Esta É uma Entrada que Também Pode Ser uma Saída

Destaque

Não sei muito bem o que virá para aqui. Alguns textos, com certeza. Contos, provavelmente. Análise de alguns filmes. Comentários de alguns livros. Esta será uma entrada para qualquer coisa. Também poderá ser uma saída. Espero que não. Logo se vê.

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Estava Ali mas Não Sei Onde Era

Estava a olhar para a miúda sentada à minha frente. Não a conseguia ver muito bem. Havia pouca luz. Quase nenhuma. Acho que era de noite e vinha uma luz de longe, de outro lado, que irradiava uma claridade suja ao sítio onde estava.
A miúda estava sentada no chão e encostada à parede, mesmo à minha frente. Não se mexia e parecia tombada. Talvez um pouco de lado. Não percebi muito bem.
Percebi, no entanto, que também eu estava sentado no chão, frente à miúda, mas ainda um pouco distantes. Tinha um cigarro na mão, quase inteiro, que devia ter acendido há pouco. Mas não me lembrava de nada.
O chão estava cheio de entulho, muito lixo, restos de restos, uns colchões… Eu estava sentado num colchão! Foda-se, devia ser só pulgas e piolhos e baratas e… Queria levantar-me mas não conseguia. Continuei ali. Sentado a olhar para a miúda que não se mexia, com um cigarro na mão que não fumava num sítio onde não me lembrava de ter ido. E que não parecia uma casa. Talvez um velho barracão, uma fábrica abandonada, uma antiga oficina…
De repente umas luzes coloridas invadiram o local e levaram mais claridade a espaços. Pareciam psicadélicas, luzes de discoteca, projecções da bola de espelhos e foi então que vi a agulha espetada no braço da miúda, ela inerte, com uma baba a sair da boca e percebi que tinha tido uma OD.
Um barulho de gente chegou ao local antes das pessoas. Percebi uns paramédicos que foram encaminhados para a miúda por alguém. Viram-na, miraram-na, deitaram-na no chão e depois passaram-na para uma maca e levaram-na dali para fora.
As pessoas foram embora com o ruído. As luzes psicadélicas deram duas voltas e também se foram embora, mas desta vez, na companhia de uma sirene. E ficou o silêncio. E eu fiquei ali sozinho, sem saber que raio estava ali a fazer e onde raio era ali.
Uma rapariga entrou por ali dentro, aproximou-se de mim, estendeu-me a mão e disse Anda! E eu deu-lhe a mão e fui.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/22]

Tenho 20 Euros no Bolso

Tenho 20 euros no bolso.
E agora? O que é que irei fazer com este dinheiro? Posso ir comprar uns pacotes de vinho tinto ao Pingo Doce. Ou uns litros de cerveja. Mas ela morre cedo, morre antes de mim. Posso ir antes comer umas bifanas ali às rulotes. Mas ainda é cedo. Ainda não estão a funcionar.
Tenho 20 euros no bolso.
Mas já estive pior. Há sempre a possibilidade de já se ter estado pior. E vir ainda a piorar mais. É uma verdade que conhecemos: o poço não tem fundo, e quando se cai, não se sabe quando é que se vai parar. Por isso, ter 20 euros no bolso, é algo para preservar.
Tenho 20 euros no bolso.
E acho que os vou guardar para amanhã. Para um pequeno luxo. Uma meia-de-leite e um croissant com manteiga sentado à mesa do café. Sentir-me mais um como os outros. E poder pagar. Tirar a nota do bolso das calças e, como os outros, poder pagar.
Tenho 20 euros no bolso.
E agora tenho de arranjar maneira de os guardar até amanhã.
Aproveito que o trânsito acalmou e estendo os caixotes. Espero ter uma noite tranquila. O Verão acabou mas o frio ainda não é muito. Tenho de aproveitar os últimos dias de calor para conseguir dormir. E com 20 euros no bolso.
Tenho 20 euros no bolso, estou sozinho e estou feliz. Acho.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/21]

