Melancolia Outonal

Estava no café a tomar o pequeno-almoço. Depenicava uma meia-torrada e bebia um sumo de laranja natural, enquanto lia um livro. Andava de volta do Knausgård. No Outono parecia-me um bom título para a época. E o facto de serem crónicas, tornava-o uma boa companhia ao pequeno-almoço.
Estava portanto a ler enquanto ia trincando a torrada quando ouvi a porta da rua a abrir e, instintivamente, levantei os olhos. E vi-a. E ela viu-me. E depois já era tarde para voltar para trás. Mas notei aquela breve hesitação entro-não-entro, que durou nano-partes de um segundo, mas que percebi, e resolveu entrar. Veio directa a mim e disse Olá! Tudo bem? Estou com pressa, ali assim em pé, frente a mim, que fiquei com a torrada na mão a encharcar-me os dedos de manteiga. Fez um aceno baixo com a mão, como uma pequena e breve despedida, e foi até ao balcão.
Não esteve lá muito tempo. Aproveitou o facto do empregado estar atarefado com outros clientes para fingir pressa e não poder esperar. Deu meia-volta e, ao passar por mim deitou Estou com pressa. Não posso esperar. Beijinhos, enquanto passava por mim rápida. E eu, de torrada ainda suspensa na mão, com a manteiga derretida a cair para o prato, vi-a a sair porta fora e ir embora.
Coloquei a torrada no prato. Limpei os dedos. Agarrei no livro para voltar à leitura, mas não consegui. Não conseguia concentrar-me. Fechei o livro. Levantei-me. Bebi o resto do sumo em pé, larguei uma nota de cinco euros e saí.
Na rua olhei à minha volta, como a tentar perceber para onde deveria ir quando voltei a vê-la. Ela estava do outro lado da estrada, junto ao poste de sinalização, e parecia estática. Estava a olhar para o chão. Virou-se para um lado, depois para o outro. Parecia em luta consigo própria sobre para onde deveria ir. Pensei em ir ter com ela. Pensei seriamente em ir ter com ela. Ainda ensaiei um arranque, quando finalmente ela olhou para cima, levou a mão à cara, esfregou-a, e seguiu para um dos lados.
Eu fiquei ali, à saída do café, a vê-la perder-se no meio da multidão até se tornar numa pequeno ponto e depois desaparecer.
Encostei-me à parede do café a olhar o vazio lá para onde ela desapareceu e pensei O Outono deixa-me melancólico. Porque é que não fui ter com ela?

[escrito directamente no facebook em 2017/10/06]

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