A Rapariga na Varanda

O cão estava a rosnar. Aquele rosnar gutural, forte e muito assustador que sai lá de dentro de muito fundo dentro do estômago do cão. E mostrava os dentes, aguçados e prontos a morder.
Eu parei. Estático. Estátua de sal. Ou gelo. Mais de gelo porque gelei. Parei a olhar para o cão e a tentar perceber o que se iria passar.
Olhámos os dois um para o outro. Estudámos-nos. Estávamos os dois com medo, mas eu queria fugir. Ele queria atacar.
Não sei que cão era. Suponho que era um rafeiro, mas arraçado de qualquer coisa grande, porque era enorme, de pêlo ralo, castanho, um pouco para o escuro, mas com uma espécie de madeixas mais claras.
Virei os olhos à procura de escapatória, mas sem mexer a cabeça, para manter aquele impasse entre mim e ele. E vi a salvação na forma de um poste de electricidade junto ao muro do colégio. Estava nas traseiras do colégio de freiras a caminho do bairro. O cão andava à caça dos patos que por ali costumavam passear-se, quando nos cruzámos. Eu era maior e mais cobarde, e ele era mais forte e assustador. Ele estava a ganhar.
Desatei a correr a uma velocidade tal que facilmente bateria os 100m barreiras. Cheguei ao poste e subi-o sem perceber o que estava a fazer e, quando dei por mim, estava no cimo do muro a olhar o cão, apanhado de surpresa e que, entretanto, parara de arreganhar os dentes e de me rosnar. Olhava-me também admirado por tal façanha: como raio tinha eu conseguido subir o muro?
Ouvi um assobio e o cão virou-me costas e foi-se embora. Uma rapariga, na varanda de uma casa próxima, assobiara para chamar o cão e ele foi.
Olhei a rapariga e achei-a gira. Bonita, muito bonita mesmo. De longos cabelos castanhos esvoaçantes. Ficou a olhar para mim. Quando o cão chegou debaixo da varanda, fez-lhe sinal com a mão e ele entrou para dentro de uma casota. Apaixonei-me.
Eu desci do muro, pelo poste, sempre a olhar a rapariga enquanto me afastava dali em direcção ao bairro.
No dia seguinte voltei a passar pelo mesmo caminho nas traseiras do colégio de freiras. O cão já não andava por lá. Eu trazia um ramo de margaridas, que tinha apanhado pelas redondezas, na mão. Subi ao muro e esperei. Pela rapariga. Mas ela não apareceu. Ao fim de algum tempo fui-me embora mas deixei lá o ramo de margaridas.
Amanhã iria lá voltar. Mas dessa vez iria levar rosas. Rosas de um rosa escuro. E ela iria estar na varanda. À minha espera.

[escrito directamente para o facebook em 2017/09/17]

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