Como se Nenhum de Nós Estivesse Lá

Acabámos o jantar. Em silêncio. E assim ficámos por momentos. Evitando os olhares. Prolongando o silêncio. Como se nenhum de nós estivesse lá com o outro. Era assim nos últimos tempos.
Levantei-me da mesa e, subitamente, congelei. Tempo ainda de levar uma mão trémula a agarrar-se nas costas da cadeira para me suportar, enquanto a outra pulou ao coração.
Não senti nada. Ou melhor, deixei de sentir. O coração parou e fui puxado para uma tela de cinema onde estavam a ser projectadas algumas imagens difusas, mas eu não estava a assistir, eu era o filme, o protagonista, a tela, tudo.
Eu a sair de uma escuridão húmida e aconchegante para uma luz muito branca, fria e, ao início, muito desconfortável. Eu nos colos da minha mãe, do meu pai, de desconhecidos, muitos desconhecidos, e em festas de aniversário, com muitas crianças e cowboys e palhaços, e eu não gosto de palhaços, e na escola, contente e triste e alegre e assustado e feliz e com raparigas, mais raparigas muitas raparigas, e rapazes, amigos, a jogar futebol e andebol e à pancada e a correr, a fugir, a cair, a andar de bicicleta, de mota, de carro, na faculdade, o sexo, as raparigas, o sexo, as viagens, porra, as inúmeras viagens a sítios onde o mundo se fez mundo e me faz chorar, os amigos, as amigas, as coisas, muitas coisas, coisas diferentes, mas coisas, e a música e o cinema e os livros e cores, muitas cores, e drogas, as bebedeiras, o trabalho, os trabalhos, o casamento, o nascimentos dos filhos, primeiro um, depois outro, a morte dos pais, primeiro o pai, depois a mãe, a tristeza, a calma, o sossego, depois as zangas, o desespero, o azedume, o vazio e, de repente, estou sozinho numa casa enorme, sentado num grande sofá, em robe, a olhar, trémulo, a televisão, e ao fundo passeia-se um gato, calmamente, arrogante, rei da casa e o único sinal de vida por ali…
Desperto. Sinto o coração a recomeçar a bater, como um motor que voltasse a pegar depois de parecer afogado, e deixo cair a mão que o amparava.
Ela está ao pé de mim e pergunta Está tudo bem? e eu respondo Sim…, Mas agarro-lhe a mão, puxo-a para mim, dou-lhe um beijo na cara e com os olhos peço desculpa, pelo que fiz e pelo que não fiz… Ela sorri, retribui o beijo e afasta-se devagar, deixando a mão para trás para se manter o máximo de tempo em contacto comigo e então, começa a dançar.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/25]

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