A Memória

Há anos que não ia lá. A casa. Estava diferente. Abandonada. Degradada. Triste. A pátina tomara conta das paredes, das portas, dos taipais.
Olhou-a como alguém de família que chega depois de muitos anos afastado. Tombam as saudades. Cresce uma certa melancolia doce. A garganta parece fechar-se sobre ela própria. Custa respirar. E o coração… O coração dispara.
Entrou pelo quintal da frente, outrora um belo pequeno jardim, agora devorado pelo matagal. Onde houve uma bela relva verde e duas laranjeiras, cresce agora uma espécie de capim amarelo, seco e rijo e uns braços diabólicos e tristes. Dirigiu-se para casa e viu a sala. A sala onde celebravam as festas, os natais, os aniversários, a sala onde, à lareira, de Inverno, ele e ela viam as séries na televisão. Mais ele, que ela aninhava-se nele e adormecia ainda antes de terminar o genérico inicial. Ouviu os sons e pareceu-lhe mesmo estar lá, nesse tempo, com ela, com eles.
Foi à cozinha e viu-se na luta que travou para deitar as paredes abaixo, alargá-la e colocar o fogão numa ilha, a meio do espaço. Foi uma batalha deles os dois. Mas tão cheios de esperança e coragem.
Esta fora a primeira casa deles. E única. Compraram-na, um pouco como estava agora e, eles os dois, quase sozinhos, reconstruíram-na. Projectaram tudo. Até os quartos dos miúdos, que acabariam por vir um pouco mais tarde.
Tudo se perdeu naquele acidente. Ele ia a conduzir. Mas não foi culpa dele. Nem de ninguém. Foi o destino, costumava pensar. Perdeu a mulher e os dois filhos. Perdeu o norte. Afundou-se numa inércia da qual não soube nunca sair. E agora estava ali.
Começou a subir as escadas para o primeiro andar, para ver os quartos dos seus amores, quando a porta da rua se abriu e entraram duas mulheres e um homem. Uma das mulheres explicava coisas sobre a casa, que ele próprio desconhecia. O casal era, obviamente, comprador. A outra mulher era uma vendedora. Ninguém reparou nele. Nem mesmo quando lhe passaram rente, a caminho das traseiras, para verem o outro quintal, onde havia uma pequena piscina que tinham montado anos mais tarde, já os miúdos nadavam como dois peixes, ninguém reparou nele.
Ele era só, afinal, uma memória. Uma memória de si próprio.
Virou costas e saiu da casa.

[escrito directamente no facebook em 2017/08/23]

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