Dois Brasileiros em Fátima e um Perdeu-se

Eles eram os dois brasileiros. Brasileiros de Recife, Pernambuco. E vieram a Portugal visitar Fátima e rezar à Virgem Maria.
Foram de avião de Recife para o Rio de Janeiro e do Rio vieram para Portugal.
Chegados à Portela, apanharam o metropolitano para Sete Rios e aí compraram bilhetes de expresso para Fátima.
Animados pela facilidade com que vieram do Recife até Lisboa, nem se chatearam muito por terem bilhetes separados no expresso. A viagem para Fátima estava esgotada e este já era um desdobramento do desdobramento. Terem lugar já foi quase um milagre. Coincidentemente ou não, este dia era também o dia da visita do Papa Francisco a Fátima.
Passaram as quase duas horas de viagem encafuados entre os vizinhos do lado e a janela, olhando a paisagem a passar por eles. Por várias vezes o olhar dela o procurou. Mas nunca cruzaram os olhares. Estavam em lugares distantes e, no expresso, mesmo tendo em conta que era obrigatório ir sentado e com o cinto colocado, vivia-se uma euforia típica de festa entre um e outro que os impedia de se verem. Passaram ambos pelas brasas.
Chegados a Fátima, ela levantou-se primeiro, porque estava mais perto da porta, e começou a sair, devagar, como todos os outros. Ele vinha lá mais atrás. Ela viu-o. Mas ele, que estava a retirar a mochila do suporte por cima do banco, não a viu.
Quando ela saiu do expresso, foi arrastada por uma multidão compacta de gente em peregrinação que tentava não perder nenhum dos seus elementos e a levou.
Quando ele conseguiu finalmente sair do expresso, a confusão no exterior ainda era bastante, e não conseguiu encontrar a sua mulher. Deu várias voltas ao recinto da Rodoviária, que também não é grande. Foi às casas-de-banho, inclusivamente à das senhoras. Dirigiu-se à bilheteira e perguntou por ela. Ninguém sabia. Ninguém a tinha visto. Nada.
Passadas algumas horas, e depois de voltar inúmeras vezes aos mesmos sítios sem dar com ela, ele apanhou finalmente um táxi para o quarto de pensão que tinha reservado já há vários meses, na esperança que ela lá estivesse. Esperança vã, contudo, que ela não estava lá, não esteve, nem apareceu durante os três dias em que ele lá foi hóspede.
Durante esses três dias, ele palmilhou Fátima a pé, procurando a sua mulher em todos os cantos, por mais improváveis que fossem. Mesmo depois da loucura papal ter terminado, e Fátima estar mais arejada, não conseguiu descobrir a mulher. O desespero fê-lo ficar a conhecer Fátima como a palma da sua mão, tantas foram as vezes que voltou aos mesmos sítios, fazendo trajectos diferentes.
Avisou a polícia local. Avisou a embaixada do Brasil em Portugal e, antes de voltar para o Recife, deu um pulo à Casa do Brasil, ali em São Pedro de Alcântara, em Lisboa, para falar com conterrâneos seus, expor a situação e esperar que algum milagre se desse.
Depois apanhou o avião para o Rio de Janeiro e, de seguida, do Rio para Recife.
Ela não estava lá, em casa, em Recife. E, até hoje, ainda não apareceu. Ninguém sabe o que é que lhe aconteceu.

[escrito directamente no facebook em 2017/08/06]

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