Esta É uma Entrada que Também Pode Ser uma Saída

Destaque

Começou tudo a 27 de Junho de 2017. Desde esse dia comecei a publicar um pequeno conto diário, escrito directamente no Facebook. Um conto escrito de um só fôlego. Um conto diarístico, partindo, muitas vezes, de factos e acontecimentos reais que vivo ou observo. Depois comecei a guardá-los aqui. E está aberto a quem os quiser ler. É só entrar nestas páginas, sem se preocupar em sair. Há muito para ler.

A 13 de Março de 2020 atingi o conto número 1000.

O Marido Desaparecido da Minha Prima

Ela apareceu-me cá em casa para me dizer que o marido tinha desaparecido. E para me perguntar o que é que deveria fazer. Eu imaginei-me num escritório sombrio e com cheiro a mofo e a tabaco frio, esticado numa cadeira de espaldar e com os pés em cima da secretária, uma garrafa de whiskey barato a servir de pisa-papéis na mesa e um cigarro nas mãos, a fumegar para o tecto. Ela seria loira, de peitos generosos e um grande decote a não permitir fantasias. O real convém ser real. Ou não fosse ela minha prima, uma prima quase irmã, criados juntos e com férias juntos na praia. Conhecia-a bem. Não importa se foi com ela que dei os primeiros beijos de língua, para experimentar, claro, nem se foi ela também, a primeira mulher que vi nua, se bem que, na época, ainda não era mulher, nem tinha aqueles seios que tem agora, especialmente depois de ter sido mãe, era uma miúda apenas, como eu miúdo, partilhávamos a idade, os desejos e as descobertas.
Agora, eu não estava no escritório de um policial noir, estava no meu alpendre, descalço e de calções, um copo de gin numa mão e um cigarro na outra, a única coisa verdadeira naquela imaginação toda. Sim, tenho sempre um cigarro nas mãos.
Então o teu marido desapareceu? perguntei-lhe, mas sem grande interesse.
Ela estava chorosa. Disse um Sim! que se arrastou entre os soluços, o choro e o ranho, que normalmente acompanha o choro.
Perguntei-lhe Queres beber alguma coisa? e ela abanou a cabeça. Nem era dela, não aceitar um copo, especialmente de graça. Devia estar realmente preocupada. Mas olha, prima, quem não estava preocupado era eu. Porque raio vieste aqui? perguntei-lhe.
Ele devia dinheiro de jogo a uns romenos, disse. Ah! pensei eu cá com os meus botões que, pensando bem, não tinha nenhuns. Se há romenos não pode haver polícia, não é?
E o que é que queres de mim?, perguntei-lhe.
Tens muitos conhecimentos. Conheces muita gente. Muita gente de muitos lados, disse ela de uma vez. Os pontos fui eu que os pus para aligeirar a escrita pois, a conversa, foi feita sem regras gramaticais e, às vezes, com a sintaxe toda fodida. Ela estava nervosa, é o que era.
Eu disse-lhe Tenho de ir buscar um caderno para apontar os factos. E a verdade é que tenho mesmo de apontar tudo senão esqueço-me. Tenho andado com dificuldade em lembrar-me de coisas. Ultimamente utilizo o alarme do telemóvel para me lembrar do que tenho de fazer. Então, levantei-me, passei-lhe o copo de gin para as mãos e disse-lhe Vai bebendo!, e pensei que quando era nova, bem mais nova, era uma esponja. Às vezes bebia mais que eu e eu acabava mais depressa bêbado que ela. Foi assim que fomos várias vezes ao mar de madrugada, bêbados, nus, parvos, para eu curar a bebedeira e entrarmos em casa sem a minha mãe dar pelo nosso estado. Pelo meu estado, vá!, que ela era a menina querida da minha mãe. A filha que não tinha tido. Dei-lhe o copo de gin para as mãos e saí do alpendre, entrei dentro de casa com o cigarro a fumegar nas mãos e fui à sala.
Entrei na sala e olhei em volta. Sentei-me no sofá. Apaguei o cigarro no cinzeiro sobre a mesa de apoio. Olhei em volta e perguntei-me O que é que estou aqui a fazer? E não me conseguia lembrar o porquê de ter ido à sala. De repente vi a lente dos óculos estilhaçada, em frente do olhar aparentemente calmo do Dustin Hoffman, no poster do Straw Dogs de Sam Peckinpah que mandei emoldurar e pendurei na parede da sala. Gosto muito daquele filme. É um dos filmes da minha vida. Penso muitas vezes naquela violação da Susan George, violação crua e brutal que depois se transforma noutra coisa. Lembranças, lembranças. E no fim do gangbang (eram quantas, as bestas? duas? três?…) a metamorfose do pacato matemático num Rambo estratégico. Que filme!
Levantei-me e fui à prateleira dos dvds. Procurei na ordem alfabética dos realizadores. Entre vários do Sam Peckinpah, lá descobri o Straw Dogs. Coloquei-o no leitor. Liguei a televisão. Voltei a sentar-me no sofá. Acendi um cigarro. E deixei-me levar.
Ainda é um grande filme. Há uns anos fizeram uma remake. Uma merda! Para quê remake quando o original é uma obra-prima?
Estava o Dustin Hoffman a despedir os operários que lhe estariam a arranjar a casa, eles em cima do telhado e ele em baixo a gaguejar, quando ela apareceu na sala. A minha prima.
Onde é que te meteste? perguntou. Tinha-me esquecido dela. Tinha-me esquecido completamente. Dela e do marido desaparecido e dos romenos. Pus o filme em pause, acendi um cigarro, olhei para ela e disse Sim?…

