Com Água a Bater-lhe nos Pés

Costa vicentina.
A meio da manhã, numa praia cheia de gente, um casal passa, ao longo da beira do mar, de mãos dadas. Vão alheios à confusão que os rodeia. Deixam a multidão para trás e continuam a caminhar ao longo da costa. Passam para a próxima praia e depois para a outra e ainda para a seguinte. Têm de subir às rochas, passar pelo meio da água e fugir à rebentação. E continuam assim, durante algum tempo, praias fora ao longo da costa.
Até que chegam a uma pequena enseada rodeada de grandes paredes de rocha quase lisa que a protege. O areal está imaculado. Não há uma única pegada desde a última maré-cheia. Tudo lisinho.
O casal fica eufórico com a descoberta. Sentem que estão sozinhos no mundo. No paraíso. Largam os sacos e as toalhas e despem-se e ficam nus. Brincam um com o outro, patetas, um a atentar apanhar o outro, riem, correm e terminam a mergulhar no mar.
Voltam para a areia e começam a jogar raquetas. Cansam-se. Transpiram e voltam de novo ao mar. Nadam durante algum tempo. Ele manda-lhe água para cima. Ela mergulha e tenta puxá-lo para baixo de água. E acabam agarrados, aos beijos, primeiro com calma, com uma certa doçura, mas depressa aceleram o desejo e acabam a fazer amor à beira-mar.
Sobem até às toalhas, deitam-se e deixam-se adormecer debaixo do sol quente do Alentejo. Cansados.
Mais tarde ele acorda com a água do mar a bater-lhe nos pés. Levanta-se sobressaltado. Acorda a rapariga. Assustam-se com a proximidade da água do mar. Já é tarde, o sol está a cair rapidamente no horizonte e a maré encheu bastante. Juntam as coisas, colocam os sacos às costas e tentam sair por onde vieram. Mas o mar já não os deixa passar. Junto às rochas está agora uma forte zona de rebentação com muita espuma. Voltam para trás. Ele tenta escalar a parede lisa de rocha. Mas é difícil. Não encontra saliências onde agarrar com as mãos. E ela não consegue subir. E o mar já galgou toda a areia. E continua a subir.
Ela tem agora a água pela cintura. E entre o sobe e desce com as ondas, não irá tardar até ela não ter pé.
Ele salta para a água e tenta ajudá-la a subir. Mas revela-se uma tarefa impossível. Ela não consegue agarrar-se às rochas. Ele volta a subir para a parede e dá a mão à rapariga. Ela agarra-o, mas logo escorrega e uma onda rebenta-lhe em cima e depois leva-a para dentro do mar. Ele grita, furioso e assustado. Olha à sua frente mas já não vê grande coisa que a luz corre rápido para fora dali. Olha as ondas, a rebentação. O mar. Procura a rapariga no meio das sombras, da espuma, das águas revoltas. Não a vê. Chama-a. Chama-a outra vez. E outra vez de novo.
E então mergulha nas águas do mar para a procurar.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/12]

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