A Minha Cabeça e o Teu Colo

Baixei tanto a cabeça
para deitar no teu colo
que bateu no chão.
Bateu no chão, a minha cabeça
quando a baixei
para a deitar no teu colo.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/27]

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A Girls Night Out

Ela chegou eufórica a casa.
Era Sexta-feira. E tinha combinado sair com duas amigas. Uma girls night out. Há quanto tempo não saía!
Chegou a casa e gostou do silêncio que encontrou. Despachou os filhos para casa do pai e sentiu-se no paraíso.
Pôs a banheira a encher de água quente e despejou sais de banho. Fez espuma. Muita espuma. E tomou um banho de imersão. Estava tão cansada que adormeceu no banho. Quando acordou, a água já estava fria. Saiu. Enxugou-se. Escolheu umas calças de ganga apertadas com as quais teve de saltar para as conseguir passar pelo rabo. Uma camisa com um decote considerável. E um delicioso perfume floral.
Saiu de casa, apanhou um táxi e foi ter ao restaurante onde combinou com as amigas.
Era um restaurante selecto. Caro. Mas não havia confusão de grupos e adolescentes. Comeram cozinha de fusão. Qualquer coisa de estranho, mas que gostaram. Ou pelo menos pensaram que sim. Beberam vinho branco. Duas garrafas. Atiraram-se sem remorsos aos doces conventuais, cheios de ovos e açúcar. Mas gostaram. E lamberam os lábios para não perderem uma migalha.
Saíram do restaurante e foram até um bar. Beberam um gin da moda, cujo nome desconheciam mas que vinha mais enfeitado que uma árvore de Natal. Reparou nos olhos dos homens sobre ela. E gostou. Mas não queria mais que aquilo. Só queria ser apreciada. Olhada. Vista. Também pelas mulheres, Especialmente pelas mulheres. Mas claro, pelos homens também. Queria sentir-se no olho do furacão. E durante algum tempo sentiu-se. Depois, com o bar a encher, teve de partilhar as atenções com raparigas mais novas. Mais disponíveis. E que lhe roubaram o protagonismo.
Saíram do bar e foram até à discoteca. Fartaram-se de dançar êxitos dos anos ’80. Até parecia que tinha viajado na cápsula do tempo. Beberam cerveja. Foram apalpadas na confusão da pista de dança, mas não ligaram.
A meio da noite ela sentia-se cansada. O corpo já não queria mexer-se. Queria ali, ao pé dela, o seu sofá. Já não conseguia beber mais um gole de cerveja. Já não queria olhar mais para a cara imberbe dos rapazes que a olhavam com curiosidade. Falaram as três e decidiram ir embora. As duas amigas tinham actividades familiares de manhã. Sim, queriam ir embora. Mas tinham gostado muito da noite. Todas as três. E prometeram repetir a dose. Uma noite destas.
Ela chegou de táxi a casa. Sozinha. Foi para a sala e ligou a televisão para ouvir barulho. Despiu-se na sala e largou a roupa por lá. Depois foi às escuras corredor fora até ao quarto. Entrou para dentro da cama, sentou-se à cabeceira, com as pernas encolhidas e o edredão puxado para cima. Nos seus ouvidos uma parede sonora com os baixos a explodir. Os olhos, debaixo das pálpebras fechadas, teimavam em ver.
De repente sentiu uma boa dose de angústia a caminhar pelo peito, e a comprimi-lo. De repente sentiu-se velha. De repente sentiu-se sozinha e velha numa casa enorme. De repente sentiu que a sua vida estava marcada pela ausência. Não sabia bem de quê. De qualquer coisa que a tirasse daquele vazio melancólico e a preenchesse. Ficou com medo. Estava sentada sozinha na cama e ficou cheia de medo da solidão. A sentir-se velha e sozinha. Perdida, talvez.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/27]

