Do que Me Lembro à Distância

Isto aconteceu há muitos, muitos anos, numa outra vida, era eu uma criança, livre e solta, ainda não conspurcada pelo ensino e as obrigações da escola.
Vivíamos, eu e os meus pais, nos arredores da cidade. Zona de campo, pomar, hortas e pinhal. De árvores de fruto a couves e resina, de tudo um pouco havia para sujar a roupa e levar a minha mãe ao desespero. Sim, vivia na rua. Não vivia propriamente na rua, tinha casa e televisão, e o meu pai até tinha carro (que era, aliás, um automóvel), mas passava o tempo todo na rua, a brincar, a conhecer amigos, a fazer asneira, a crescer.
Lembro que uma das minhas brincadeiras preferidas, e isso já um pouco mais tarde, porque já tinha ficado quadrado pela escola – sabia ler e escrever -, era assentar, numa agenda roubada ao meu pai, as matrículas dos carros que passavam em frente a casa. Foi a minha primeira colecção. Com muitas matrículas repetidas e que utilizava para troca com os meus vizinhos.
Mas ainda mais atrás, antes de ir para a escola, andava eu, um dia, atrás de uns patos que se passeavam lá pela zona soltos a grasnar quando, de repente, perco o chão e tombo num tanque que por lá havia, sem protecção (os tempos eram outros), e onde os patos costumavam nadar.
Era Inverno, eu estava cheio de roupa pesada, camisola interior de algodão, camisola de gola alta, camisola de lã, cuecas, ceroulas, calças de fazenda, dois pares de meias e botas grossas, tudo encimado por um casaco grosso e quente. Pesado, portanto. E não sabia nadar. Nunca tinha nadado. Mas recordava-me da televisão. Recordava-me de imagens de gente na água. De gente a mexer os braços à frente do corpo e a bater os pés para se mover dentro de água.
De olhos bem fechados, não fosse a água cegar-me (ainda hoje não consigo abrir os olhos dentro de água), comecei a mexer os braços à minha frente e a bater os pés, pesados, na água. Lembro-me de tocar em coisas estranhas na minha fuga, folhas, plásticos, lixo e outras coisas não identificáveis. Passou o tempo. Não sei precisar quanto. Mas muito. O tempo de uma vida, do que me lembro à distância.
Quando dei por mim estava a bater com as mão na parede do outro lado do tanque. Consegui agarrar-me e subir para o pequeno muro. Sobrevivi. E nessa altura percebi que era imortal – ainda hoje acho que o sou.
Encharcado, a tremer de frio e de medo, dirigi-me para casa. Ia com receio do que a minha mãe me pudesse fazer. Imortal, mas com respeito aos pais. Não lhe podia contar a verdade. E se eu lhe dissesse que tinha chovido muito?

[escrito directamente no facebook em 2017/07/28]

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