Foi Num Final de Verão

O Verão caminhava para o seu fim. As aulas aí estavam, mesmo ao virar da esquina.
O miúdo estava em casa, frente à televisão, a jogar. A jogar um qualquer jogo violento. Olhou lá para fora e sentiu a vida a chamá-lo.
Desligou a consola e saiu de casa. Foi até ao fim da rua e entrou no pinhal. Caminhou pelo seu interior, subiu um pequeno monte e acabou a descer uma ribanceira que levava até às margens do rio. Aí, tirou as sapatinhas dos pés, atou-as uma à outra, e entrou com os pés nus dentro do rio. Depois acompanhou a corrente até chegar ao açude. Alçou-se para um ramo forte tombado sobre a água e sentou-se lá com os pés a baloiçar. Jogava os pés para a frente e para trás, levantando água e molhando-se a si próprio. Riu-se com satisfação.
O canto de um pássaro chamou a sua atenção e inclinou-se para o ver.
Levantou-se e foi até à margem do açude. Despiu-se e colocou as roupas numa pilha, debaixo de uma pedra, para o vento, ou outros miúdos, não a levarem. Voltou para o braço da árvore que se espraiava pela água. Manteve-se por lá, nu, a olhar a água do rio, os pássaros a chilrear e o vento a agitar as folhas das árvores.
Depois mergulhou nas águas do açude.

Já era de noite e a mãe do miúdo estava preocupada com a sua ausência. Já o tinha chamado várias vezes da janela, da porta de entrada, do muro da casa. Já tinha gritado o seu nome muitas vezes, cada vez num tom mais alto, mas sem sucesso. Já telefonara aos seus amigos, mas sem sucesso.
A mãe sentia o nervosismo aumentar.

O pai chegou a casa, trocou meia dúzia de palavras com a mãe e voltou a sair de carro, rápido, sonoro.
Pouco tempo depois voltou a entrar. Pegou no telefone e telefonou.

O som e as luzes dos carros da polícia anteciparam a sua chegada. Dois polícias saíram dos carros e dirigiram-se para a casa do miúdo. À entrada de casa conversaram com os pais e, pouco depois, fizeram um gesto de giro com a mão e os outros polícias saíram pelas redondezas à procura do miúdo.

Chegou o Outono, que cedeu lugar ao frio do Inverno e se transformou na esperança da Primavera até ser, de novo, Verão. O miúdo nunca mais apareceu.

[escrito directamente no facebook em 2017/08/30]

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