[escrito directamente no facebook em 2021/07/23]

Ai Weiwei

Cruzei-me com o Ai Weiwei na Cordoaria Nacional, ali na Avenida da Índia, em Lisboa. E cruzei-me com uma sua fase bem política e activista, mesmo militante, agressiva, muito crítica da China e do tratamento que o mundo ocidental dá aos milhares de refugiados que tentam sobreviver ao inferno para conseguir chegar a um pedaço de terra que lhes garanta um pequeno futuro, um pequeno sonhado paraíso. Não deixa de ser irónico que as obras de Ai Weiwei sobre os barcos de refugiados tenham assentado arraiais precisamente na antiga fábrica de cabos, cordas, velas e bandeiras que equipavam os navios portugueses. Outros tempos, outras viagens.
Este Rapture, assim se chama este encantamento de horrores, começa logo por ser um festival de cinema tal a quantidade de filmes que estão em loop, mostrando as desgraças do nosso tempo, a tristeza de ser vivo em locais de morte, a esperança de alcançar o Éden em terras que os escorraçam, o anseio por mudanças e a desilusão do presente. Ai Weiwei é um observador atento de tudo isto. Os seus filmes denunciam o estado das coisas, os crimes, a falta de empatia, o nojo aos outros e aos próprios quando não são iguais. Os filmes de Ai Weiwei falam das botas opressoras.
Dos seus filmes, um deles, dividido em três partes, especialmente duro, embora eles sejam todos duros, fala de ausências. Uma das partes chama-se Floating e é sobre um pequeno barco de borracha abandonado que Ai Weiwei encontra à deriva no meio do mar. Outra parte chama-se On the Boat e Ai Weiwei faz-se filmar dentro do pequeno barco, ele e as coisas que lá foram abandonadas, e revive o que terá sido a vida daquela gente, daquela gente que esteve naquele pequeno barco de borracha encontrado à deriva no meio do mar, cujo horizonte nunca enxerga terra. O que terá acontecido àquela gente? Terão sido salvos por alguma fragata? Terão caído ao mar? Entre os objectos lá encontrados, está um biberão. A vida e (talvez) a morte, de conluio.
Este encontro que tive com a figura impressionante deste chinês do mundo, habitante do português Alentejo, este chinês que já tem galinhas para cuidar, e foi imortalizado em cortiça, numa peça intitulada Brainless Figure in Corth, produzido pela Corticeira Amorim, também me deslumbrou com a criação de momentos do seu encarceramento numa prisão secreta na China, momentos esses recriados a três dimensões na reprodução da sua cela, em escala ligeiramente mais pequena, obra em seis partes, seis caixas, intitulada S.A.C.R.E.D. onde Ai Weiwei mostra vários planos da sua vida sob vigilância total, onde foi interrogado e vigiado, vinte e quatro horas por dia, enquanto dormia, tomava banho, cagava.
Na Cordoaria, enquanto somos perseguidos por uma serpente voadora feita de mochilas, Snake Ceiling, e somos assombrados com os seus papagaios de papel, inúmeros (lembram-se dos candeeiros de papel, redondos, comprados nas lojas chinesas?), e pelos animais do zodíaco chinês, também em versão banhada a ouro, chegamos ao topo do edifício e encontramos um mural em azulejo português, onde estão desenhados vários momentos da vida dos refugiados e a sua caminhada, projecto complementar de outro que está no topo oposto e que terá servido de guia para este, Odyssey e Odyssey Tile.
Os olhos de Ai Weiwei vêm. O coração sente. E as suas palavras não têm medo dos significados.
A meio da sala está a reprodução, num tapete, do traçado das lagartas de um tanque de Tiananmen, o Tank Print. E, em cada um dos lados, junto ao murais, a caminho deles, dois gigantescos barcos cheios de gente. Gente com direito à vida e ao sonho.
Mas nem só de desgraças humanas vive este Rapto. Ai Weiwei também tem humor, bem retratado num enorme rolo de papel higiénico em mármore, Marble Toilet Paper, o objecto que melhor reflete os primeiros dias da pandemia da Covid-19; as bolas para o ânus em jade, Sex Toy; o pirete, inúmeros piretes, dedos do meio bem em riste, fotografados em frente aos centros do poder mundial; e o seu travestismo num videoclip de metal que retrata o seu cativeiro às mãos da tirania de Pequim.
Duas outras obras reflectem momentos importantes da história pessoal e da história colectiva chinesa: a colecção de cabides que lhe permitiram ter durante o cativeiro na China, e que são, eles mesmo, pequenas peças artísticas, e as bicicletas à entrada desta viagem, que sinalizam os anos da Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, e início desta ascensão da China no mundo.
Por fim, uma série de fotografias pessoais de Ai Weiwei e o registo do momento em que regressou à China para acompanhar os momentos finais da vida do pai, o conhecido poeta chinês Ai Qing.
É bom cruzar-me com Ai Weiwei. E é bom repassar tudo de novo. Há sempre coisas a descobrir. Isto no dia em que começa outra viagem com ele em Serralves. Tenho de fazer de novo o saco de viagem e pôr-me a caminho. O século XXI está todo retratado aqui, no imaginário deste chinês do Alentejo. E quero cruzar-me com ele outra vez.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/22]

