Despojos de um Verão nos Anos ’70

São despojos de Verão.
Estávamos pelos anos ’70. Talvez antes da revolução. Numa praia ao sul. Talvez no Algarve. Talvez na zona de Albufeira. Talvez na praia da Oura.
Fazia um sol abrasador, que queimava. Ainda não tinham chegado os chapéus de palhinha. Então, as praias estavam cobertas de chapéus-de-sol e barracas. Barracas de pano às riscas a cobrir esqueletos de madeira com uma porta que abria ao seu interior e também servia de pala, de cobertura, de avançado. Ainda se encontram lá mais para o centro e norte do país.
Fazia um sol abrasador e a água prometia paraísos vários. Não era fria, mas refrescava. Não tinha quase ondas, mas não estava parada. Não tinha força e não puxava ninguém para o seu interior. O mar era uma piscina que se movimentava calmamente e o chichi que por lá se fazia, não ficava por lá. Era normal ver-se senhoras a baixar-se mesmo junto à beira-mar só para molhar o rabo, ou homens fixos ao chão, de braços cruzados ao peito e olhar perdido no horizonte, com a água pela cintura. Eram outros tempos, e alguns resistiram até hoje. É cultura.
Fazia um sol abrasador e aquela miúda não se calava com Oh, mãe, posso ir ao mar? Posso? Posso?, e a mãe deitada a apanhar banhos de sol não respondia. Ao lado, um miúdo um pouco mais velho, lia uma banda-desenhada, ignorando tudo. E a miúda lá continuava com aquela lenga-lenga, enquanto fazia buracos na areia e dava uso a todos os brinquedos que para ali tinha levado Oh, mãe?! Mãe?, nem se dignando a olhar para a mãe. Parecia uma gravação monocórdica, repetitiva. Chata.
Fazia um sol abrasador quando a miúda, no meio das suas brincadeiras, tropeçou no pau do avançado, fazendo-o cair precisamente sobre a cara da mãe que depois de um Oh, mãe?! da miúda, se levantou de um pulo, levando com ela um enorme berro sonoro, que fez as caras virarem-se, e a asneira que afogou na garganta, e correu para dentro da barraca.
O miúdo largou a banda-desenhada e correu, imediato, atrás da mãe. A miúda ficou onde estava, a olhar pasmada para dentro da barraca, mas sem ver nada que o sol nos olhos lhe queimava o interior.
A mãe chorava e gritava e despejava água sobre o lábio que já começava a inchar a olhos vistos. O miúdo chorava baixinho, com medo. A mãe fazia-lhe festas e dizia-lhe que já estava tudo bem, Foi só o susto, meu querido. e o miúdo perguntava Onde é que está o pai? O pai?, mas o pai não estava ali que não gostava de praia. Estaria nalguma esplanada a beber uma cerveja fresquinha e a ler A Bola.
Lá fora, debaixo do sol abrasador, a miúda, alheia ao que tinha acontecido, continuava Oh, mãe! Mãe?! Posso ir ao mar? Sim? Posso ir tomar banho?

[escrito directamente no facebook em 2017/09/29]

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s