Cidade Fantasma

É Verão. Chove, faz sol, frio e calor. Por vezes sopra uma aragem que se torna ventania.
Domingo. Oito da tarde. A cidade está fantasma. As pessoas foram para a praia aproveitar o sol e a água do mar. Ganhar bronze. Relaxar. Outras estão já em casa a jantar. Não há futebol. As camionetas levam mais pessoas que as que trazem. As ruas tendem para o deserto. Há silêncio.
A excepção são as rulotes das bifanas e da maminha grelhada que estão com clientela.
Na estrada passa alguém de bicicleta e começa a gritar muito. E muito alto. Palavras sem sentido, sem nexo, mas alto. Muito alto. Assusta.
Parece que os loucos começam a chegar à cidade.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/09]

O Amor

Cheguei a casa depois de uma fuga aos inúmeros eventos da cidade. Uma passagem rápida pelos ultracongelados do supermercado e cruzo, finalmente, a entrada.
Sentado à mesa, ouço-a. Rasga, mói, tritura. Um barulho nhec, nhec, nhec, que se repete e repete e repete. Rasga, mói, tritura. Fico parado a olhá-la. A ouvi-la. A sua velhice que é também a sua criancice. Ela vê que estou a olhá-la e pergunta O que foi?, e respondo com um sorriso rasgado, enquanto me sobem as lágrimas aos olhos pensando que é impossível não a amar.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/08]

Uma Tosta Mista e um Tinto de Borba

Cheguei tarde a casa. Tarde e com fome. Abri o frigorífico e descobri lá uns restos de queijo bolorento e fiambre já um pouco roxo. Raspei o bolor do queijo e pensei que ainda não estava miserável de todo.
Restava-me duas fatias, duras e secas, de Panrico. Montei uma tosta e coloquei-a numa frigideira, ao lume do fogão.
Tinha uma garrafa de Borba tinto, já aberta. Cheirei-a. Levou-me de volta aos meus vinte anos. Sorri. Prometia uma deliciosa dor de cabeça.
Sentei-me em frente à televisão a comer a tosta e a beber o copo de vinho. Saborosos.
Na televisão, umas personagens de novela mostravam umas vidas desgraçadas. Pensei que a ficção, por vezes, ultrapassa a realidade.
O queijo da tosta, soube-me a manjar dos deuses. Mas não consegui continuar a ver as vidas tristes que passavam na televisão.
Levantei-me, e fui à rua levar o lixo.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/07]

Poesia

Estava debruçado sobre o balcão a ler um livro. De poesia. Podia ser doutra coisa qualquer. De ficção, de banda desenhada. Mas não, era de poesia. O empregado perguntou-me se queria beber alguma coisa e respondi-lhe Não, não preciso, o livro embriaga-me o suficiente. Disse-me que o patrão não vivia da poesia dos outros. Eu respondi-lhe que Eu sim, agora já vivo da poesia dos outros. Também podia viver do romance, do ensaio, da banda desenhada. Mas agora, era da embriaguez da poesia que vivia.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/07]

O Segurança do Pingo Doce

Hoje passei ao pé do Pingo Doce e estava lá uma pequena multidão à frente da porta de entrada. Um jovem de etnia cigana dava pulinhos e mandava a cabeça para a frente, assim como se fosse cabecear a bola dentro da grande área. Tinha a cabeça partida e deitava sangue que já se espalhava pelo peito nu. O segurança estava parado, de mãos nos bolsos, acompanhando os pulinhos do outro com o olhar. Algumas pessoas riam. Outras não.
O segurança tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu um. Esticou o maço para o jovem aos pulinhos que parou os saltos e aceitou um cigarro com a mão cheia de sangue. Acendeu o cigarro, virou costas e foi-se embora. As pessoas dispersaram. O segurança mandou o resto do cigarro que não fumou para o meio da estrada. Depois, entrou dentro do supermercado.
Eu esqueci-me do que ia fazer e fiquei ali a olhar o cigarro a fumegar no meio do asfalto.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/05]

Uma Navalha e o Fundo

Evitei sempre fazer a barba. Por isso tenho-a sempre um pouco grande. Não porque goste. Mas por medo. Medo que a minha mão ganhe vontade própria e, com a navalha afiada, me corte o pescoço.

Enquanto cais, percebes que o poço não tem fundo. Ou descobres o fundo quando percebes que já não consegues cair mais.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/04]

Os Cães Ladravam

Os cães ladravam por detrás dos portões dos quintais. Eu caminhava pelo meio da estrada com medo que algum deles saltasse o muro e me quisesse morder.
Ao virar a esquina tropecei e caí de cara no chão. Rachei a testa. Alguns arranhões na cara. A mão ficou com sangue ao tentar perceber como estava.
Foda-se!, pensei. Os cães continuavam a ladrar. Mas tinha sido o asfalto que me mordera.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/03]