Era Tudo Escuridão

Era de noite e estava a fazer a avenida principal da Marinha Grande, uma cidade industrial, antes do vidro, agora dos moldes, que fica entre Leiria e São Pedro de Moel, ali na Beira Litoral, ou na Estremadura, as opiniões dividem-se, andando num pára-arranca doido com todos aqueles semáforos sempre a cair no vermelho quando eu deles me aproximava, até que chego à Rotunda do Vidreiro e sou obrigado a parar atrás de uma outra viatura que já lá está parada, à espera de entrar numa rotunda onde não se avistava nenhum carro a circular.
Tinha acabado de parar atrás do carro, quando saem de lá de dentro quatro homens, cada um da sua porta, aproximando-se do meu carro e eu assustei-me com a rapidez de um possível assalto. Ora, tendo já sido trancado atrás por outra viatura, entretanto chegada, e não podendo subir os passeios que me induzem à rotunda por serem muito altos, senti-me preso, mas logo arrancado à bruta de dentro do meu carro por umas patorras que cortaram o cinto de segurança com uma navalha e me puxaram à força para o meio do asfalto.
De dentro do meu carro vinham os gritos histéricos da minha mulher. Eu fui rodeado pelos quarto homens que desataram a dar-me murros e pontapés. Tentei encolher-me, tornar-me mais pequeno para ter menos corpo onde bater, protegi a cabeça com as mão, os braços, as pernas, com tudo o que me foi possível para lá puxar, enquanto os quatro continuavam a arrear-me forte e feio, à bruta, uma tareia dolorosa, em todo o corpo, tronco, pernas, braços, rabo, cabeça, e os gritos da minha mulher em pano de fundo, lá muito ao fundo, cada vez mais distantes, como se ela estivesse a ser afastada de mim com muita rapidez.
Houve uma altura em que o corpo respondia ao toque, abanava, rodava, tremia como gelatina, mas eu já não sentia dor alguma, já não sentia nada, já não ouvia os gritos da minha mulher, já não ouvia nada, tentei ainda abrir os olhos, mas não consegui, estava tudo na escuridão, no vazio, no limbo. E, de repente, nada. Desapareci.

Acordei um pouco bêbado da medicação numa cama de hospital. Estava cheio de hematomas, inchaços, rasgos, sangue, algum sangue espalhado por vários sítios da cara, sangue muito escuro, arranhões e uns curativos, algum esparadrapo e muitas dores. Muitas dores.
Algum tempo depois, chegou a polícia a querer algumas informações. E não me lembrava de grande coisa. Depois a minha mulher, num estado ainda mais lastimável que o meu, sem saber o que dizer, abraçou-me e soube-me bem sentir o seu calor húmido junto a mim. Ela exalava a preocupação de quem tinha acabado de assistir ao fim do mundo de uma forma dolorosa.
Eu nunca soube que me agrediu nem porquê.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/20]

Penso que Passaram Dois Dias, mas Já Não Sei Nada

Há dois dias que estou aqui sentado, neste sofá. Há dois dias que não saio daqui. Há dois dias que não como, nem bebo, nem vou à casa-de-banho. Há dois dias que só fumo. E os cigarros estão a acabar. Aqui ao pé de mim. Se me conseguir levantar e ir até àquele armário que está ali à frente, tenho lá um volume. Mas não sei se consigo.
Há dois dias que ela saiu pela porta da rua. Aquela que ainda se consegue ver daqui, de esguelha. Saiu porque se fartou, disse ela. Fartou-se que eu lhe chamasse a atenção por deixar as cuecas sujas por todo o lado. Gaita, tinha um cesto para isso. Todos os dias deixava as cuecas pelo chão. Todos os dias. E era eu que tinha de as apanhar. Só lhe dizia para as colocar no cesto. Mais nada. Mas foi uma desculpa. Na verdade a razão era eu. Na verdade, ao fim deste tempo, ela já estava farta de nós. Não tínhamos nada em comum, nada a ver um com o outro. Para além das bebedeiras que apanhávamos, claro. Aliás, foi aí que nos encontrámos. No balcão de um bar. A beber. Sozinhos. Encontrámos-nos na solidão do álcool. Foi o que nos ligou. Nem a cama foi tão próxima.
Há dois dias que ela se foi embora e eu aqui estou. Não sei se é de dia ou de noite porque a janela está fechada e não tenho vontade de a abrir. Penso que o relógio ali de frente, na parede, já deu quatro voltas. É por isso que eu acho que já passaram dois dias. Mas não sei bem. Podem ter passado mais. Ou menos.
Acendo mais um cigarro, o que me mantém acordado. Penso que desde que ela se foi embora ainda não bebi nada. Nem água, nem álcool, nada. Penso que, eventualmente, vou ter de me levantar daqui. Mas quando penso em beber ou comer qualquer coisa, sinto-me enjoado e depressa me sinto confortável aqui sentado, com a luz do candeeiro acesa e a televisão desligada e essa ideia constante que ela virá cá buscar as cuecas e vamos, então, poder falar. E se calhar, voltar ao bar. Ao balcão. Beber um copo. Fumar um cigarro. Conversar. Desejá-la de novo, nem que seja por momentos…
Há três dias que estou aqui sentado, neste sofá. Há três dias que não saio daqui. Há três dias que não como, nem bebo, nem vou à casa-de-banho. Já não tenho cigarros e não me consigo levantar para os ir buscar. Há três dias que alguém se foi embora, mas já não sei quem. Sei que algo aconteceu. Mas já não me lembro o quê. Já não sei muito bem do que é que aconteceu e o que é que estou aqui a fazer. Já não sei nada.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/19]

