O Faz-Tudo que Não Cobra IVA Nem Passa Recibos

À minha volta há tendência para o desgaste, para a avaria, para a morte ou, pelo menos, para o acidente. Tudo tende a estragar-se nas minhas mãos.
Depois dos elevadores do prédio que se avariam todas as semanas, desta vez foram as persianas da sala. E precisamente quando estava com uma louca vontade de voltar a pegar num cigarro e fui impedido de o fazer, não conseguindo chegar à varanda.
Lá telefonei para o tipo faz-tudo que não cobra IVA nem passa recibo. É um gordo enorme com dificuldade em respirar. Chegou cá a casa a deitar os bofes pela boca – os elevadores estão avariados, outra vez. Os dois.
Depois de lhe dar um copo de água da torneira, sentei-me no sofá a apreciar a mestria do homem e a dificuldade em levantar os braços para tirar a tábua da caixa onde se esconde a persiana. Lá tive de ir buscar o escadote. E a chave-estrela. O canivete-suíço – não sei bem para quê. O rolo de cozinha – esse percebi que era para ensopar a testa.
Depois de fazer descer a persiana, retirou uma série de réguas que, parece, estavam estragadas, telefonou e deu uma data de instruções em linguagem de iniciados.
Ficou parado a olhar para mim. Passado um bocado tocam à campainha e era o correspondente feminino de tipo faz-tudo com uma série de réguas debaixo do braço.
Enquanto o tipo faz-tudo colocou as mãos na cintura a olhar, a rapariga, A minha filha que está a seguir as pegadas do pai, disse com grande orgulho, esta arranjou as persianas tão rápido que nem tive tempo de perceber que já estavam a sair de casa com o tipo faz-tudo a dizer que viria receber na próxima semana Quando vier arranjar a fechadura da porta de entrada que está por um fio, e, se não me engano, a canalização da cozinha que quando tirou água para o copo percebi aí um barulho muito estranho que lhe irá dar problemas.
O que seria de mim sem esta gente?

[escrito directamente no facebook em 2017/07/24]

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Um Sorriso Rasgado

E as gajas não se calavam.
Uma dentro do balcão. A outra do lado de fora. Não sei se era um engate. Podia não ser. Mas para mim, que estava ali sozinho, afogado em cerveja, cada vez que precisava de nova imperial tinha de interromper a conversa, porque não me ligavam nenhuma nem queriam saber se o meu copo estava vazio, só podia ser.
Depois de me tirar a quinta imperial e a depositar à minha frente, sempre sem olhar para mim, tive de levantar a mão para lhe pedir Uns amendoins, por favor, que precisava de acamar o estômago.
Entretanto chegou-se ao balcão um tipo todo elegante e bem cheiroso. Largou um porta-chaves da Porsche, como quem não quer saber da coisa e pediu um Scotch, simples. Olhou para mim. Olhei para ele e arrependi-me logo. O tipo abriu-se num sorriso e sentou-se ao meu lado.
Larguei uma nota em cima do balcão e saí do bar. Tive pena de falhar o fim da estória das raparigas. Mas não me estava a apetecer estar com pessoas. Cansam-me.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/23]

Cansado

Cheguei a casa cansado e deixei-me cair sobre o sofá. Adormeci.
Acordei algumas horas mais tarde com o som da televisão do vizinho de cima. Som de novela. Grande gritaria. Tiros. Algumas frases que já esqueci mas que me fizeram pensar que o nível dos argumentistas de televisão estava a descer muito.
Fui até à cozinha. Peguei numa faca de serrilha e cortei uma carcaça. Abri o frigorífico e retirei o pacote de manteiga. Barrei a parte de baixo do pão aberto ao meio. Comecei a comer. Fui até à janela da cozinha e pus-me a olhar para fora.
A gritaria lá em cima continuava. Malditas novelas. Maldita surdez.
Da janela da cozinha vi chegar um carro da polícia. Depois outro. Os agentes saíram rápidos dos carros e desataram a correr. Ouvi outro tiro da novela. E depois o silêncio. Os agentes passaram a correr à beira da minha porta.
Ouvi bater na porta do vizinho de cima. Depois o estrondo de uma porta a abrir-se à força.
Deixei-me cair de novo no sofá, Estava cansado. Queria que o sono me levasse para outra novela.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/22]

