Acidente

Tive de correr para apanhar o expresso. Tinha de sair daqui para fora. A cidade estava a começar a oprimir-me. A fechar-se em torno de mim, a não me deixar respirar.
O autocarro estava cheio. O meu lugar ocupado. Sentei-me numa cadeira vaga, junto à janela, a meio da camioneta e que eu detesto. Tive de me encolher para caber naquele espaço exíguo.
Adormeci…
Quando acordei, dei de caras com um peixe. Um peixe com asas. Um peixe com asas e dentro de um aquário. Na verdade era o reflexo no vidro da janela da tatuagem que a rapariga da frente tinha no ombro. De repente vi o peixe com asas voar sobre os vidros em cacos do aquário que se estilhaçava.
O autocarro despistou-se e caiu por uma ribanceira. A rapariga da frente foi projectada pela janela. Eu senti-me às voltas… Vi gente ferida a sangrar… Ouvi gritos, choros, rezas… Vi as voltas do mundo através das janelas quebradas do autocarro… E… Depois… O silêncio… Tudo escuro… O vazio… A solidão… E eu?…

[escrito directamente no facebook em 2017/07/19]

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