Em Direcção à Linha do Fundo

Estava à beira-mar. Olhava, lá longe, o horizonte. Os pés tentavam fugir pela areia molhada abaixo, sempre que uma pequena onda os afagava.
Gostava de conseguir ver África.
De vez em quando baixava-se e tocava com as mãos a água tépida do Algarve. E borrifava o corpo.
E se conseguisse chegar lá?
Enquanto olhava o horizonte, pensava na vida que tinha. Nas infidelidades do marido. Com a sua própria irmã. E ela sabia.
Será que ele conseguiria lá chegar?
As chatices com os filhos que não lhe davam descanso. O trabalho que não a satisfazia. Os amigos imbecis. Amigos do marido, claro. A falta de tempo, o sexo a correr, os jantares de merda com os conhecidos do costume com as mesmas conversas de sempre. Já não se lembrava da última vez que foram ao cinema. Ao teatro, ui, já nem sabia o que era. A saudade de pegar num livro e conseguir lê-lo até ao fim.
E se tentasse ir até lá, até ao fim?
Começou a entrar mais dentro de água. Mergulhou e começou a nadar. Em direcção ao horizonte. Afastando-se da costa. À procura de África. Ou fugindo de tudo o que deixava para trás.
Com um pouco de sorte…

[escrito directamente no facebook em 2017/07/20]

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