Espero que Lá Seja Melhor do que Aqui

Já comecei a perder cabelo. O que era previsível. O problema vão ser os dentes. Vão deteriorar-se. Começam a enfraquecer e acabam por se desfazer na boca. Às vezes nem é preciso estar a comer, a mastigar. Basta um ranger para eles se desfazerem.
Não sei se quero passar por isto.
Os enjoos são constantes. Principalmente depois das sessões. Mas volta-e-meia regressam. Não tenho vontade de comer. Nem de beber. Nem de foder. Não me apetece nada. Sento-me em frente ao televisor desligado e olho para o ecran negro. Não me apetece ler, nem ouvir música, nem ver filmes nem séries. Não me apetece mesmo nada. Não quero estar sentado, nem deitado, nem em pé. Estou fatigado. Mas fatigado de tudo. De ser, de ter, de pertencer. Apetece-me não estar aqui, nem passar por isto. Apetece-me não ser eu.
Toda esta correria para hospitais, tratamentos, comprimidos, perca de faculdades, o cabelo, os dentes e, acima de tudo, a cabeça, não me permite estar tranquilo. Apanhar autocarros a horas certas para estar a horas certas em sítios para esperar que se faça qualquer coisa que não se sabe se garante alguma coisa… Isto não é vida. É preciso um dinheiro que não tenho, incomodar pessoas que não quero, para levar uma espécie de vida que não o é. Muito menos garantida.
Só quero que me deixem em paz. Que me deixem chorar. Que me deixem gritar. Que me deixem escolher a vida que quero ter ou não.
Viver a vida é isso mesmo, viver a vida. Viver a morte, não. Não quero.
Agarro num limão e corto-o a meio. Espremo uma metade para dentro de um copo alto. Encho-o com pedras de gelo. Despejo lá para dentro Bombay. Até meio. Encho a outra metade com água tónica. Mexo e provo. E aprovo.
Vou à gaveta da mesinha-de-cabeceira, no quarto, e retiro a caixa metálica que tenho lá guardada. Abro-a e revejo o seu conteúdo: xanax, zolpidem e valium. Coisas que fui guardando. A quantidade não é muita, mas deve chegar. E é melhor tomar a decisão enquanto posso e enquanto não a tomam por mim.
Sento-me no sofá a olhar o ecran negro da televisão desligada. Vou bebericando o gin que preparei. Está saboroso. E vou engolindo os comprimidos como se fossem amendoins. Quando acaba, deito-me no sofá e aguardo. E espero que lá, onde for, seja melhor que aqui.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/16]

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