O Meu Pai

Mil novecentos e oitenta e cinco.
A meio da prodigiosa década da saudade.
Nessa altura estudava no liceu. Estava nos anos finais do secundário. Nos intervalos e nas horas livres, eu e os meus amigos do liceu, fazíamos do muro exterior de entrada o nosso poiso. Sentados por lá, fumávamos cigarros e charros, namorávamos, discutíamos a ordem do dia, do futebol aos livros que andávamos a ler, dos novos discos que nos chegavam às mãos, aos filmes que íamos vendo na única sala de cinema da cidade.
Ali, naquele muro de entrada, éramos os senhores. Controlávamos quem chegava ou partia. Quem ia namorar para casa e faltava às aulas. Quem se atrasava. Não que nos interessasse muito. Era só mais um assunto. Vazio como tantos outros e que, na verdade, não nos interessava nada, nada para além do sorriso cúmplice que nos provocava. Sim, eu sei, eu percebo e, se pudesse, também ia, pensava, pensávamos, desejávamos todos nós.
Um dia estava eu no muro a fumar um cigarro, vejo chegar, a pé, ao longe, o meu pai. Deitei logo fora o cigarro. Ele não sabia que eu fumava e eu queria que as coisas continuassem assim. Estranhei vê-lo por ali, a pé. A pé, ele que nunca se separava do seu automóvel, que não entrava em casa com ele porque não conseguia. A pé.
Coloquei uma pastilha na boca e fui ter com ele, sentindo, nas minhas costas, o olhar de toda a gente. Provei o desconforto do centro das atenções. Ainda hoje não gosto de ser, mesmo quando tenho de o ser.
Dei dois beijos ao meu pai sentindo toda a gente a olhar para mim e perguntei-lhe O que é que estás aqui a fazer? e ele respondeu-me Vim fazer uma endoscopia, E vens a pé?, indaguei, e ele Sim porque depois não vou estar em condições para conduzir. Vou ter de chamar um táxi. Queres que vá contigo? continuei, e ele sorriu, afagou-me o braço e disse Não, não é preciso, volta para ao pé dos teus amigos. Alguma delas é a tua namorada? perguntou e eu fiquei encavacado, senti a cara a ruborizar e disse Não, pai, não tenho namorada, e ele voltou a sorrir, afagou-me a cabeça e seguiu em frente, para o seu destino. Eu voltei para o muro do liceu, ignorando os olhares dos outros, tentando voltar uns minutos atrás no tempo. Mas já nada voltou a ser como era. Nunca mais voltei a ver o meu pai ali, perto do liceu, nem o voltei a ver a andar a pé. Pouco tempo depois, deixei mesmo de o ver. E as saudades que isso me fez, ainda hoje, passados tantos anos, as sinto.

[escrito directamente no facebook em 2017/08/29]

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