E Continuo a Chorar. Porque Não Posso Fazer de Outra Maneira

Finalmente consigo chorar.
Estou cá em cima, a olhar lá para baixo, e não consigo parar de chorar. Toda a gente está a olhar para mim. Acham normal. Mas não quero saber o que acham. Finalmente estou a chorar, a libertar-me e não consigo parar. E, ao mesmo tempo, sabe-me bem. Alivia-me. Repousa-me. Liberta-me. Leva-me para longe de toda a gente.
Mas no início não conseguia. Recordo estar parado à entrada, ao portão, a fumar cigarro atrás de cigarro, a cumprimentar quem chegava, a agradecer o terem vindo, a receber as suas flores, os pêsames, os beijos, os abraços, muitos deles sentidos.
Sentindo contigo a falta do teu pai, escreveram. Acho que foi a coisa mais bonita que me escreveram.
Conversei. Ainda fui beber umas cervejas. Mais tarde, à noite, ainda consegui ir ao cinema. O Mundo a Seus Pés do Orson Welles. E revivi o meu Rosebud. Que porra de filme que tinha de escolher para aquela noite. Mas nem assim. Nem assim chorei.
E no dia seguinte, entre a multidão que me acompanhou na viagem de adeus, mantive-me assim, sereno, calmo. Como se tudo fosse naturalidade vivida normalmente. Fumei mais cigarros. Acho que nunca fumei tanto na vida. Percebi, mais tarde, que eram os nervos. Aqueles que julgava não ter, atacavam-me devagar, moíam-me, até me destruírem por completo.
E foi ali, naquele momento, já depois de todas as palavras e rezas e gritos e choros alheios e de todas as carpideiras profissionais terem feito o seu trabalho, foi ali, naquele momento, quando vejo o meu pai a ser descido, finalmente, lá para baixo, que rebento num choro torrencial. Percebi então, naquele momento, que já não havia regresso, que era mesmo o fim, que nunca mais o iria ver, falar com ele, discutir, acompanhá-lo ao futebol, e que ele nunca iria ver o homem em que me iria tornar, que tudo terminara mesmo. Foi então que eu comecei a chorar. De dor. De miséria. Mas também de alívio. Sentia todo o meu interior a ganhar espaço, a crescer, a aumentar a capacidade de poder respirar…
Sinto todo o meu corpo a ganhar espaço, infinitamente. E continuo a chorar. Por ele. Por mim. E porque não posso fazer de outra maneira.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/09]

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