As Horas à Espera Dela

Passo horas sentado na esplanada à espera que ela chegue. O trabalho dela prolonga-se sempre para lá do razoável. Do meu razoável. O meu trabalho acaba sempre que eu quero. Sou um privilegiado, eu sei. Mas no final do mês ela leva para casa bem mais que eu. Já lá vai o tempo em que os homens é que tinham de prover as famílias. Agora é quem pode. Ela pode mais que eu. Eu só posso acabar o trabalho mais cedo e mais rápido. Ela trabalha bem mais que eu.
Quando ela chega eu já estou bêbado. Não bêbado de cair para o lado, mas já com aquela cara de parvo que me caracteriza quando já bebi demais, todo meloso nos gestos e nas palavras, tento agarrar-lhe nas mamas à frente de toda a gente e digo-lhe como gosto delas e ela tem a paciência de tirar a mão com calma e dizer-me para esperar até chegarmos a casa. E diz isso a sorrir. Sabe que quando chegarmos a casa eu vou cair no sofá e dormir até ao dia seguinte. Não a vou agarrar. Nem me vou lembrar disso. Vou dormir que nem uma pedra. E ela acaba por ficar sozinha com o meu ronco.
Mas ainda é cedo. Quer dizer, já estou aqui há algum tempo mas não o suficiente para estar bêbado. Não é que não esteja a tentar. Comecei com um copo de vinho. Já pedi a garrafa. Já a despejei. Mas ainda estou bem. Ainda estou lúcido. E ela ainda não chegou.
A esplanada está deserta. Estava cheia quando aqui cheguei. O tempo arrefeceu. Ultimamente tem acontecido isto. O tempo arrefece muito. Parece que regressamos aos dias de Inverno. Devia ter trazido um casaco. Não trouxe. Estou com frio. Os braços estão arrepiados. Estou sozinho na esplanada. Passa pouca gente na rua. Os carros já saíram dos lugares de estacionamento e a beira dos passeios está livre e o mundo parece maior.
Levanto o braço à espera que, lá dentro, alguém veja e venha perguntar o que é que eu quero. E o que é que eu vou querer? Outra garrafa, não é? Está frio. Preciso de aquecer. E devia comer qualquer coisa para ensopar o vinho. Talvez um queijinho seco. Estou de braço levantado e ainda ninguém aqui veio. Ninguém me vê, é o que é! Sou invisível! É este o meu super-poder, não é? Sou o Homem-Invisível. Passo despercebido por todo o lado. Ninguém me vê. E os que me vêm nem se apercebem que me vêm. Mas já bebia outro copo. Talvez ela chegue entretanto e eu hoje não caia no sofá e consiga ir com ela para a cama.
Mantenho o braço levantado. Pode ser que alguém repare. Pode ser que ela chegue entretanto. Pode ser que comece a chover e eu tenha que ir também lá para dentro. Pode ser que anoiteça. E pode ser que seja de novo manhã e eu ainda aqui esteja. Sozinho, de braço levantado, à espera dela.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/21]