Acho que Tenho Frio

Setembro.
A manhã acorda fria. Durante a noite gelei e tive de ir buscar um casaco para pôr por cima do cobertor. De manhã não queria levantar-me. Estava bem assim, isolado, no quentinho, sem ver ninguém, sem ter de aturar ninguém.
Com esforço, lá acabei por sair da cama. Tomei banho rápido, mais passado por água que esfregado. Acho que o cabelo ainda veio com um pouco de champô.
Fiz café. Bebi uma chávena enquanto olhava pela janela as pessoas a passar lá em baixo, na rua, atarefadas, rápidas, a fumar, a comer um bolo enquanto se dirigiam sei lá para onde.
Fiz a cama. Arrumei a casa-de-banho e resolvi aspirar. Mal comecei e o aspirador desligou-se. Avariado. Porra. Porra, porra, porra. E agora?, pensei em voz alta.
Agora tenho de sair de casa para comprar um aspirador novo, voltei a responder-me. Nem sei se tenho dinheiro para isto. Quanto custará? A dúvida! Mas não queria sair de casa. Não conseguia. Ultimamente é-me difícil estar com pessoas. Enervam-me. Levam-me ao desespero.
Não podia sequer pensar em varrer a casa. Levantava mais pó do que o lixo que apanhava. E fazia-me mal à asma. Só de pensar nisso deu-me um ataque. Onde estaria o ventilan? Que merda!
Posso sempre deixar as coisas como estão e ver até quando consigo aguentar o cotão, o pelo do gato, o pó que entra pelas janelas, as migalhas que caem pelo chão quando trinco um pão com manteiga – ah, o que eu gosto de pão com manteiga! continuei a falar comigo.

Estou a lavar os dentes e olho para o chão da casa-de-banho e vejo montículos de pelos e cabelos junto aos cantos e perto do lavatório. Saio da casa-de-banho, dirijo-me para a cozinha e reparo no mesmo, em montículos de cabelos e pelos junto aos armários. O lava-louça cheio de louça suja, alguma já com bolor. E o bolor também me faz mal à asma. Desespero. Não tenho reacção. Não consigo fazer nada. Estou bloqueado. Apático. Olho à minha volta e sinto-me no meio do lixo. Mas não consigo fazer nada. Aproximo-me do sofá ali naquela zona híbrida que ainda é cozinha mas também já é sala e deixo-me lá cair. Acho que estou deprimido. Não sei o que fazer. Não me apetece ligar a televisão. E acho que tenho frio. Setembro já é frio. Estou deprimido e com frio. E não quero ver gente.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/18]

