A Passagem de Modelos

Ela sai de casa, todos os dias, de manhãzinha para apanhar o fresco do dia. Dá uma volta pelo quarteirão, olha as montras com coisas que já lhe dizem pouco ou nada, e segue, exercitando as pernas, agarrada à bengala que tanto lhe custou começar a usar.
Chega ao supermercado e senta-se numa cadeira à entrada, na zona da cafetaria, bebe uma meia-de-leite, come um pão com manteiga, e deita-se a ver a passagem de modelos, como ela chama às pessoas que entram e saem cheias de sacos e passadas rápidas. Conhece muitas delas, de vidas passadas, de outros tempos. Nesses encontros, gasta o tempo em viagens ao passado, em exercícios de memória.
Mais tarde ainda vai um pouco até à beira do rio. Senta-se num dos bancos que por lá existem, e deixa-se embalar pelo barulho da água a deslizar no leito, pela aragem que agita as folhas das árvores e pelo arrufo dos namorados que libertam os corpos e o desejo sem complexos ou castidade. Geralmente sorri, ao activar de novo a memória, e ao ver-se também ela ali, de mãos dadas, num beijo apaixonado, embrulhado em juras de amor eterno.
A memória é a sua novela.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/12]

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