Azeitonas

Estou parado, em pé, no canto da cozinha, junto ao caixote do lixo com a tampa aberta, mastigo uma azeitona e cuspo o caroço para dentro do caixote. Já falhei o alvo por duas vezes e tive de me baixar para apanhar os caroços. Um deles enfiou-se debaixo do frigorífico e tive de ir buscar uma colher-de-pau para apanhar o caroço debaixo do electrodoméstico. Já lavei a colher-de-pau. Voltei para junto do caixote do lixo com uma mão-cheia de azeitonas que estou a comer. Gosto muito de azeitonas. Qualquer tipo de azeitonas. Das verdes, das pretas, com caroço, sem caroço, com pimento, com alho, com orégãos, enfim… Fui ao talho comprar duas bifanas, vou grelhar uma para o jantar, e comprei um saco de azeitonas misturadas que eles lá têm para venda. Coloquei algumas numa pequena tijela de porcelana que nunca usava e que agora uso para colocar as azeitonas, passá-las por água e levá-las para a mesa.
Houve uma época em que as pessoas que me acompanhavam às refeições, e me viam a colocar algumas azeitonas no prato da sopa, ficavam admiradas e achavam estranho. Coisas da província, diziam. A maior parte eram lisboetas que nunca tinham passado a norte da Portela e só saíam para sul porque tinham de ir para a Zambujeira do Mar. Não iam para o Algarve porque o Algarve era coutada da gente do norte. Os de Lisboa iam para a Costa Alentejana. Zambujeira, Milfontes, Carvalhal, Porto Covo e assim, se bem que desde que o Rui Veloso se pôs a cantar que Havia um pessegueiro na ilha, os lisboetas deixaram de ir para Porto Covo. Eu vou para todo o lado. Ia. Agora não vou para lado nenhum. Agora vou para fora cá dentro. Cá dentro de casa. Não saio da aldeia. Às vezes faço umas surtidas aqui à volta, Leiria, Nazaré, Vale Furado, Alcobaça, São Pedro de Moel, mas são saídas rápidas que terminam depressa e depressa estou de regresso a casa. Esta gente da capital não conhece nada e quando conhece alguma coisa que desconhece, quase tudo, acha tudo muito estranho, bizarro, esotérico e coisa de provincianos. Algum tempo depois, já toda a gente colocava azeitonas na sopa. É bom, não é? Conas!
Hoje fui ao talho aqui da aldeia comprar duas bifanas. Vou grelhar uma para o jantar e a outra congelo-a para outro dia em que não souber o que fazer para comer. Está a apetecer-me uma bifana como aquelas das rulotes mas, como não há rulotes por aqui, faço em casa. Vou torrar um pouco um papo-seco, coloco-lhe a bifana que irei grelhar só com sal e pimenta, gosto das bifanas grelhadas e não fritas, fritas gostava quando andava a estudar no Bairro Alto e, ali ao lado do Estádio, ao cimo do Elevador da Glória, havia lá uma tasca que não recordo o nome, que tinha um fogão de dois bicos à janela que dava para a rua, para o passeio onde eu passava, com um tacho sempre cheio de bifanas, um tacho que era sempre o mesmo e com o mesmo molho durante anos, um tacho que nunca fora lavado, e que eram as melhores bifanas do mundo quando eu tinha vinte anos (qual bifanas de Vendas Novas, qual caralho!), mas agora gosto mais delas grelhadas. Depois no pão coloco uma fatia de queijo sobre a bifana e como assim, juntamente com umas azeitonas, umas batatas fritas Ruffles da Matutano e um copo de vinho tinto, por acaso hoje vai ser branco que já não tenho tinto, acabei com as garrafas dos produtores daqui da zona, garrafas oferecidas mas que já foram todas, e agora tenho de ir ao supermercado comprar mais algumas, que são mais baratas no supermercado, mas não me apeteceu sair de carro e, para ir ao supermercado tenho de ir de carro e, na verdade, eu gosto mesmo é de andar a pé.
Acabo as azeitonas. Cuspo os caroços. Mais nenhum deles volta a falhar o caixote do lixo. Acendo um cigarro. Abro a porta da rua. O dia está chocho. Esteve sempre chocho. Parece que vai chover. Este tempo dá-me moleza. Não me apetece fazer nada. Vou fumar este cigarro. Depois do cigarro vou fazer a bifana. E depois, depois vou sentar-me no sofá a ler um livro. Está a apetecer-me ler um livro. Tenho de descobrir o que é que me apetece ler. Esta é a melhor parte de ler um livro. Escolher o livro que vou ler.
Está a saber-me bem, este cigarro em cima das azeitonas. Acho que a bifana também me vai saber mesmo bem. Até estou a salivar.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/20]

Não Devia Ter Bebido o Último Copo

Arrasto-me pela estrada fora. Pesam-me os pés e a cabeça. Os pés têm dificuldade em colocar-se um a seguir ao outro, a cabeça tende a cair sobre o peito. Vejo tudo a dançar à minha volta. Como o carrossel da Feira de Maio. A bacia que gira sobre si própria enquanto o carrossel anda às voltas e acima e abaixo. Sinto-me enjoado. Sinto um vómito a querer subir, mas consigo que fique lá em baixo, quietinho, sossegado.
Não devia ter bebido o último copo.
A casa fica longe. A minha casa. A casa onde estou a viver. Estou lá sozinho. Vivo sozinho naquela casa. Uma casa grande. Não gosto de beber sozinho. Gosto de companhia. Gosto de conversar enquanto bebo. Gosto de beber. Também gosto de conversar. Não gosto quando bebo o último copo.
Não devia ter bebido aquele copo.
Tropeço num dos pés ou um dos pés tropeça em qualquer coisa e eu caio. Não consigo levar as mãos à frente e caio com a cara. Acho que parti o nariz. Acho que fiz sangue. Mas não me dói muito. Não me consigo levantar. Tenho de fazer um esforço. Tenho de voltar para casa. Não posso ficar aqui. Estou pesado. Tenho de emagrecer. Comer menos pão. Beber menos. Fazer exercício físico. Aqui dou uma gargalhada. Eu a fazer exercício físico? acho que me ouvi perguntar. Dou nova gargalhada. Ou é a mesma? O meu exercício físico preferido é o zapping de cu enterrado no sofá, de preferência com um cigarro numa mão e um copo de vinho noutra.
Estive a beber uns copos de vinho no café. No café da aldeia. Não devia ter bebido o último copo.
Estava a saber-me bem, estar ali na conversa. O vinho escorrega e só dou por ele quando ele dá por mim. Quando ele dá por mim, já não dá mais para dar conta dele porque ele já deu conta de mim.
Preciso de arrotar.
Primeiro, levantar-me. Está difícil. Difícil mas não impossível.
Vamos lá. Recomeçamos a caminhada. O fim da rua está cada vez mais distante. Levantou-se esta ventania. Oh, pá! Que arroto azedo. Foda-se!
Não devia ter bebido o último copo.
Devia ter comido alguma coisa. Ajudava a ensopar. Mas não me apetece. Quando é que começa outra vez o Benfica?
Olha, os candeeiros já estão ligados. Já é de noite? Porra, já é de noite?
O que é que eu vou fazer agora?
Quero deitar-me. Mas não posso fechar os olhos. Vou tomar um banho. Tenho calor. Tenho sangue. Tenho sangue na cara, porra! Dói-me o nariz. Parti o nariz? Como é que parti esta merda? Oh, que caralho! Como é que fiz isto?
Tenho de ir depressa para casa. Porra, a estrada mexe-se. Tenho de ir mais depressa. Tenho de tentar manter o equilíbrio e não sair da estrada. Corro. Corro. Corro e não caio. Mas a rua não acaba. Corro. Corro mas parece que estou no mesmo sítio. Não consigo sair daqui.
Volto a tropeçar. Caio. Outra vez. Desta vez levo as mãos à minha frente. Eu vejo-me a cair e a levar as mãos à frente da cara, do corpo. Mas caio de joelhos. Foda-se! Estou de calções. Rasgo os joelhos. Há mais sangue. Não sei se é o mesmo, se é outro. Vou vomitar. Foda-se! Vomito-me todo. Estou maldisposto. Ouço um carro a buzinar. O que é que o carro está a fazer no passeio? Faço-lhe um pirete. Vai para o caralho, pá! digo-lhe. Ou acho que lhe digo. Não me ouço. Estarei afónico? Quero levantar-me. Tenho sangue. A cabeça está à roda. Quero ir para casa. Não quero ir para o hospital. Apetecia-me beber uma cerveja. Fumar uma joint.
Não devia ter bebido aquele último copo de vinho. Estava estragado, com certeza. Agora vou morrer. Oh, foda-se! Agora vou morrer! Não quero morrer. Não quero morrer sozinho. Quero ir para casa. Quero ir para a cama. Choro. Choro? Porque raio é que choro? Paneleirices! És um homem ou um garoto? Eu acho que sou um garoto. Que homem estaria nesta situação? Bom, um homem como eu. Oh, pá! Cala-te que já não consigo ouvir-te. Deixa-te ficar aqui deitado. Deixa-te ficar aqui que estás bem. Afasta-te é um pouco deste vomitado. Alguém vomitou aqui. Preciso de mijar. Acho que vou ficar aqui um bocadinho. Para descansar. Só preciso de descansar um bocadinho. Depois fumo um cigarro. Fumo um cigarro e bebo um copo, tomo um Ventilan, um Voltaren, um Ben-U-Ron e dois Xanax e fico bem.
Não devia ter bebido aquele copo.
Vou ficar bem.
Vou, vou.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/19]

