Esta É uma Entrada que Também Pode Ser uma Saída

Destaque

Começou tudo a 27 de Junho de 2017. Desde esse dia comecei a publicar um pequeno conto diário, escrito directamente no Facebook. Um conto escrito de um só fôlego. Um conto diarístico, partindo, muitas vezes, de factos e acontecimentos reais que vivo ou observo. Depois comecei a guardá-los aqui. E está aberto a quem os quiser ler. É só entrar nestas páginas, sem se preocupar em sair. Há muito para ler.

A 13 de Março de 2020 atingi o conto número 1000.

Da Vida como Ela Era

A minha mãe contava-me que a mãe dela, a minha avó, era do tempo em que uma sardinha assada era o almoço de uma família. A sardinha era pendurada no alto, pendurada pelo rabo, sobre um prato, sobre um prato para onde escorria o molho da sardinha, e as pessoas passavam um bocado de broa pela sardinha para guardarem o sabor que haveria de ficar na boca antes do pedaço de broa descer ao estômago mirrado pela fome.
A minha mãe também me contava que, lá na aldeia onde a mãe dela, a minha avó, cresceu, a criançada era alimentada a sopas de cavalo cansado para aguentarem um dia inteiro na jorna, ali no campo, de sol a sol.
A minha mãe ainda me contava que, no tempo dela, dela minha mãe, não podia ir sozinha ao café. Poder, podia, mas não era de bom tom. Senhora que quisesse continuar a ser senhora não devia ir sozinha ao café. Com os filhos sim, para lhes dar o lanche, um gelado, comprar uma pastilha Pirata e fazer a colecção de cromo da bola. Uma senhora não devia fumar em público. Nem podia sair do país para viajar e conhecer mundo sem autorização escrita do marido, meu pai.
Mais a minha mãe me disse que, no tempo dela, havia crianças descalças na rua. Não ela, nem os irmãos dela, meus tios, mas outras crianças do bairro, com menos possibilidades, menos trabalho, menos salário, menos vida.
A minha mãe também contar-me-ia que eu teria tudo e não ligaria a nada. Teria uma casa com estantes cheias de livros e nunca leria nenhum. Uma discoteca imensa em vinil e só ouviria os relatos da bola em onda média. Uma colecção de carrinhos da Matchbox e só brincaria com caricas das Sagres médias que o vizinho do lado, regressado do Ultramar, acabaria por deitar abaixo diariamente para esquecer o que tinha deixado lá longe, o bom e o mau, e a minha mãe repetir-me-ia, o bom e o mau.
Mas de todas as coisas que a minha mãe me contou ou contar-me-ia, o que eu mais gostei de ouvir foi quando ela disse para eu ir mundo fora conhecer o que não conhecia e queria conhecer e que quando quisesse regressar, a porta de casa estaria aberta e ela haveria de fazer um refogado todos os dias para que o cheiro dos seus cozinhados me guiassem de volta para casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/05]

