Para que a História Sobreviva

Isto já aconteceu há muitos anos. E ninguém conhece a história. Eu sei porque estava lá. E sou a única pessoa viva que estava lá e pode contar a história. Uma história que ninguém conhece porque não sabe que ela aconteceu. E agora que a morte de mim se aproxima, sinto a obrigação de a contar.
Foi há mais de setenta anos. Estávamos em Setembro. Era o início das aulas e, como sempre, eu ia a pé com um amigo que morava perto. Éramos ambos da mesma escola, da mesma turma. Éramos mesmo amigos, daqueles amigos que fazem tudo igual, se um vai, o outro também, se um fica doente, o outro adoece e assim.
Nesse dia, ainda no início das aulas logo depois do Verão, deu-nos a lazeira e fizemos gazeta. Arrancamos da rua, deixámos as mochilas escondidas dentro de um poço abandonado, e fomos até ao rio. Passámos por uma vinha e enchemos a barriga de uva branca ainda à espera de ser vindimada.
Chegados ao rio, descalçámos-nos e fomos subindo-o até ao açude. Parámos num caniçal, apanhámos umas canas e fizemos arcos e flechas e depois fizemos pontaria aos pássaros mas, a única coisa que conseguimos foi acertar numas maçãs, que caíram, apanhámos e levámos connosco.
No açude despimo-nos e fomos nadar. Eu andei às voltas dentro de água. O meu amigo subiu a uma árvore e mergulhou. Entrou dentro de água, mas nunca mais saiu. Eu fiquei assustado e mergulhei mas não conseguia abrir os olhos dentro de água. Ainda hoje não consigo. E não o encontrei. Saí do rio. Vesti-me e sentei-me na margem à espera que ele aparecesse. Passado um bocado, não sei quanto, comecei a chorar, a chorar muito, fiquei ainda mais assustado e desatei a correr rio fora. Fugi. Subi o rio a correr muito e só parei quando me começaram a faltar as forças e a ter dificuldade em respirar.
Foi aí que parei. E pensei no que tinha acontecido, e desatei a chorar ainda mais. Acho que fiquei em pânico.
Mas depois serenei e pensei que tinha de voltar para casa. E não contar nada do que se tinha passado.
Fui buscar as roupas dele ao açude e voltei ao poço para apanhar a minha mochila e deitar a dele, junto com as roupas, para o fundo. E esperar que ninguém viesse a recuperar esse poço.
Cheguei a casa e não disse nada.
Quando o pânico se instalou na casa do meu amigo, e os pais primeiro, a polícia depois e ainda, e várias vezes a seguir, os professores me perguntaram se eu o tinha visto, a minha história foi sempre a mesma: que ele não estava à minha espera para ir para a escola; que eu achei que ele estivesse doente; que não queria ir sozinho para a escola; que tinha ido para a vinha comer uvas e depois andei a passear por ali, no campo, à cata de passarinhos e dos seus ninhos.
E assim ficou.
E ele nunca apareceu – apareceu-me a mim quase todos os dias da minha vida, a mergulhar no rio e eu a gritar para que não o fizesse e ele sem me ouvir.
Os pais mudaram-se pouco depois. E eu nunca mais esqueci o que se tinha passado naquele dia. E se conto aqui, hoje, a história, é para que depois de eu morrer ele não seja esquecido.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/15]

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