Conversa Sobre o Tempo

Levantei-me do sofá e fui vestir uma camisola. O tempo arrefecera. Enquanto em Monchique andavam no rescaldo do incêndio, por aqui o frio voltava em força.
Falo sobre o tempo e parece que não tenho mais nada do que falar. Não é verdade. Há tanta coisa sobre a minha vida e sobre os dias em que me movo para dizer que poderia preencher resmas de folhas da Navigator ou encher discos externos de um tera só com as histórias que vivi, vou vivendo, gostaria de ter vivido ou vou ter de viver. Palavreado não me falta. A repetição deve-se à repetição da vida. Há dias que são iguais. Dias e semanas e meses formados nos mesmos moldes. Uns saídos a papel químico dos outros.
Tive mesmo de ir buscar uma camisola. Estava a ver um filme na televisão e fui aguentando até ao fim. Claro que podia ter parado o filme, ou puxado para trás para retomar o fio-à-meada depois de me ter levantado para ir buscar a camisola. Mas sou da velha guarda. Gosto de ver um filme do princípio ao fim de uma vez. Sem pausas. Sem pausas mesmo para mijar. Quando o filme terminou, libertei um arrepio de frio pela coluna acima. Levantei-me e fui buscar uma camisola.
Não deixa de ser bizarro. Tem estado um calor infernal. Sufoca-se na rua a meio do dia. O ar queima ao passar pela garganta. Isso era ontem. Hoje estou com frio. Com tanto frio que fico com azia ao respirar o ar gelado que se pôs. O excesso de calor já provocou incêndios. Ontem houve um na serra de Monchique. O céu ficou chumbo. Vi, na televisão, imagens de uma mulher a salvar uns cavalos. Coitados dos cavalos, de todos os outros bichos que não se conseguem salvar e morrem carbonizados, e coitadas das pessoas que perdem entes e vêm os seus bens perderem-se na voragem das chamas. Às vezes a vida pode ser um inferno. Depois é preciso recomeçar outra vez. Recomeçar de novo. E forças?
E no meio de tudo isto, na Europa Central, chuvadas torrenciais levam a desgraça à Alemanha e à Bélgica. Cidades construídas em leito de cheia são destruídas. Campos alagados. Carros arrastados pela fúria das águas. Já viram a água furiosa a caminho de um sítio qualquer?
Acho que temos de voltar a falar, mas a sério, das alterações climáticas. Não só por causa dos meus dias, e das diferenças que ocorrem de um dia para o outro, mas também. Lembro-me da miúda sueca a quem chamavam de tonta. A miúda que começou solitária e que acabou a arrastar multidões, de miúdos como ela mas também alguns adultos. Alguns continuam a achar que ela é chalupa. Eu acho que nós é que somos parvos por continuarmos a aceitar as coisas como elas são sem arrepiar caminho. Às vezes parece que só lá vamos ao estalo.
No outo dia, na farmácia, pediram-me uns cêntimos para pagar um saquinho pequenino de papel que se rompe com facilidade. Normalmente não quero sacos. Mas eram muitas embalagens de vários medicamentos. Depois pensei melhor e disse para a farmacêutica Tenho de pagar para fazer publicidade a essa empresa que está nos sacos? E ela disse Pois!… Agarrei nas embalagens de medicamentos e coloquei-as no regaço, em cima da t-shirt que acabei por dobrar para me servir de saco.
Posso abdicar de tudo. De carro, de telemóvel, de micro-ondas. Se as coisas são prejudiciais, parem-nas. Parem a produção. O crescimento infinito é uma falácia, sabem? E pagar cêntimos por sacos de plástico ou de papel que empresas pagam para lá virem gravadas é só pura ganância. Acabem com a porra dos sacos, destes sacos de uso único.
Entretanto o frio aumenta. Acabo a fazer um chá. Quem diria? Em pleno Julho, a beber chá quente para me ajudar a aquecer. Malditos dias, estes.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/18]

