Baratas, Percevejos e Ratos

Durmo numa enxerga encostada à parede da cozinha, junto ao frigorífico. Sou embalado pelo seu trabalhar ritmado. No início acordava várias vezes durante a noite quando o motor voltava a trepidar. Hoje, habituado, é uma forma de me sentir embalado para os braço de Morfeu.
O problema são as baratas que saem lá de baixo durante a noite, animadas pela trepidação do frigorífico e pelo doce embalo da minha respiração.
Acordo, muitas manhãs, com os dedos em sangue das batalhas que tenho com elas. Mas posso estar enganado. Também podem ser dos percevejos. Não sei é de onde é que eles poderão vir.
Mas tudo poderia ser muito pior se houvesse ratos. Já ouvi estórias de homens comidos pelos ratos. Não sei se é verdade. Mas também não quero pensar muito nisso. Assusta-me que a minha enxerga não seja uma boa defesa contra os ratos. Amanhã, pelo sim pelo não, vou comprar uma ratoeira.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/17]

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Pequeno-Almoço de Domingo

A memória vai e vem, levando no esquecimento pedaços que não quero recordar e trazendo de volta as alegrias que quero manter. Como uma bolinha de ópio que me transporta para outra dimensão, num eu que não o sendo, ainda e também o sou.
Recordo, com a nostalgia do tempo e do que se perdeu, os Domingos em miúdo, em casa dos meus pais. A minha mãe a entrar pelo quarto dentro a acordar-me, a subir as persianas e a deixar a luz do dia invadir o sono. Eu a despertar calmamente, a pegar numa das invariáveis bandas-desenhada que circundava o chão da cama e a evadir-me para outros locais, com outras gentes, em mil e uma aventuras de cortar a respiração.
Depois, a minha mãe regressava com uma fatia de pão torrado, a escorrer manteiga, e um copo de leite que, gulosamente devorava enquanto ia até Mongo com o Flash Gordon, ou acompanhava as peripécias do Príncipe Valente e da bela Aleta no tempo do Rei Artur.
Mais tarde, sentia o odor do almoço de Domingo a invadir a casa, e percebia que era tempo de levantar da cama, lavar e vestir-me que a tarde era da bola.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/16]

Os Lobos Descem à Cidade

Sábado. Nove da noite.
A alcateia invade a cidade. Vem dos arredores, dos subúrbios, dos bairros periféricos, das aldeias vizinhas. Lavados, penteados, perfumados, com as roupas aprumadas e sapatilhas vintage. Os carros largados à volta da cidade. É preciso passear a pé pelas ruas. Ver e ser visto. Eles e elas. Entram nos restaurantes, snacks, tascas, cafés, para matar a fome e preparar a noite. Mais tarde vão para os bares, discotecas, boites. Irão aguçar os dentes. E as unhas. Irão despejar garrafas de gin e vodka e algum whisky. E muitas minis. E, cansados, irão terminar a noite em camas várias. Dar aso ao desejo. À paixão. À tesão. E irão acordar com sabores estranhos na boca, e descobrir que a magia morreu na noite e não encontrou caminho para o dia.
Vejo tudo isso da janela de casa onde estou sozinho. Imagino o resto, o que não vejo. Apetece-me fumar um cigarro. Mas tenho medo de incendiar as cortinas que tombam sobre mim.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/15]

Teimoso

Isto que aconteceu, contaram-me, como me contaram outras coisas dele, algumas contadas pela mãe, outras por ele próprio depois de passado o susto, a irritação, a emoção mais destrambelhada, que é muito típica dele, mas então, o que aconteceu foi que resolveu descer uma ladeira bastante íngreme, no meio do pinhal, de bicicleta, e veio por ali abaixo, na bisga, tentando e conseguindo escapar aos pinheiros mas, quando estava quase a chegar cá abaixo, ao fundo da ladeira, deu um malho que andou por ali a rebolar e a mãe até viu e foi a correr e a gritar Estás bem?, Não te magoaste?, Não tens sangue, pois não?, Queres ir ao hospital?, e ele, furioso, com algumas lágrimas a caírem pela face, pegou outra vez na bicicleta, deixou a mãe para trás e voltou para o cimo da ladeira, levando a bicicleta à mão e, estando de novo lá em cima, depressa se pôs a descer a ladeira, a toda a pressa, gingando pelos pinheiros, escorregando na caruma, mas desta vez sem cair, o que o levou a chegar cá abaixo com um enorme sorriso vitorioso. Ele é assim, teimoso, corajoso e de coração enorme.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/13]

