Ser Atleta Não É para Todos

Decidido a mudar de vida, fui correr. É Quarta-feira e, por aqui, é dia de mostrar de que fibra somos feitos. Depois de comprar equipamento completo, calções, camisola fluorescente, sapatilhas de marca conhecida super-leves e muito coloridas, aí vou eu. Não chego a fazer 500 metros.
Faltou-me o ar. Um apelo de azia subiu-me pelo esófago acima. Apetecia-me vomitar. Custava-me respirar. Tive de me dobrar todo para fazer o ar chegar aos pulmões e acalmar o coração. Ao expirar soltei uma pieira danada, fruto de uma bronquite nunca tratada e de 35 anos de tabaco e outras merdas. Mas já deixei de fumar há 2 anos. Não que quisesse. Eu adorava fumar, gostava da sua companhia, relaxava-me. Mas não conseguia. Não conseguia colocar um cigarro na boca. Não conseguia agarrar um cigarro entre os dedos. Não conseguia nem sequer pensar em cigarros acessos e o fumo a entrar-me pulmões dentro. Por isso foi muito fácil deixar de fumar. Foi assim, radical. Mas deu-me pena. Sentia mesmo grande afinidade com os cigarros fumegantes entre os dedos, como parte de mim. Foi também por isso que deixei de sair à noite. Sem cigarros não há noite. Sem cigarros o álcool não sabe ao mesmo. Nem a música se ouve da mesma maneira. E perco a paciência para com as pessoas.
Bom, mas finalmente, lá consegui acalmar os pulmões. Arrastei-me até à esplanada junto ao rio e pedi uma imperial. Enquanto me sentava, senti-me muito fatigado. O corpo parecia cair por mim abaixo. Chegou a imperial e dei um grande gole. E, de repente, uma enorme dor no músculo da perna. Uma cãibra no músculo da pena. Parecia tornada pedra. Estiquei a perna e massajei-a para tentar livrar-me da cãibra sem dar muito nas vistas.
A dor ainda se manteve algum tempo, mas livrei-me da rigidez. Fui bebendo mais imperiais e conversando comigo mesmo. E de novo. E outra vez. E mais outra.
No fim da noite, a miúda da esplanada, que já tinha arrumado tudo, veio perguntar-me Deseja mais alguma coisa? e eu disse Não, não, muito obrigado, tirei umas notas do bolsinho dos calções e larguei-as em cima da mesa. Levantei-me, a custo, e lutei contra a forte ventania que se sentia a caminho de casa. E pensei Talvez para a semana, sim, talvez para a semana.

[escrito directamente no facebook em 2017/08/16]

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