Ir à Foz do Rio Através das Ruas da Cidade

Olho-me ao espelho. Descubro as olheiras. A barba já grande e cheia de brancas. Mas estou mais magro. Bem mais magro. E não estou careca.
São três da manhã e não consigo dormir. Na casa-de-banho, tento decidir o que fazer. Visto-me e saio de casa.
Gosto de passear pelas ruas vazias da cidade à noite. Entra-se num outro mundo que obriga à disponibilidade de outros sentidos.
Vou pela zona do Marachão, junto ao rio. Está escuro. Junto a umas árvores vejo dois homens, de barba, a trocar carícias. Acelero o passo. Ao pé da Rodoviária, desço as escadas e vou pelo que resta do Jardim Camões. Uma mulher está lá sentada num dos bancos e lança-me um apelo, Tens vinte euros? Eu finjo que não ouço nem vejo, e penso que já ali namorei, naqueles bancos, naquele jardim, há muitos anos.
Chego à Fonte Luminosa, e contorno-a pela esquerda. Passo pelo Feio e levo comigo o cheiro das bifanas. Mas não me apetece comer. Estou enjoado.
Subo a Fonte das Três Bicas até à Escola Branca, e descubro que alguém está a pintar palavras de ordem nas suas paredes. Continuo até à Escola Amarela, que continua da mesma cor e, na Avenida Marquês de Pombal, viro à direita, para subir até ao Hotel Euro-Sol. Mas a meio ouço uma grande explosão. Alguém está a tentar assaltar a caixa multibanco. Não me sinto herói e arrepio caminho. Começo a descer a Avenida, um pouco mais depressa, enquanto que atrás de mim os barulhos aumentam, tornam-se mais confusos, mas ainda distingo as persianas a serem abertas pelos moradores para ver o que se está a passar.
Quase no fim da Avenida Marquês de Pombal viro à direita para a Avenida Nossa Senhora de Fátima, que me leva até à Rotunda do McDonald’s que tem uns azulejos no meio que sempre pensei que fossem os pastorinhos de Fátima, mas que afinal parece que são os aldeões que vinham vender os seus produtos ao mercado de Leiria. Não tenho certeza disto. Acho que foi o que ouvi dizer. Aí, na rotunda, vou à Estação de Serviço da Galp comprar cigarros. Saio da estação e desço até ao Skate Park, vazio, em silêncio, com uma iluminação expressionista que o torna um pouco assustador até.
Sento-me num banco e fumo um cigarro. E descanso.
Demorei uma hora desde que saí de casa. E continuo na mesma. Sem sono. Sem saber o que fazer. Sem me apetecer nada.
Aos poucos começo a distinguir o barulho da água do rio que passa por ali. E decido. Finalmente tomo uma decisão. Quero ir ver a foz do Liz à Vieira.
Deixo-me cair no rio e espero que ele me leve até lá, à foz do Rio Liz, na Praia da Vieira.

[2017/09/28]

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Um comentário em “Ir à Foz do Rio Através das Ruas da Cidade

  1. Podia ser a sinopse de um vídeo apelativo para visitar a Leiria. Mas é muito mais humano que isso. É também o murmúrio dos homens de mais de 50 anos a habituarem-se a um novo visual e a questionarem-se sobre o que vale a pena que o fim da vida é já ali além…

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