Nem Tudo É Sempre Mau

Verão. Costa Alentejana. Uma das inúmeras praias cujos nomes ele baralha. Mas sabe que é uma daquelas ali. Ele chega de carro. Sozinho, como sempre. Procura um sítio onde ficar. Está tudo cheio. São as férias, os festivais de Verão, o calor, os namorados, os adolescentes… Tudo a contribuir para esgotar a capacidade hoteleira da zona.
Lá consegue um quartinho numa casa particular. Quarto sem casa-de-banho, mas melhor que ficar no carro.
Todos os anos repete o ritual: vai jantar uma horrível pizza àquele cafézinho à beira-mar; no dia seguinte um pequeno-almoço de panquecas com doce (coisa que ele detesta), acompanhado de um sumo de laranja natural e depois, um mergulho no mar e nadar, nadar, nadar até longe, até se sentir cansado, até quase não ter forças para voltar para trás. Repetir o mesmo dia de há 5 anos. Em homenagem. Em calvário.
E assim faz.
Janta uma pizza com a forma de um gato, com salsichas e fiambre e bebe um sumo sem gás. Ao apelo sonoro da vida nocturna, responde com ida para o seu quartinho e deita-se cedo. Adormece logo. E ainda bem, para não pensar nas coisas que o magoam.
No dia seguinte sai de casa e vai ao café ingerir as panquecas. E, depois, a praia.
Larga as coisas sem grandes cuidados na areia e depressa mergulha e começa a nadar. E vai por ali fora. A nadar. Rápido e furioso. A provocar o mar.
Vai concentrado no ritmo dos seus braços a cortarem o mar quando repara que, um pouco mais para o lado, uma miúda dá mostras de estar em grandes dificuldades, a agitar os braços, a desaparecer debaixo de água e a tentar ser vista e ouvida por quem a possa ajudar. À sua volta o mar está revolto da sua agitação. Ele ainda dá umas braçadas valentes em frente, tentando ignorar o destino, mas não consegue. Muda de rumo e vai buscar a rapariga que já está a ir por água abaixo. Agarra-a e puxa-a para terra e, à medida que se aproxima da beira da praia, vê gente a juntar-se, preocupada, curiosa. Mal lá chega, uma mulher corre a tirar a rapariga dos seus braços e a colocá-la na areia. A rapariga está muito assustada, mas não perdera os sentidos. Depois de vomitar um pouco de água, levanta-se, vai ter com ele e dá-lhe um beijo na cara, enquanto lhe agarra os braços e lhe diz Obrigada!
Ele sorri. Um sorriso sincero e alegre. Pega nas suas coisas e vai embora da praia. Ainda não tinha feito as pazes com o mar, mas já não estava muito zangado com ele. Pensa na sua filha e acha que, lá onde ela esteja, terá ficado contente por o pai ter salvo aquela menina. E ele também fica contente. Afinal, nem tudo é sempre mau na vida dele.

[escrito directamente no facebook em 2017/08/26]

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