A Vindima e a Ausência do Corpo

Acordo de madrugada. Acordo e ainda é de noite. Desperto antes do cabrão do galo que está a dormir. Levanto-me da cama e abro a janela. Não entra luz, que ainda não há, mas entra o frio da madrugada que adoro e me faz arrepiar o corpo. Acendo um resto de cigarro, só para a gosma, e fico por momentos à janela a ouvir os estranhos ruídos que o campo tem para me receber.
Ponho a máquina a fazer café enquanto tomo banho. Visto-me, bebo uns golos de café, arranjo duas sanduíches, uma de queijo e outra de fiambre, tipo york, ambas com manteiga, e coloco-as num saco de plástico que ato à cintura. Bebo o resto do café – e que bem me sabe o odor do café fresco pela manhã! -, pego numa garrafa de água do congelador, na tesoura de podar e saio de casa.
Quando chego ao ponto de encontro, já lá estão quatro ou cinco pessoas, homens e mulheres que isto não requer género.
Chega o tractor e está toda a gente pronta para a viagem. Vão todos abaixados no atrelado por causa do vento frio da manhã. Eu também. Mas o dia promete ser quente.
Chegamos à quinta e saltamos do atrelado. Dirigimos-nos para as fileiras de syrah onde vamos apanhar uvas para fazer vinho. O sol ainda não nasceu, mas já há uma ténue claridade cinzenta que nos permite ver o trabalho que precisa de ser feito.
Ainda não tinha podado o primeiro cacho quando alguém grita, um grito furioso, gutural e de medo e logo de seguida uma grande algazarra. Endireito as costas e olho à minha volta e vejo toda a gente a correr lá para um sítio e vou também, junto com a multidão. Uma mulher está sôfrega a tentar respirar e a gritar ao mesmo tempo, histérica. Alguém tenta acalmá-la. Eu olho para o chão e vejo o que parecia uma bola de futebol… Não, parecia a cabeça de uma boneca… Mas que, afinal, é a cabeça de uma rapariga. Não há corpo, só cabeça. E nem há muito sangue.
O responsável pela vindima telefona à GNR e, enquanto a guarda não chega, as gentes falam sobre quem seria a rapariga. Aparentemente ninguém a conhece. Eu muito menos que não sou dali. Alguém já a teria visto, eventualmente, num bar ali numa aldeia próxima, mas é melhor estar calado que não quer chatices em casa.
A guarda chega e com ela a notícia: não se trabalha mais nesse dia. Eu ainda nem tinha começado.
Acendo um cigarro e pergunto, sem me aperceber que o faço em voz alta, Onde raio estará o corpo?

[escrito directamente no facebook em 2017/09/10]

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