Os Fantasmas de São Pedro de Moel

Estou em São Pedro de Moel. Estou na primeira rotunda para quem vem da Marinha Grande.
À minha direita, o Bambi, o bar ali enfiado no meio do pinhal e que tantas boas memórias traz a tanta gente numa das suas diferentes mutações, está fechado. Foda-se. Queria um gin. Precisava de algo que me animasse.
Desço em direcção à Praça. Vejo, ao fundo, à minha frente, o mar. O belo e agressivo mar de São Pedro.
À direita passa por mim a Âncora Azul, que assim ninguém conhece, mas que é o restaurante do senhor João, o dos melhores bifes do mundo, feitos com dentes de alho gigante esmigalhados com a casca.
Continuo a descer, que São Pedro é lá no fundo, em baixo, para onde todos os santos ajudam, e passo pelo Topis, e depois, mais abaixo volto a passar de novo pelo Topis, que são dois, cada um com a sua função. E estão fechados, assim como o Âncora Azul e o mini-mercado ali à beira do senhor João. Algo se passa, que o mini-mercado nunca fecha durante todo o ano para servir à meia-dúzia de pessoas que lá consegue viver durante o ano inteiro.
Continuo a descer e passo o Rosis, quem o viu e quem o vê!, não sei como está, mas está diferente. Transformado. Outro. Mas respira São Pedro. São Pedro respira-se a si próprio.
Chego à Praça e procuro a senhora dos tremoços, mas não a encontro.
Já não sei que horas são. Se é de noite ou de dia. Se é Verão ou outra coisa qualquer que o calendário gosta de qualificar. Mesmo o Café da Praia, junto à areia, está fechado e sem a protecção contra as inundações. Já Volto?
Nem vejo a Natália, que tantos percebes apanhou para satisfação de quem não consegue entrar lá, onde a onda bate e dói. Não vejo ninguém. São Pedro de Moel está vazia. Não há carros, nem pessoas, nem sequer as mulheres da minha vida. Ninguém.
Oiço, contudo, o som eléctrico de uma mota de criança ali no meio da Praça. Mas tudo não passa de meras memórias. Fantasias de quem quer acreditar numa coisa qualquer.
Desço os degraus até à areia e depois vou por ali fora até à beira-mar. Penso que, se calhar, está toda a gente no Old Beach, no outro lado de São Pedro, já nas suas berças. Ou nas ruínas das piscinas a celebrar uma qualquer festa numa qualquer rave fora de tempo.
Mergulho nas águas revoltas de São Pedro e desato a nadar. Se for sempre em frente, devo chegar à América. Com o tempo que vou demorar, pode ser que o Donald Trump já lá não esteja. E eu tenha direito ao meu sonho americano.
Mas tenho coragem de deixar São Pedro para trás?

[escrito directamente no facebook em 2017/09/13]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s