o dia inteiro à espera de um movimento. À noite, não houve um acender de luzes. E ele começou a preocupar-se. E assim foi durante os seguintes três dias e três noites. Sem sinal dela.
Durante esse tempo, ele não arredou pé do passeio em frente, nem durante o dia, nem durante a noite. Não comeu. Não bebeu. Não foi à casa-de-banho. Não falou com ninguém. Nem pregou olho, ficando com eles bem abertos a olhar para o apartamento lá em cima à espera de um qualquer pequeno sinal de vida.
No quarto dia, o nascer do sol foi encontrá-lo encostado ao muro do passeio, de olhos fechados, quieto, parado.
A rapariga, de pequena mala de viagem com rodinhas a fazer barulho à sua passagem avançou pelo passeio e, antes de cruzar a estrada para casa, viu ali aquele corpo e aproximou-se. Perguntou-lhe Está tudo bem? e sem que houvesse resposta, abanou-o pelos ombros e ele caiu, inerte, no chão. Ela deu um pequeno grito, mas ele já não a ouviu. Já não estava lá.
Estes são tempos muito esquisitos.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/09]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s