Não Gosto de Pessoas, mas às Vezes Gosto de Gostar Delas

Estava na passadeira, a cruzar de um lado para o outro quando o vi a colocar o primeiro pé no asfalto e vir para este lado.
Não falava com ele há muitos anos. Tínhamos tido um desentendimento. Coisas parvas de adolescentes tardios. Já nos tínhamos cruzado várias vezes, e em todas elas nos tínhamos olhado, como quem não olha, mas não tínhamos dito nada um ao outro.
Quando nos estávamos a cruzar, os nossos olhares cruzaram-se também, mas desta vez o olhar dele foi ostensivo e trouxe todo o corpo dele em direcção a mim. E então ali, no meio da passadeira, no meio da estrada, entre inúmeras pessoas a passar, umas mais apressadas que outras, de um lado para o outro, ele abraçou-me e disse Não faz sentido continuarmos assim, é uma estupidez, e eu, apanhado de surpresa não disse nada, balbuciei qualquer coisa que nem mesmo eu sei o que foi, ainda consegui lançar-lhe os braços num abraço fugaz e depressa nos separámos porque os carros roncavam com pressa de passar.
Quando cheguei ao outro lado olhei para trás e vi-o ir embora. E fiquei contente. Não gosto de pessoas, mas ás vezes gosto de gostar delas. E da próxima vez que o vir, não preciso de esconder o meu olhar.

[escrito directamente no facebook em 2017/08/19]

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