Podias Ter-me Deixado Lá Onde Me Encontraste!

Eu disse-lhe Podias ter-me deixado lá onde me encontraste!
Ela não disse nada. Ficou zangada comigo. Eu sei quando ela fica zangada comigo. E quando não me responde, nem dá seguimento às minhas conversas, eu sei que está zangada comigo. E eu também sei que o que lhe disse é motivo de zanga. Ela fica furiosa quando eu lhe falo nisto, quando eu a lembro de quando me encontrou, de quando me foi buscar, de quando me trouxe para aqui.
Eu estou-lhe agradecido. O que ela fez foi dar-me uma segunda oportunidade.
Quando a vida, a minha vida, não corre como devia, ou como eu queria que corresse, eu fico zangado, fico zangado comigo, comigo e com a minha vida, com a minha exposição na vida, e digo coisas que não devia, mas preciso de dizê-las para aliviar o corpo, o coração, a cabeça e para não ter de voltar a ser encontrado lá onde fui encontrado. É por isso que eu digo Podias ter-me deixado lá onde me encontraste! É um grito. Uma asneira, uma caralhada. É um exorcismo. Mas sei que ela não gosta. Sei que, para ela, o ter-me encontrado foi uma prova de fogo, ela própria foi posta à prova e passou com distinção, mas consumiu-a. Ela ficou desmembrada. Teve de ir buscar forças ao mais fundo de si própria e não quererá voltar a passar pelo mesmo outra vez. Eu sei. Eu sei e ela sabe que eu sei. É por isso que não diz nada. Mas consome-se lá por dentro por minha causa.
Eu poderia evitar dizer o que digo. Ainda por cima, não é culpa dela as desgraças que se abatem sobre mim. O acaso, eu próprio, sei lá. Qualquer coisa. O destino. A porra do destino, que é a maneira mais fácil de tentar arranjar explicação para o que não tem. É assim, a vida. Uns ganham e outros perdem. Uns ganham sempre e outros perdem sempre. E depois grito. Blasfemo. Magoo quem me quer bem para me magoar a mim próprio. Sim, no fundo, o que eu quero é magoar-me a mim próprio. É ir para o sítio onde ela me encontrou sem ir para o sítio onde ela me encontrou. É por isso que lhe digo Podias ter-me deixado lá onde me encontraste.
Ela está sentada no sofá a ouvir as notícias num canal de notícias. Talvez a RTP3. Eu andei para a frente e para trás a tentar arranjar uma maneira de lhe pedir desculpa. Mas não é fácil voltar a falar no que aconteceu.
Já fumei dois cigarros. Bebi um whiskey. Fui à janela uma dúzia de vezes. O final da tarde já deu lugar à noite. Ainda não falámos depois de eu ter dito o que disse. Nem jantámos. Nenhum de nós arriscou fazer o jantar. Ela continua na sala, sentada no sofá a ouvir as notícias sobre as enxurradas na Alemanha e na Bélgica. Sobre o incêndio na serra de Monchique.
Sento-me ao lado dela. Coloco a minha mão sobre a dela. Os dedos da mão dela reagem à minha mão e acariciam-me os dedos. Não olhamos um para o outro. Estamos em processo de recuperar o ambiente anterior. É melhor não forçar as coisas. Para já, houve um pedido de desculpas sem ser necessário pedir Desculpa! E as desculpas não pedidas foram aceites na forma de umas festas. Agora só precisamos de tempo. Eu e ela. Eu às vezes sou uma besta. Ela tem uma paciência do caralho para me aturar. Depois só precisamos de um pouco de tempo. Tempo para perder a zanga e esvaziar a fúria. Gosto do calor da mão dela.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/17]