O Cheiro da Proximidade da Morte

O que mais me incomoda é o cheiro. O cheiro da proximidade da morte. A urina. A flatulência. Os odores exalados do corpo. Os dentes podres e a cair. As feridas que não saram. O sangue que não pára de pingar sobre as carpetes que eu tenho de limpar. A casca das cicatrizes arrancadas para o chão. O vómito provocado pela comida ingerida à força para alimentar um corpo que se quer despedir.
Mas o que mais me preocupa é que isto tudo é uma antevisão do que me espera. Os cheiros serão os meus. O desejo de despedida será o meu.
Repetimo-nos eternamente. De uma forma quase sagrada. Obrigatória. Até desaparecermos todos.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/21]

Em Direcção à Linha do Fundo

Estava à beira-mar. Olhava, lá longe, o horizonte. Os pés tentavam fugir pela areia molhada abaixo, sempre que uma pequena onda os afagava.
Gostava de conseguir ver África.
De vez em quando baixava-se e tocava com as mãos a água tépida do Algarve. E borrifava o corpo.
E se conseguisse chegar lá?
Enquanto olhava o horizonte, pensava na vida que tinha. Nas infidelidades do marido. Com a sua própria irmã. E ela sabia.
Será que ele conseguiria lá chegar?
As chatices com os filhos que não lhe davam descanso. O trabalho que não a satisfazia. Os amigos imbecis. Amigos do marido, claro. A falta de tempo, o sexo a correr, os jantares de merda com os conhecidos do costume com as mesmas conversas de sempre. Já não se lembrava da última vez que foram ao cinema. Ao teatro, ui, já nem sabia o que era. A saudade de pegar num livro e conseguir lê-lo até ao fim.
E se tentasse ir até lá, até ao fim?
Começou a entrar mais dentro de água. Mergulhou e começou a nadar. Em direcção ao horizonte. Afastando-se da costa. À procura de África. Ou fugindo de tudo o que deixava para trás.
Com um pouco de sorte…

[escrito directamente no facebook em 2017/07/20]

Acidente

Tive de correr para apanhar o expresso. Tinha de sair daqui para fora. A cidade estava a começar a oprimir-me. A fechar-se em torno de mim, a não me deixar respirar.
O autocarro estava cheio. O meu lugar ocupado. Sentei-me numa cadeira vaga, junto à janela, a meio da camioneta e que eu detesto. Tive de me encolher para caber naquele espaço exíguo.
Adormeci…
Quando acordei, dei de caras com um peixe. Um peixe com asas. Um peixe com asas e dentro de um aquário. Na verdade era o reflexo no vidro da janela da tatuagem que a rapariga da frente tinha no ombro. De repente vi o peixe com asas voar sobre os vidros em cacos do aquário que se estilhaçava.
O autocarro despistou-se e caiu por uma ribanceira. A rapariga da frente foi projectada pela janela. Eu senti-me às voltas… Vi gente ferida a sangrar… Ouvi gritos, choros, rezas… Vi as voltas do mundo através das janelas quebradas do autocarro… E… Depois… O silêncio… Tudo escuro… O vazio… A solidão… E eu?…

[escrito directamente no facebook em 2017/07/19]

O Prédio Onde Vivo Tem Dois Elevadores

Eu moro num prédio com elevador. Aliás, o prédio tem dois elevadores. Dois elevadores, um ao lado do outro, ambos para os mesmos sítios e à mesma velocidade. O estranho, ou talvez nem tanto, é que é muito difícil encontrá-los a funcionar ao mesmo tempo. Há sempre um deles que está avariado. Out of order, como diz o americano que vive lá no prédio vai para uns meses valentes e com quem me cruzo várias vezes, especialmente depois de jantar quando vou levar o lixo à rua. Encontro também, bastantes vezes, um técnico de elevadores a arranjá-los. Não sei se faz de propósito para haver sempre um a precisar de cuidados por causa da comissão. Mas é o que parece.
Muitas vezes quando chego ao prédio, tenho de chamar o elevador que está, quase sempre no primeiro andar. Porque raio? No primeiro andar!
Hoje saí muito cedo do prédio. Aliás, quase de madrugada. Encontrei um preservativo usado, e com um nó, no meio do elevador. Não consigo entender porquê. O prédio não tem pensões de águas correntes, quentes e frias. A porta da rua está sempre fechada. Há sempre algumas pessoas (na verdade são duas idosas) que dão sempre fé de tudo, como é que isto foi possível sem ter havido escândalo ou gritaria no prédio?
Pelo sim pelo não, deixei ficar tudo como estava, esperando vir a saber mais tarde o que é que teria acontecido.

Afinal, não teria acontecido nada. Nada se soube. Nada transpirou para os inquilinos. O mistério adensa-se. Tenho de voltar ao assunto.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/18]