Estou Sozinho no Mundo

Está calor neste início de noite. O Verão teima em não ir embora. O Outono está assim um pouco para o choninhas, sem força para se impor. Mesmo a chuva que se anunciava foi quase uma amostra gratuita em revista de moda, só para não perdermos o norte e sabermos como ela é. Até a temida Ophelia não passou de uma mera miragem anunciada, mas nunca vista.
Fui até à beira-rio. Há algum tempo que não passava por lá. As comportas foram abertas e o rio é agora quase só um fio-de-água que escorre por ali abaixo.
Subi a ponte e deixei-me lá estar a observar um pouco. A luz a cair. Os miúdos que vêm da escola em grupos enormes e muito barulhentos. Tão barulhentos que abafam o barulho do parque de skate, logo ali, ao lado do rio.
Casais de namorados de mãos dadas. Senhoras com carrinhos de bebé. Duas crianças aos chutos numa bola. Alguém que passa de bicicleta e faz slalom para se desviar das crianças, da bola e dos carrinhos de bebé.
Uma rapariga está sentada no muro sobre o rio a comer um gelado. No fim, manda o papel do gelado para o rio. A pouca água leva-o leito fora. E eu, cá de cima da ponte, fico a vê-lo aproximar-se e a desaparecer debaixo de mim.
De repente, sinto um calafrio pela coluna acima. Sinto chegar uma certa angústia. Aparecem algumas lágrimas nos olhos que tento parar a custo. E penso Mas o que é isto? Porque estou assim? E percebo. Tanta gente e ninguém. Em todo este tempo que tenho estado aqui na ponte sobre o rio, tenho visto tanta gente passar e não conheço ninguém. Ainda não abri a boca. Ainda não falei. E penso que estou sozinho no mundo. E tenho medo. E, aqui, nesta altura em que sinto o medo, uma lágrima consegue escapar e cai pela face abaixo. Mas deixo-a ir sossegada.
A luz já caiu.
Pego no telemóvel. Olho para o ecrã. Mas não está lá nada que me interesse. Nenhuma chamada não atendida. Nenhuma mensagem. Também não tenho nenhuma chamada para fazer. Ponho o telemóvel no bolso das calças e saio de cima da ponte. E penso Quando é que virá a merda do Inverno?

[escrito directamente no facebook em 2017/10/26]

A Culpa

Lembro-me de quando casámos. Uma cerimónia simples e íntima. Só para alguns amigos mais próximos, e para a família mais chegada, aquela com que contactávamos no dia-a-dia. Aquela família de que podia dizer que eram amigos, também.
Foi um casamento de igreja, mas numa capela, também ela pequena. E a recepção foi num hotel e foi basicamente um almoço tardio. Acabou rápido e rapidamente cada um de nós voltou às suas vidas. Eu com ela, pela primeira vez. Mas ao contrário dos outros, nós não fomos para casa, a nossa primeira casa. Fomos de lua-de-mel. Nada de chique nem exótico, cinco dias num hotel de cinco estrelas no Algarve, em época baixa, mas mesmo assim, passámos a maior parte do tempo na praia.
Lembro-me que tivemos sexo. Algum sexo. Não seria uma lua-de-mel sem essa experiência corporal de nos tocarmos e atingirmos o nirvana através do orgasmo debaixo da instituição do casamento. Ela mais que eu.
E lembro-me que foi o suficiente. Foi tiro certeiro. Ela engravidou. De gémeos. Um casalinho. Eu tinha a minha vida feita. E depois disso, nunca mais a procurei sexualmente. E ela sentiu a falta.
Não faltou muito para ela perceber que os meus desejos eram outros. Mas nunca me disse nada. Os nossos filhos tinham pai e mãe, e isso era-lhe suficiente.
Mas as crianças começaram a crescer. A necessidade que tinham dela começou a diminuir e o tempo livre que passou a ter começou a fazê-la perceber que a sua vida não estava preenchida. E então, começou a ter amantes. Vários. Coisas puramente sexuais. Mas voltava sempre para casa. Até que um dia não voltou.
Um dia apaixonou-se por alguém que lhe deu atenção. Atenção enquanto mulher. Mãe, já era. Mulher, também passou a ser.
Mas o mais difícil não foi para mim, foi para ela. É claro que íamos acabar em divórcio. Mas ela não queria ser a mulher adúltera, a mulher que engana o marido, a mulher infiel.
E eu estava disposto a assumir a culpa. Pela ausência. Pela falta de desejo. Por todas as falhas que sentia existirem.
Mas não precisámos de chegar a isso.
Um dia foi morta pelo amante. Ele achava que ao trair-me, ela estava a dizer-lhe que a traição era banal e que também o podia vir a trair a ele. E de mulher, ela passou a ser a infiel, a traidora, a adúltera. E uma vez adúltera, adúltera para sempre. E um dia, no calor de uma discussão mais acesa, espetou-lhe uma faca na barriga e deixou-a a agonizar no quarto de hotel até morrer.
Nesse dia eu morri também um pouco. Amava-a. À minha maneira, eu amava-a. E não descansei enquanto não coloquei o amante na cadeia. Não fiz nenhuma asneira, nada de que me viesse a arrepender. Não. Quis que ele fosse preso.
E agora, todos os anos, no aniversário da morte da minha mulher, vou visitar o amante assassino à cadeia e todas as vezes lhe digo o mesmo Podias estar nos braços de um anjo e acabaste nos braços de um brutamontes. E vou embora.
Não quero pensar no dia em que ele será libertado.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/25]

