O Homem que Precisava de uma Mulher

Acabou a guerra e ele ficou por lá. O que é que vinha para cá fazer? A relação com os pais era inexistente. A rapariga que tinha cá deixado, já era só uma memória distante. E, depois de tudo o que teve de viver durante aquela guerra, já não era o mesmo que saíra de cá. Tornara-se noutro. Mais duro. Insensível. Frio, até.
Mas não ficou lá para tentar singrar na vida, como muitos outros fizeram na altura e mais tarde. Ficou lá para viver uma outra vida. Ficou lá para se afastar das pessoas. Para tentar recuperar a sua humanidade e purificar-se de todo o mal de que se rodeara. Ficou lá em calvário.
Ficou lá, mas ficou no mato mesmo. Ergueu ele mesmo uma cubata no meio do mato, próximo do Zambeze. Uma cubata feita de matope e coberta de capim. Uma casa rústica, simples, sem luxos nem conforto. À sua volta trabalhara a machamba e cultivara mandioca e umas couves. A sua companhia diária eram os livros que tinha recuperado de uma casa senhorial e um ou outro animal que por ali passasse e, esses, ele não matava. Aos poucos os animais também se foram habituando a ele e visitavam-no assiduamente.
Todos os dias caçava ou pescava a sua alimentação, mas longe da cubata. Fazia uma fogueira e era por ali que passava os seus dias, entre a leitura, a terra e a contemplação.
Por vezes saía do mato com alguma caça, ou pesca, algumas peles (foram vários os crocodilos que apanhara), e ia a alguma povoação trocá-los por coisas que necessitava, como café.
E foi assim que viveu, de forma simples, mas de dias cheios.
Passaram as estações do ano, várias vezes, acumularam-se os anos e ele já quase não reconhecia a sua voz, tão poucas vezes a utilizara. Nos últimos tempos começara a falar sozinho, para se ouvir, para ter companhia, para poder explicar o que tinha percebido das leituras feitas. Por vezes, um búfalo que por lá passava várias vezes e parava a olhá-lo, passou a ouvi-lo também.
Até que um dia, levantou-se da enxerga em que passava as noites, abriu um caixote que nunca abria e tirou de lá uma roupa que nunca vestira ali, no mato. Depois foi à machamba e, debaixo de um embondeiro cavou um buraco e recuperou uma caixa metálica que estava lá enterrada. Abriu-a e retirou lá de dentro uns documentos, uns grandes maços de dólares, uns diamantes e algumas pedras de ouro. Foi beber café para ao pé da fogueira e, vestido e de mochila às costas disse para si próprio Preciso de uma mulher.
Foi-se embora e deixou a cubata para trás. Nunca mais voltou.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/01]

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