Teimoso

Isto que aconteceu, contaram-me, como me contaram outras coisas dele, algumas contadas pela mãe, outras por ele próprio depois de passado o susto, a irritação, a emoção mais destrambelhada, que é muito típica dele, mas então, o que aconteceu foi que resolveu descer uma ladeira bastante íngreme, no meio do pinhal, de bicicleta, e veio por ali abaixo, na bisga, tentando e conseguindo escapar aos pinheiros mas, quando estava quase a chegar cá abaixo, ao fundo da ladeira, deu um malho que andou por ali a rebolar e a mãe até viu e foi a correr e a gritar Estás bem?, Não te magoaste?, Não tens sangue, pois não?, Queres ir ao hospital?, e ele, furioso, com algumas lágrimas a caírem pela face, pegou outra vez na bicicleta, deixou a mãe para trás e voltou para o cimo da ladeira, levando a bicicleta à mão e, estando de novo lá em cima, depressa se pôs a descer a ladeira, a toda a pressa, gingando pelos pinheiros, escorregando na caruma, mas desta vez sem cair, o que o levou a chegar cá abaixo com um enorme sorriso vitorioso. Ele é assim, teimoso, corajoso e de coração enorme.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/13]

A Passagem de Modelos

Ela sai de casa, todos os dias, de manhãzinha para apanhar o fresco do dia. Dá uma volta pelo quarteirão, olha as montras com coisas que já lhe dizem pouco ou nada, e segue, exercitando as pernas, agarrada à bengala que tanto lhe custou começar a usar.
Chega ao supermercado e senta-se numa cadeira à entrada, na zona da cafetaria, bebe uma meia-de-leite, come um pão com manteiga, e deita-se a ver a passagem de modelos, como ela chama às pessoas que entram e saem cheias de sacos e passadas rápidas. Conhece muitas delas, de vidas passadas, de outros tempos. Nesses encontros, gasta o tempo em viagens ao passado, em exercícios de memória.
Mais tarde ainda vai um pouco até à beira do rio. Senta-se num dos bancos que por lá existem, e deixa-se embalar pelo barulho da água a deslizar no leito, pela aragem que agita as folhas das árvores e pelo arrufo dos namorados que libertam os corpos e o desejo sem complexos ou castidade. Geralmente sorri, ao activar de novo a memória, e ao ver-se também ela ali, de mãos dadas, num beijo apaixonado, embrulhado em juras de amor eterno.
A memória é a sua novela.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/12]

O Olhar

Olhava-a nos olhos. Bem dentro dos olhos. Na verdade, olhávamos-nos para ver quem era o mais forte.
Eu sei que era ela, a mais forte. Eu sei que iria perder. Sentia-me fraco perante a acutilância gelada do seu olhar. Mas não queria dar parte fraca. Não queria ser já desarmado. Queria guerrear. Armar-me em forte. Levar as coisas um pouco mais longe. Sentir, por uma vez que fosse, que não era um falhado. Mas, gaita, era só uma batalha de olhares…
Pensei em mil e uma coisa para sair dali, debaixo daquele olhar que me destruía.
Eu sou mais forte!, disse ela. Vai à merda!, pensei eu. De repente foi como se tivesse saído do fundo do mar, crescido como um gigante, forte como o homem da feira e, no último instante, baixei o olhar, mas não tanto que não conseguisse ver o olhar de triunfo dela.
Um dia ainda vou ganhar. Um dia…

[escrito directamente no facebook em 2017/07/11]

Solidão

Entrou na casa silenciosa e vazia. Dirigiu-se à cozinha, acendeu a lâmpada fluorescente e abriu a porta do congelador. Retirou uma embalagem de lasanha congelada que pôs no micro-ondas. Sentou-se à mesa e esperou.
Foi olhando à volta. Pouca coisa numa casa com pouca vida. Um prato, um garfo, uma faca, uma colher e um copo no escoador do lava-louça. Uma fruteira com uma maçã, já cheia de manchas escuras. Ao olhar a janela da rua, reparou numas cuecas que estavam no estendal. Levantou-se e foi buscá-las. Largou-as nas costas da cadeira. Fechou a persiana. O plim metálico do micro-ondas ecoou pela cozinha. Colocou a lasanha no prato, foi buscar vinho branco ao frigorífico e levou tudo, numa bandeja, para a sala.
Sentou-se no sofá frente à televisão. Ligou-a. Foi comendo. No fim, largou a bandeja na mesa de apoio. Descalçou os sapatos, deitou-se no sofá e tirou o telemóvel do bolso das calças. Mandou uma mensagem e largou-o na mesa. Adormeceu a ver televisão. A meio da noite, abriu o primeiro botão das calças e puxou uma mantinha para cima de si. A televisão continuou ligada, a fazer companhia.
Quando o telefone tocou, era de manhã. Hora de se levantar. Tomar banho e ir trabalhar. Precisava de um café.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/10]

