Preciso de Respirar e Falta-me o Ar

Chego a casa cansado, a precisar de alento. Chego a casa à procura do meu buraco, o sítio onde recupero força e sanidade. Chego a casa a precisar de me sentir capaz de me sentir. Chego a casa à espera de acordar desta sonolência.
A casa está às escuras. As persianas estão fechadas. As portas trancadas. O som é quase inexistente, mas o que se ouve é metálico, irreal, fantasmagórico.
Ela está sentada à frente da televisão. Olha para lá, mas acredito que não a está a ver. É só uma companhia. Um barulho, muito sumido, que não a deixa adormecer, que lhe impede o medo.
A luz que vem da televisão, a única da casa, marca-lhe bem os contornos da cara, o peso dos anos, as privações da vida, a ansiedade do que lhe resta. Fico irritado com aquela escuridão. É deprimente, e não quero ficar deprimido. Mas entendo-lhe o medo e aceito-o. Tenho de o aceitar. A razão, aqui, não faz sentido. Tudo são sentidos. Ambientes. Uma vida cortada em mil outras, cada uma delas com os seus medos. Uma atrás da outra.
Abro as persianas e as portas da varanda e deixo entrar um pouco de luz e de vento e de ar fresco. Mas percebo-lhe o desagrado. Percebo que estou a franquear as portas a fantasmas que não consigo entender.
Volto a fechar tudo. As persianas e as portas. E saio de casa sem olhar para trás. Preciso de respirar e está a faltar-me o ar. Está a ser difícil respirar.

[escrito directamente no facebook em 2017/08/21]

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