Era Tudo Escuridão

Era de noite e estava a fazer a avenida principal da Marinha Grande, uma cidade industrial, antes do vidro, agora dos moldes, que fica entre Leiria e São Pedro de Moel, ali na Beira Litoral, ou na Estremadura, as opiniões dividem-se, andando num pára-arranca doido com todos aqueles semáforos sempre a cair no vermelho quando eu deles me aproximava, até que chego à Rotunda do Vidreiro e sou obrigado a parar atrás de uma outra viatura que já lá está parada, à espera de entrar numa rotunda onde não se avistava nenhum carro a circular.
Tinha acabado de parar atrás do carro, quando saem de lá de dentro quatro homens, cada um da sua porta, aproximando-se do meu carro e eu assustei-me com a rapidez de um possível assalto. Ora, tendo já sido trancado atrás por outra viatura, entretanto chegada, e não podendo subir os passeios que me induzem à rotunda por serem muito altos, senti-me preso, mas logo arrancado à bruta de dentro do meu carro por umas patorras que cortaram o cinto de segurança com uma navalha e me puxaram à força para o meio do asfalto.
De dentro do meu carro vinham os gritos histéricos da minha mulher. Eu fui rodeado pelos quarto homens que desataram a dar-me murros e pontapés. Tentei encolher-me, tornar-me mais pequeno para ter menos corpo onde bater, protegi a cabeça com as mão, os braços, as pernas, com tudo o que me foi possível para lá puxar, enquanto os quatro continuavam a arrear-me forte e feio, à bruta, uma tareia dolorosa, em todo o corpo, tronco, pernas, braços, rabo, cabeça, e os gritos da minha mulher em pano de fundo, lá muito ao fundo, cada vez mais distantes, como se ela estivesse a ser afastada de mim com muita rapidez.
Houve uma altura em que o corpo respondia ao toque, abanava, rodava, tremia como gelatina, mas eu já não sentia dor alguma, já não sentia nada, já não ouvia os gritos da minha mulher, já não ouvia nada, tentei ainda abrir os olhos, mas não consegui, estava tudo na escuridão, no vazio, no limbo. E, de repente, nada. Desapareci.

Acordei um pouco bêbado da medicação numa cama de hospital. Estava cheio de hematomas, inchaços, rasgos, sangue, algum sangue espalhado por vários sítios da cara, sangue muito escuro, arranhões e uns curativos, algum esparadrapo e muitas dores. Muitas dores.
Algum tempo depois, chegou a polícia a querer algumas informações. E não me lembrava de grande coisa. Depois a minha mulher, num estado ainda mais lastimável que o meu, sem saber o que dizer, abraçou-me e soube-me bem sentir o seu calor húmido junto a mim. Ela exalava a preocupação de quem tinha acabado de assistir ao fim do mundo de uma forma dolorosa.
Eu nunca soube que me agrediu nem porquê.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/20]

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