Cidade Fantasma

É Verão. Chove, faz sol, frio e calor. Por vezes sopra uma aragem que se torna ventania.
Domingo. Oito da tarde. A cidade está fantasma. As pessoas foram para a praia aproveitar o sol e a água do mar. Ganhar bronze. Relaxar. Outras estão já em casa a jantar. Não há futebol. As camionetas levam mais pessoas que as que trazem. As ruas tendem para o deserto. Há silêncio.
A excepção são as rulotes das bifanas e da maminha grelhada que estão com clientela.
Na estrada passa alguém de bicicleta e começa a gritar muito. E muito alto. Palavras sem sentido, sem nexo, mas alto. Muito alto. Assusta.
Parece que os loucos começam a chegar à cidade.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/09]

O Amor

Cheguei a casa depois de uma fuga aos inúmeros eventos da cidade. Uma passagem rápida pelos ultracongelados do supermercado e cruzo, finalmente, a entrada.
Sentado à mesa, ouço-a. Rasga, mói, tritura. Um barulho nhec, nhec, nhec, que se repete e repete e repete. Rasga, mói, tritura. Fico parado a olhá-la. A ouvi-la. A sua velhice que é também a sua criancice. Ela vê que estou a olhá-la e pergunta O que foi?, e respondo com um sorriso rasgado, enquanto me sobem as lágrimas aos olhos pensando que é impossível não a amar.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/08]

Uma Tosta Mista e um Tinto de Borba

Cheguei tarde a casa. Tarde e com fome. Abri o frigorífico e descobri lá uns restos de queijo bolorento e fiambre já um pouco roxo. Raspei o bolor do queijo e pensei que ainda não estava miserável de todo.
Restava-me duas fatias, duras e secas, de Panrico. Montei uma tosta e coloquei-a numa frigideira, ao lume do fogão.
Tinha uma garrafa de Borba tinto, já aberta. Cheirei-a. Levou-me de volta aos meus vinte anos. Sorri. Prometia uma deliciosa dor de cabeça.
Sentei-me em frente à televisão a comer a tosta e a beber o copo de vinho. Saborosos.
Na televisão, umas personagens de novela mostravam umas vidas desgraçadas. Pensei que a ficção, por vezes, ultrapassa a realidade.
O queijo da tosta, soube-me a manjar dos deuses. Mas não consegui continuar a ver as vidas tristes que passavam na televisão.
Levantei-me, e fui à rua levar o lixo.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/07]

Poesia

Estava debruçado sobre o balcão a ler um livro. De poesia. Podia ser doutra coisa qualquer. De ficção, de banda desenhada. Mas não, era de poesia. O empregado perguntou-me se queria beber alguma coisa e respondi-lhe Não, não preciso, o livro embriaga-me o suficiente. Disse-me que o patrão não vivia da poesia dos outros. Eu respondi-lhe que Eu sim, agora já vivo da poesia dos outros. Também podia viver do romance, do ensaio, da banda desenhada. Mas agora, era da embriaguez da poesia que vivia.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/07]

O Segurança do Pingo Doce

Hoje passei ao pé do Pingo Doce e estava lá uma pequena multidão à frente da porta de entrada. Um jovem de etnia cigana dava pulinhos e mandava a cabeça para a frente, assim como se fosse cabecear a bola dentro da grande área. Tinha a cabeça partida e deitava sangue que já se espalhava pelo peito nu. O segurança estava parado, de mãos nos bolsos, acompanhando os pulinhos do outro com o olhar. Algumas pessoas riam. Outras não.
O segurança tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu um. Esticou o maço para o jovem aos pulinhos que parou os saltos e aceitou um cigarro com a mão cheia de sangue. Acendeu o cigarro, virou costas e foi-se embora. As pessoas dispersaram. O segurança mandou o resto do cigarro que não fumou para o meio da estrada. Depois, entrou dentro do supermercado.
Eu esqueci-me do que ia fazer e fiquei ali a olhar o cigarro a fumegar no meio do asfalto.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/05]

Uma Navalha e o Fundo

Evitei sempre fazer a barba. Por isso tenho-a sempre um pouco grande. Não porque goste. Mas por medo. Medo que a minha mão ganhe vontade própria e, com a navalha afiada, me corte o pescoço.

Enquanto cais, percebes que o poço não tem fundo. Ou descobres o fundo quando percebes que já não consegues cair mais.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/04]