Na Praia do Norte

Nazaré. Praia do Norte. Setembro. Manhãzinha cedo.
Um homem passeia-se à beira-mar com o seu cão, um labrador castanho, louco por água. O homem vai atirando para longe um boneco de plástico e borracha que o cão vai buscar, todas as vezes, e deposita aos pés do homem, abanando a cauda, à espera que ele o volte a lançar para longe, para ele o ir buscar outra vez.
São as marés-vivas. O homem evita o mar, agitado, barulhento, espumoso, que lhe teima em vir molhar os pés. O cão não liga. Está com o dono, a brincar e ao pé de água, está no seu paraíso.
A dada altura, o homem magoa-se no braço quando está a lançar o boneco para o cão ir buscar, e acaba por lançá-lo para o mar. O cão lança-se logo no seu encalço. O homem grita, a chamar pelo cão. Mas este está fixado no boneco que flutua acima das ondas, no meio de toda aquela espuma.
Ao início o cão hesita. Olha para o boneco e tenta aproximar-se, procurando o melhor caminho, mas sentindo-se sempre barrado pela violência das ondas a bater na areia da praia. É quando o homem se aproxima dele para o agarrar que o cão resolve lançar-se ao mar e nada, nada, nada muito bem até chegar ao boneco e o abocanhar. Quando se vira para voltar para terra é que começa a sentir as dificuldades, com o mar a puxá-lo para dentro e ele a nadar, a nadar, a nadar e a não conseguir sair do mesmo sítio.
O homem anda de um lado para o outro, tentando chegar ao cão, mas fugindo das ondas agressivas, até que também ele mergulha e começa a nadar em direcção ao cão. Mas não se chegam a encontrar. Uma onda grande rebenta com toda a violência na praia e, rapidamente, a água começa a recuar para dentro do mar para formar uma onda ainda maior. O cão e o homem desaparecem no turbilhão da água e das ondas e do rebentamento e da espuma e dos remoinhos e…
O mar acalma um pouco, para retomar o seu ciclo de ondas até chegar, de novo, a uma muito grande e violenta, mas já não se vê vivalma. Não há vestígios do homem nem do cão.

Lá em cima, no alto da falésia que leva à Praia do Norte, o som baixo de um pop/rock actual sai pelas janelas de uma auto-caravana. Lá dentro uma mulher prepara o pequeno almoço para duas pessoas. Sai da auto-caravana com um jerricã e enche uma tigela de cão com água. Depois, senta-se numa cadeira de praia e espera.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/04]

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