Belo Adormecido

Fechei os olhos à ida e voltei a abri-los quando já estava de regresso.
Sentado no topo do barco, no meio do povo carregado de lancheiras, malas térmicas e colchões de ar, o sol a bater-me na cara, o som da água a deslizar por baixo do ferry e as conversas amenas que se ouviam ali à volta embalaram-me. Os olhos fecharam-se e adormeci.
Despertei quando uma moto-de-água esgalhou o motor ao lado do ferry, macho-alfa em exibição parola, e ultrapassou-nos para parar logo de seguida com algum problema no motor. Acordou-me. O sol já estava do outro lado do ferry. O ferry já não ia, vinha. E o que é que se tinha passado entretanto? durante o resto do dia? entre o ir e o voltar?
Há buracos de tempo nas minhas memórias. Nas mais imediatas mas também nas mais antigas. Não é que me esqueça do que aconteceu. Parece é que não aconteceu nada.
Eu ia para a praia. E, depois, vinha da praia. Trazia o cabelo cheio de sal, o corpo queimado, não bronzeado, queimado mesmo, depois de três anos sem ir à praia, e mesmo utilizando protector solar factor trinta, e sim, sentia ainda creme no corpo, mas parecia uma lagosta suada, corada. Os lábios gretados, talvez pela falta de água e excesso de calor. Os testículos com areia. As unhas das mãos, e as dos pés, estava de chinelos e via as unhas dos pés, estavam sujas.
Talvez não tenha acontecido nada e tudo seja uma ilusão. Posso nunca ter saído de casa. Posso nunca ter subido no ferry. Posso mesmo nunca ter ido à praia.
Talvez tenha acontecido tudo noutra dimensão. Talvez tenha caído do ferry numa oscilação e passado por um portal. Talvez tenha chegado a uma praia. Uma praia longínqua onde tive de caminhar durante horas com uma linha de horizonte que se mantinha sempre à mesma distância até que talvez tenha chegado. Talvez tenha espetado o chapéu na areia, espalhado creme protector pelo corpo, pelo menos nas zonas onde tenha conseguido chegar, e me tenha deitado a dormitar enquanto o sol me lambia o corpo branco e o torrava. Talvez tenha ido ao banho ali, no sítio onde o mar e a ria se cruzam, a água morna, as ondas pequeninas, a maré suave, aquele chapinhar sonolento e a pouca gente que estava e os que estavam, provavelmente, estavam calmos e silenciosos. Talvez tenha comido um papo-seco com queijo e presunto. Talvez tenha comido um generoso cacho de uvas pretas. Talvez tenha devorado um Tupperware cheio de pedaços de melão e melancia. Talvez tenha bebido uma garrafa de água de litro e meio. Talvez tenha bebido um café no apoio de praia a meio do dia. Talvez tenha bebido um gin tónico a meio da caminhada de regresso ao ferry, em fim de dia, para ter forças nas pernas e não me deixar abater pelo caminho interminável. Talvez tenha voltado a entrar no ferry de regresso e, a meio da viagem, ao passar pelo mesmo portal que me puxou para lá, para a outra dimensão, tenha sido cuspido de regresso e, efectivamente, nada tenha realmente acontecido aqui, deste lado, onde eu não cheguei a chegar onde ia e acabei por regressar sem ter ido onde devia. Tudo um sonho, provavelmente. Talvez. A minha vida sempre muito dada a talvez.
Não me quero perdido em dúvidas.
Amanhã retomo a viagem. Amanhã irei atento. Amanhã guardarei memória da minha ida à praia para poder ter mais um capítulo da minha vida. Sem dúvida. Sem buracos na memória. Talvez.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/16]

Olhão

Olhão é, talvez, o segredo mais bem guardado do Algarve. A meio caminho de Tavira, o segredo revelado, para quem vem de Faro, Olhão não é uma localidade turística de pernas abertas à espera dos voos charter das ilhas britânicas, tem vida própria, gente nativa de pele curtida pelo sol, terra de pescadores, de pescadores e peixeiras, e outras gentes normais com empregos normais e banais que fazem andar os dias, uns atrás dos outros, para quem ainda há cafés e snack-bares e restaurantes e pizzarias a preços de gente normal, com empregos normais e salários estupidamente baixos normais.
Olhão não é praia. Mas está perto delas. Não é uma terra bonita, mas tem o seu charme. Olhão tem um grande problema, ainda não está estragada. Mas temo que, mais dia menos dia, esse assunto seja resolvido. Há obras ao longo de toda a linha de água e, quando vejo obras desta envergadura, quando se tenta embelezar o que já era bonito, assusto-me sempre.
Quando se chega a Olhão, assume-se um certo desgosto. Aquelas entradas são feias. Fazem lembrar algumas localidades em volta de Lisboa. Localidades tristes e miseráveis. Arredores dos arredores. Casas sem história e sem arquitectura. Mas depois entramos naquilo que será a zona velha, a zona histórica, perto do mercado, e somos puxados para dentro do vórtice para o qual poucos são chamados. Foi daqui que saiu gente que foi fundar a Baía dos Tigres, frente ao Namibe. O mercado é bonito, construção do início do século XX, em tijolo vermelho, rodeado de bares e restaurantes entre o gourmet e o popular, dá para toda a gente, para todos os gostos e para todas as carteiras.
Dei uma volta para estacionar o carro e parei em zona livre, onde os parquímetros não entram. Um luxo. Repito. Estacionei o carro em zona livre de pagamento. Ficou lá parado o tempo todo e o tempo todo locomovo-me a pé. Há lá melhor maneira de conhecer uma terra?
Volto atrás. Olhão não é praia. Mas dá-se com elas. Partem, diariamente, várias vezes ao longo do dia, mais ou menos a todas as horas, barcos com destino às praias da Armona, da Culatra e do Farol. É só escolher. A mais próxima, a da Armona, necessita de uma viagem de quinze minutos. A mais distante, a do Farol, requer uma viagem de quarenta e cinco minutos. A Culatra fica a caminho do Farol.
Chegados às praias, praias para as quais, depois de atravessar a ria de barco é necessário galgar sapais a pé, temos sol e mar. Uma água nem quente nem fria, amena e limpa. Um sol devorador. É preciso usar protector solar. Pouca gente. Por momentos senti falta de gritaria, jovens aos toques na bola, a jogar raquetas, a fazer peito em rituais de acasalamento a impressionar miúdas, miúdos aos berros, pais a discutir a bola, mães a queixarem-se das notas dos filhos ou, talvez devessem, dos dramas da pandemia. Não. Gente tranquila que aguarda ordeiramente a vez para entrar nos barcos, para sair dos barcos, para caminhar ao longo dos passadiços para chegar à praia, casas-de-banho limpas, asseadas e com papel-higiénico e toalhas para as mãos. Gente que, na praia, mantém a distância. Gente que, em trânsito, anda toda de máscara. Gente que pára numa esplanada para beber um café ou uma cerveja e portam-se como pessoas. E não berram. Conversam. Em alemão, em inglês, em francês e espanhol e, também, em português com várias pronúncias.
Olhão é um segredo e, na verdade, o meu conselho é que não vão para lá. Deixa-na continuar assim, só para algumas pessoas que não querem encontrar Albufeira em todos os outros sítios. Nem há hotéis. Bom, até há. Há um hotel novo e todo luxuoso, mas que eu não fui lá coscuvilhar. Há Alojamento Local em casa antigas que se andam a recuperar. Aos poucos. Porque Roma e Paiva também não se fizeram num dia.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/15]

