Um Talhada em Mértola

Arredores de Mértola. 40 graus.
Estou sentado à mesa, cá fora, na rua, à sombra. Um copo de vinho, ainda cheio, à minha frente, e não lhe toquei. Não consigo. Muito calor.
Ouvem-se os sons altos e estridentes do cantar das cigarras. Ao longe, muito ao longe, o barulho de uma motorizada a ser espremida. Estes poucos sons embalam-me. Tenho vontade de fechar os olhos.
Ela aparece com uma melancia e coloca-a à minha frente. Eu tiro uma navalha do bolso dos calções e corto umas talhadas. Passo-lhe uma para as mãos. Corto um pedaço e como-o. Está boa, fresca, prova, e ela provou. Comemos quase metade da melancia naquele curto espaço de tempo. Depois ela levanta-se e entra em casa.
Eu continuo em guerra com a vontade de fechar os olhos.
Quando ela sai, vem com o saco e as chaves do carro na mão. Bom, está na hora, diz e baixa-se e dá-me um beijo na cara e enquanto se afasta, vai deixando a mão no meu ombro, que passa pelo pescoço, leve, e acaba por morrer no outro ombro e, depois, o vazio.
Eu vejo-a entrar no carro. Não digo nada. Engulo em seco. Tenho a boca seca. Água, preciso de água.
Depois do carro arrancar corro à torneira do exterior, abro-a e deixo a água invadir-me o corpo, por dentro e por fora.
E é então que digo Adeus. E já não sei se a cara molhada é da água da torneira.

[escrito directamente no facebook em 2017/08/20]

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