Quando Já Não Resta Nada

Ele estava na sala, sentado no sofá, a olhar para a televisão onde se falava da disputa de poder dentro do PSD, da não-independência da Catalunha e dos tweets de Donald Trump sobre a Coreia do Norte. Mas não estava a tomar atenção a nada disso. Que lhe importava a ele o estado degradado do mundo se o próprio mundo dele estava a desfazer-se?
Desligou a televisão. A casa ficou em silêncio. Olhou pela janela para a rua e viu a noite a chegar. Lá em baixo passavam os automóveis, alguns já com os faróis ligados. E pessoas apressadas a irem para casa fazer o jantar, ou buscar os filhos, ou para o ginásio ou para um encontro.
Saiu da sala e foi até ao quarto. Deixou-se cair sobre a cama. Fechou os olhos e ficou assim por momentos. Depois levantou-se e deixou-se ficar sentado na cama. Olhou demoradamente à sua volta, os pequenos objectos nas mesinhas-de-cabeceira, os quadros na parede, as portas do roupeiro fechadas. Pensava em como tinha sido possível chegar ali. Ele e ela já mal se falavam. As conversas limitavam-se a perguntas e respostas. Já não partilhavam nada. Não discutiam gostos. Não mostravam novidades ou descobertas. O sexo já era só uma memória de algo mecânico, animal, sem paixão ou desejo. Não se lembrava da última vez que se tinham beijado. Assim um beijo a sério.
Passou pelos quartos dos filhos e olhou a desarrumação. A roupa espalhada pelo chão. Os livros abertos, os CD’s fora das caixas. E pensou que já não os conhecia, que tinham crescido sem se ter apercebido e que agora só comunicavam quando precisavam de alguma coisa. Tinham deixado de ser crianças e tinham ganho vida própria. Vida que lhe estava vedada, a ele.
Saiu para o corredor e voltou à sala. Percorreu as prateleiras repletas de livros. Percorreu-os com a mão, sentindo, ao toque, uma das suas únicas companhias. Já tinha deixado de falar com os amigos. Trocava somente algumas palavras com os colegas de trabalho e porque não podia fugir a isso. Mas os livros, esses estavam ali, sempre à espera dele, não lhe exigiam nada e davam-lhe tudo. Parou por momentos ao pé de Uma Agulha no Palheiro de J. D. Salinger e com dois dedos percorreu a cota do livro, como se se despedisse. Um encontro de vazios.
Depois saiu da sala e à entrada de casa, largou o telemóvel, o relógio de pulso e as chaves num cinzeiro que estava sobre a mesa de entrada. Abriu a porta da rua e foi-se embora. Nunca mais voltou. Mas também, nunca ninguém foi à sua procura.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/10]

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