A Rapariga na Varanda

O cão estava a rosnar. Aquele rosnar gutural, forte e muito assustador que sai lá de dentro de muito fundo dentro do estômago do cão. E mostrava os dentes, aguçados e prontos a morder.
Eu parei. Estático. Estátua de sal. Ou gelo. Mais de gelo porque gelei. Parei a olhar para o cão e a tentar perceber o que se iria passar.
Olhámos os dois um para o outro. Estudámos-nos. Estávamos os dois com medo, mas eu queria fugir. Ele queria atacar.
Não sei que cão era. Suponho que era um rafeiro, mas arraçado de qualquer coisa grande, porque era enorme, de pêlo ralo, castanho, um pouco para o escuro, mas com uma espécie de madeixas mais claras.
Virei os olhos à procura de escapatória, mas sem mexer a cabeça, para manter aquele impasse entre mim e ele. E vi a salvação na forma de um poste de electricidade junto ao muro do colégio. Estava nas traseiras do colégio de freiras a caminho do bairro. O cão andava à caça dos patos que por ali costumavam passear-se, quando nos cruzámos. Eu era maior e mais cobarde, e ele era mais forte e assustador. Ele estava a ganhar.
Desatei a correr a uma velocidade tal que facilmente bateria os 100m barreiras. Cheguei ao poste e subi-o sem perceber o que estava a fazer e, quando dei por mim, estava no cimo do muro a olhar o cão, apanhado de surpresa e que, entretanto, parara de arreganhar os dentes e de me rosnar. Olhava-me também admirado por tal façanha: como raio tinha eu conseguido subir o muro?
Ouvi um assobio e o cão virou-me costas e foi-se embora. Uma rapariga, na varanda de uma casa próxima, assobiara para chamar o cão e ele foi.
Olhei a rapariga e achei-a gira. Bonita, muito bonita mesmo. De longos cabelos castanhos esvoaçantes. Ficou a olhar para mim. Quando o cão chegou debaixo da varanda, fez-lhe sinal com a mão e ele entrou para dentro de uma casota. Apaixonei-me.
Eu desci do muro, pelo poste, sempre a olhar a rapariga enquanto me afastava dali em direcção ao bairro.
No dia seguinte voltei a passar pelo mesmo caminho nas traseiras do colégio de freiras. O cão já não andava por lá. Eu trazia um ramo de margaridas, que tinha apanhado pelas redondezas, na mão. Subi ao muro e esperei. Pela rapariga. Mas ela não apareceu. Ao fim de algum tempo fui-me embora mas deixei lá o ramo de margaridas.
Amanhã iria lá voltar. Mas dessa vez iria levar rosas. Rosas de um rosa escuro. E ela iria estar na varanda. À minha espera.

[escrito directamente para o facebook em 2017/09/17]

Espero que Lá Seja Melhor do que Aqui

Já comecei a perder cabelo. O que era previsível. O problema vão ser os dentes. Vão deteriorar-se. Começam a enfraquecer e acabam por se desfazer na boca. Às vezes nem é preciso estar a comer, a mastigar. Basta um ranger para eles se desfazerem.
Não sei se quero passar por isto.
Os enjoos são constantes. Principalmente depois das sessões. Mas volta-e-meia regressam. Não tenho vontade de comer. Nem de beber. Nem de foder. Não me apetece nada. Sento-me em frente ao televisor desligado e olho para o ecran negro. Não me apetece ler, nem ouvir música, nem ver filmes nem séries. Não me apetece mesmo nada. Não quero estar sentado, nem deitado, nem em pé. Estou fatigado. Mas fatigado de tudo. De ser, de ter, de pertencer. Apetece-me não estar aqui, nem passar por isto. Apetece-me não ser eu.
Toda esta correria para hospitais, tratamentos, comprimidos, perca de faculdades, o cabelo, os dentes e, acima de tudo, a cabeça, não me permite estar tranquilo. Apanhar autocarros a horas certas para estar a horas certas em sítios para esperar que se faça qualquer coisa que não se sabe se garante alguma coisa… Isto não é vida. É preciso um dinheiro que não tenho, incomodar pessoas que não quero, para levar uma espécie de vida que não o é. Muito menos garantida.
Só quero que me deixem em paz. Que me deixem chorar. Que me deixem gritar. Que me deixem escolher a vida que quero ter ou não.
Viver a vida é isso mesmo, viver a vida. Viver a morte, não. Não quero.
Agarro num limão e corto-o a meio. Espremo uma metade para dentro de um copo alto. Encho-o com pedras de gelo. Despejo lá para dentro Bombay. Até meio. Encho a outra metade com água tónica. Mexo e provo. E aprovo.
Vou à gaveta da mesinha-de-cabeceira, no quarto, e retiro a caixa metálica que tenho lá guardada. Abro-a e revejo o seu conteúdo: xanax, zolpidem e valium. Coisas que fui guardando. A quantidade não é muita, mas deve chegar. E é melhor tomar a decisão enquanto posso e enquanto não a tomam por mim.
Sento-me no sofá a olhar o ecran negro da televisão desligada. Vou bebericando o gin que preparei. Está saboroso. E vou engolindo os comprimidos como se fossem amendoins. Quando acaba, deito-me no sofá e aguardo. E espero que lá, onde for, seja melhor que aqui.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/16]