Maria Cabral

É uma das imagens mais bonitas que já vi na vida. E já levo uma vida longa.
E lembro-me, exactamente, onde vi essa imagem pela primeira vez.
Estávamos a meio da década de ’80 e o Artur Avelar organizou uns ciclos de cinema do Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria. Um dos ciclos era uma mostra de cinema português, muito alicerçada no cinema novo. E foi aí, nesse ciclo, onde vi vários filmes do cinema novo, que vi um dos mais belos rostos do cinema português: Maria Cabral. O filme era O Cerco, e era realizado e produzido por António da Cunha Telles.
A imagem que me marcou é a do final do filme quando Maria Cabral está sentada, frente a um espelho, a pintar sardas no rosto e olha para o espelho, mas acho que ela não se vê, nem vê o espelho, nem tem consciência da equipa de filmagens, porque Maria Cabral tem um olhar para além de tudo isso, que se transporta para fora do mundo e da razão e carrega nele todo o tédio que se pode suportar. Aliás, l’ennui, porque o que ela sente, o que mostra que sente, o que parece que a compõe está muito para além do tédio português. Só mesmo a expressão francesa l’ennui pode traduzir, na perfeição, o seu olhar.
Acho que foi ao ver este filme, este final, e esta aparição de Maria Cabral, que me apaixonei pela primeira vez.

[escrito directamente no Facebook em 2017/09/11]

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