A Passagem de Modelos

Ela sai de casa, todos os dias, de manhãzinha para apanhar o fresco do dia. Dá uma volta pelo quarteirão, olha as montras com coisas que já lhe dizem pouco ou nada, e segue, exercitando as pernas, agarrada à bengala que tanto lhe custou começar a usar.
Chega ao supermercado e senta-se numa cadeira à entrada, na zona da cafetaria, bebe uma meia-de-leite, come um pão com manteiga, e deita-se a ver a passagem de modelos, como ela chama às pessoas que entram e saem cheias de sacos e passadas rápidas. Conhece muitas delas, de vidas passadas, de outros tempos. Nesses encontros, gasta o tempo em viagens ao passado, em exercícios de memória.
Mais tarde ainda vai um pouco até à beira do rio. Senta-se num dos bancos que por lá existem, e deixa-se embalar pelo barulho da água a deslizar no leito, pela aragem que agita as folhas das árvores e pelo arrufo dos namorados que libertam os corpos e o desejo sem complexos ou castidade. Geralmente sorri, ao activar de novo a memória, e ao ver-se também ela ali, de mãos dadas, num beijo apaixonado, embrulhado em juras de amor eterno.
A memória é a sua novela.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/12]

O Olhar

Olhava-a nos olhos. Bem dentro dos olhos. Na verdade, olhávamos-nos para ver quem era o mais forte.
Eu sei que era ela, a mais forte. Eu sei que iria perder. Sentia-me fraco perante a acutilância gelada do seu olhar. Mas não queria dar parte fraca. Não queria ser já desarmado. Queria guerrear. Armar-me em forte. Levar as coisas um pouco mais longe. Sentir, por uma vez que fosse, que não era um falhado. Mas, gaita, era só uma batalha de olhares…
Pensei em mil e uma coisa para sair dali, debaixo daquele olhar que me destruía.
Eu sou mais forte!, disse ela. Vai à merda!, pensei eu. De repente foi como se tivesse saído do fundo do mar, crescido como um gigante, forte como o homem da feira e, no último instante, baixei o olhar, mas não tanto que não conseguisse ver o olhar de triunfo dela.
Um dia ainda vou ganhar. Um dia…

[escrito directamente no facebook em 2017/07/11]

Solidão

Entrou na casa silenciosa e vazia. Dirigiu-se à cozinha, acendeu a lâmpada fluorescente e abriu a porta do congelador. Retirou uma embalagem de lasanha congelada que pôs no micro-ondas. Sentou-se à mesa e esperou.
Foi olhando à volta. Pouca coisa numa casa com pouca vida. Um prato, um garfo, uma faca, uma colher e um copo no escoador do lava-louça. Uma fruteira com uma maçã, já cheia de manchas escuras. Ao olhar a janela da rua, reparou numas cuecas que estavam no estendal. Levantou-se e foi buscá-las. Largou-as nas costas da cadeira. Fechou a persiana. O plim metálico do micro-ondas ecoou pela cozinha. Colocou a lasanha no prato, foi buscar vinho branco ao frigorífico e levou tudo, numa bandeja, para a sala.
Sentou-se no sofá frente à televisão. Ligou-a. Foi comendo. No fim, largou a bandeja na mesa de apoio. Descalçou os sapatos, deitou-se no sofá e tirou o telemóvel do bolso das calças. Mandou uma mensagem e largou-o na mesa. Adormeceu a ver televisão. A meio da noite, abriu o primeiro botão das calças e puxou uma mantinha para cima de si. A televisão continuou ligada, a fazer companhia.
Quando o telefone tocou, era de manhã. Hora de se levantar. Tomar banho e ir trabalhar. Precisava de um café.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/10]