Um Piquenique na Fonte da Felícia

Era domingo. Um domingo de Outono. O sábado tinha corrido mal. Chateámos-nos, eu e ela. Por coisas sem sentido e peso. Mas foi o que aconteceu. E ela deu-me um estalo. E eu parti uma jarra que a mãe dela lhe tinha dado.
Por isso, no domingo passei lá por casa com uma cesta para um piquenique e ela ficou sensibilizada, muito contente, agarrou-se com os braços ao meu pescoço e encheu-o de beijos até me deixar todo lambuzado.
Saímos de carro e fomos até à Fonte da Felícia, ali no Pinhal do Rei, perto de São Pedro de Moel, nas margens da ribeira.
Levei uma manta que coloquei no chão. Depois retirei do cesto uns pratos de plástico, uns talheres e uns copos. Os copos eram de vidro, claro. Retirei do cesto uns queijinhos secos, um frasco com alcaparras e uma latinha com anchovas e outra com azeitonas, e um grande pão do Soutocico. Abri uma garrafa de vinho tinto. E servi o vinho. Fizemos um brinde a nós. Petiscámos e, um pouco mais tarde, surpresa das surpresas: desvendei um tacho com arroz de frango que ainda estava quente. Ela fartou-se de rir quando me viu tirar o tacho que estava envolvido em folhas de papel do jornal A Bola. E fartámos-nos de comer.
De barriga cheia, deitámos-nos na manta, abraçados um ao outro e adormecemos. E passámos um pouco pelas brasas.
Quando acordámos estava calor e fomos tomar um banho na ribeira.
Despimo-nos e, nus, a brincar um com o outro como miúdos, fomos para o meio da ribeira, molhámos-nos, chapinhámos e pulámos ridiculamente. Não deu para nadar, porque a água era pouca, mas deu para nos entusiasmarmos e, passado pouco tempo, estávamos a fazer amor nas margens da ribeira.
Depois voltámos para a manta e fumámos uns cigarros. E mandámos as beatas fora. Estávamos eufóricos. Parecíamos dois putos apaixonados. Por isso nem ligámos ao lixo que fizemos e por lá deixámos. Arrumámos as nossas coisas e resolvemos voltar para casa para ir ao cinema. Era preciso não perder a onda da boa disposição.
Foi mais tarde, quando saímos do cinema, que ouvimos, no noticiário, que o Pinhal de Leiria tinha ardido quase todo. E foi aí que fiquei preocupado e pensei Apagámos os cigarros? Mas não comentei nada com ela. Não queria que nos chateássemos de novo.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/24]

Olha, Vai à Merda!

Estou à janela e fumo um cigarro. Vou mandando a cinza lá para fora, pela janela aberta. Reparei que a vizinha de baixo tem roupa pendurada no estendal, mas não me preocupo. E continuo a lançar a cinza do cigarro queimado pela janela fora. Provavelmente vai cair em cima da roupa lavada. Com um pouco de azar, vai fazer um ou outro buraco numa peça de roupa lavada. Mas não quero saber. Não me preocupa.
Mal acabo um cigarro, acendo outro na beata do primeiro.
Estou nervoso. Acho que furioso mesmo. Estou a conter-me. Mas a libertação da tensão está nas cinzas que vou fazendo tombar sobre a roupa estendida da vizinha de baixo.
Lá ao fundo, na rua, vejo passar uma rapariga com um carrinho de dois bebés. E pergunto-me como é possível sobreviver à invasão de dois pequenos ditadores a exigirem, ao mesmo tempo, atenção por fome, cocó, sono, bronquiolites, colo ou rabuje mesmo. E isto constantemente. Saio mais para fora da janela para ver a rapariga a empurrar o duplo carrinho até desaparecer, e reparo que a vizinha de baixo está a retirar a roupa do estendal enquanto vai refilando mais ou menos alto, e eu acho que é para mim. Mas não quero saber.
Quando estou a acender outro cigarro, vejo passar a voar, a um dedo de distância do meu nariz, um pano de cozinha, encharcado, que vai embater num pedaço do vidro da janela fazendo um som obsceno quando embate. E é aí, e só aí, que percebo porque é que estou nervoso e a fumar tantos cigarros. Ela está ali, no meio da cozinha, aos berros para comigo, com os olhos cheios de lágrimas, toda babada do choro, com um ar desesperado e ao mesmo tempo furioso porque não estou a ligar nenhuma ao que me está a dizer.
Foi como que um despertar para um pesadelo.
Acabo de acender o cigarro e passo por ela, ignorando a sua fúria, de que desconheço o motivo, para sair de casa, enquanto lhe digo Vai à merda!, coisa que ela nem ouviu com os berros que disparava na minha direcção e que eu também não conseguia ouvir.
É quando estou já no elevador a descer o prédio que penso que somos todos muito inteligentes e pensantes e adultos e socialmente responsáveis e correctos e, ultimamente, muito politicamente correctos, defendendo os mais fracos e as mulheres e as crianças e os mais pobres e depois, no meio de uma relação, tornamos-nos os animais que afinal nunca deixámos de ser.
Entretanto o elevador começa a apitar por eu ir a fumar. E eu digo-lhe Vai à merda tu também.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/23]