Numa Esplanada à Beira da Ria

Os enormes chapéus de sol vermelhos, da Super Bock, abanam ao vento. As abas estalam como chicotes. Dobram-se ao vento que se levantou. Esteve um dia quente. Ainda está. Mas levantou-se vento. À minha frente, no pequeno porto de recreio, os barcos, pequenos barcos a motor, um ou outro catamarã, nada de muito chique nem muito ostensivo, andam para cima e para baixo ao sabor das ondas levantadas pelo vento.
As esplanadas estão cheias. São vários os bares, restaurantes, cafés, geladarias com esplanadas viradas à ria. Ao fundo, depois da marina e da ria, vê-se a língua de terra da ilha que se espalha ao longo da costa. As pessoas olham para lá. Os mastros dos barcos ancorados na ilha andam violentamente de um lado para o outro. O vento está mais forte lá ao fundo. Ao meu lado, duas senhoras bebem vinho branco e comem uns camarões. Na marginal, em jeito de passeio, um Labrador, com coleira, passeia-se sozinho olhando para as pessoas nas esplanadas como se procurasse alguém. Uma rapariga de vestido, que parece querer levantar voo, fala para um telemóvel e, quando o Labrador passa, passa-lhe a mão pelo pêlo, desequilibra-se e deixa cair o telemóvel ao mar. Sem pensar duas vezes, mergulha atrás dele. Eu vejo-a mergulhar e penso que deve estar doida.
De uma outra esplanada lá mais ao fundo, vem o som alterado de vozes. Alguém discute. Os meus olhos viram-se para o sítio de onde vem o barulho e vejo uma rapariga dar um estalo na cara de um velho, levantar-se da mesa, despejar um copo, talvez uma caipirinha, para cima do velho e ir-se embora esbaforida, a refilar alto. As pessoas estão como o tempo, agitadas.
Levo um cigarro à boca. Acendo-o. Reparo que ninguém está de máscara mas é normal, não é?, aqui come-se e bebe-se e fuma-se, as mesas estão distantes, algumas das pessoas estão sozinhas, como eu, e não se passa nada para além do vento que se levantou e que pode transformar-se em tempestade, ou não, que eu não percebo nada disto e sou só um cronista dos dias que correm soltos à minha volta.
Agora passa uma bola, empurrado pelo vento, passa paralela à linha do mar e não cai. Atrás da bola surge um miúdo que corre que nem doido atrás dela enquanto a manda parar Pára! Pára! mas a bola continua imparável empurrada pelo vento.
A rapariga que mergulhou atrás do telemóvel, já me tinha esquecido dela, surge de baixo, surge do mar, encharcada, com o telemóvel nas mãos, e vejo-a levar o telemóvel ao ouvido e gritar Está? Está? mas parece que não está ninguém ou, pelo menos, ninguém a ouve.
Acabo com o resto da imperial que está à minha frente. Não sei se peça outra. As ondas estão mais altas, uma delas bate contra o paredão e rebenta à minha frente. Algumas pessoas são molhadas. Eu também sou salpicado. Penso que é melhor ir embora. Mando fora o cigarro. O sol já se foi. O vento está mais forte, o mar mais agitado e está a começar a fazer frio. Talvez venha mesmo aí uma tempestade. Já não vejo o Labrador. O miúdo vem ao colo do pai, deve ser o pai, e traz a bola nas mãos. A rapariga continua a tentar falar para o telemóvel. As duas senhoras estão agora a beijar-se e uma delas tem um camarão descascado na mão, à espera do momento certo para o levar à boca.
As outras pessoas que enchem todas estas esplanadas são outras estórias que eu não li. Não posso ler tudo. Algumas estórias são só para estarem ali, ou para serem lidas por outros. Eu vou-me embora. Já li a minha dose. Acho que vem aí tempestade.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/14]