Escalracho

Hoje fui um homem do campo. Andei a acartar lenha para debaixo do telheiro e depois fiz uma queimada para destruir o escalracho e a casca dos pinheiros.
Ontem, ao final do dia, já me tinham vindo trazer uma carrada de lenha que me irá servir para o próximo Inverno. Como ameaçava chuva, achei por bem arrumá-la debaixo do telheiro, embora não me apetecesse nada e tivesse outras coisas bem mais interessantes para fazer, como sentar-me no alpendre, a beber uma caneca de café e a olhar as montanhas. Mas não. Calcei umas botas que me estavam apertadas e que a última vez que tinham sido calçadas foi para dançar umas músicas dos Cult na antiga Juke Box, umas calças de ganga rotas e uma t-shirt de um jornal regional que não sei como é que veio parar à minha gaveta de roupa de usar por casa.
Peguei no carrinho-de-mão e lá andei eu entre o quintal, onde o tractor largou a lenha em monte, e o telheiro, onde fui empilhando a lenha aos poucos, devagar, fiz três lances mais ou menos com a minha altura. De início ainda pensei em separar a lenha pelo tipo de madeira, mas depressa desisti. Era demasiada lenha para um tipo só. Fiquei cheio de dores nas costas, em especial na zona dos rins. Não estou habituado a este tipo de trabalho físico e já não tenho idade para me habituar. Mas fiquei contente por conseguir fazê-lo. Ainda ganhei umas bolhas nas mãos por acartar o carrinho-de-mão cheio de toros de madeira e umas farpas nos dedos porque não tenho luvas e foi tudo com as mãos descobertas. Tenho de comprar luvas. E betadine. Andei a espetar agulhas nos dedos para tirar algumas farpas. Mas ainda não as tirei todas. Há algumas que não consigo tirar. Tenho de pedir ajuda à minha vizinha, mas tenho medo que ela pense que quero outras coisas e na verdade, não quero. Só quero mesmo ver-me livre destas farpas.
Depois da lenha arrumada e das dores nas costas e das farpas nos dedos, sem esquecer as bolhas e acho que algumas delas ir-se-ão transformar em calos, agarrei num ancinho (descobri finalmente qual a utilidade) e andei a apanhar os restos que tinham ficado espalhados pelo quintal (alguns guardei-os que são bons para acender o fogo na altura da sardinha). Aproveitei e arranquei as ervas daninhas que andam a furar as pedras do quintal, apanhei braças secas e outros lixos que se encontravam por lá e eu nem tinha percebido. Quando deitei fogo ao monte de detritos que juntei, olhei em volta e percebi que o quintal era outro. Maior. Maior e mais bonito. Fiquei contente. Cheio de dores no corpo, mas satisfeito.
Quando descalcei as botas também percebi como me doíam os pés. Massajei-os. Tomei um duche. Vesti roupa lavada. Fiz um Tinto de Verano para aproveitar o vinho tinto mau que me oferecem de vez em quando (os pequenos produtores aqui da aldeia fazem uma zurrapa que trocam entre eles). Eu, às vezes, também recebo uns garrafões. O vinho é muito mau mas, com 7 Up e limão, é um refresco bastante interessante para acompanhar um cigarro e o meu olhar sobre as montanhas como estou a fazer agora. Um Tinto de Verano numa mão, um cigarro na outra e as montanhas lá ao fundo. Afinal não choveu. E acho que já não chove. Não sei é se conseguirei levantar-me daqui. Sinto os músculos das pernas e dos braços rijos. Como se fossem de pedra. As costas estão a latejar. Os dedos estão a arder e a fazer-me comichão. Às vezes vejo umas centopeias a passear pelo alpendre. Devia matá-las. Mas não consigo levantar-me. Espero que não entrem em casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/04]

Fastio

Às vezes estou dentro dela e quero sair. Ou melhor, queria já não estar ali, dentro dela. Às vezes estou dentro dela e apetecia-me estar a ler a Parte 1 de A Morte do Pai, o volume 1 de A Minha Luta de Karl Ove Knausgård. E tem 160 páginas. Não por causa dela. Nem por causa do Knausgård. Mas por mim, mesmo. Sofro de fastio.
Não consigo estar a fazer a mesma coisa durante muito tempo. Mesmo que sejam coisas que goste muito de fazer. Como foder, por exemplo. Não é que não goste, que gosto, adoro, mas aborreço-me e preciso de fazer outras coisas. Por vezes começo a salivar à simples possibilidade de fazer outra coisa qualquer quando começa a despontar o aborrecimento pelo que estou a fazer.
Mesmo quando tenho prazos de entrega bastante curtos, tenho de parar várias vezes, durante o trabalho, para fazer outras coisas. E depois retomo o trabalho que estava a fazer anteriormente, na maior parte das vezes com uma vontade duplicada e cheio de novas informações e conhecimento.
Não se julgue que deixo de fazer coisas importantes por causa de outras coisas igualmente importantes. Bom, para mim serão mas, na maior parte das vezes troco o prazer de uma coisa de que gosto e importante pela alienação completa de outra da qual não desgosto também.
Já aconteceu estar a fazer um chili com carne, já com tudo preparado, só faltar fazer o arroz e misturar a carne os pimentos a cenoura as malaguetas num refogado de cebola e alho e juntar o feijão previamente cozido, e ir acabar de ler um capítulo de uma banda-desenhada que tinha deixado por ler quando me levantei para ir dar leite aos gatos. Depois do leite e dos gatos, perdi-me com qualquer outra coisa e esqueci o livro de banda-desenhada que estava a ler.
Também na adolescência acontecia estar a jogar à bola e, depois de uma jogada, que poderia ter sido de golo marcado ou não, acontecia sair de campo e deitar-me ao lado de umas raparigas que lá tinham ido ver o jogo e conversar sobre o próprio jogo e só regressar depois da equipa adversária me chamar.
Não sei se tem alguma coisa a ver com o facto de ser gémeos. Não gémeos no sentido de haver outro igual a mim, valha-nos Deus, mas gémeos de ter nascido no mês de Maria, o melhor mês para se nascer e ser do signo de gémeos. Às vezes sinto que cá dentro somos mais que um e, por vezes, fazemos guerra um ao outro. E um de nós tem de ceder. Acho mesmo que é tudo uma questão de cedências, e é por isso que estou sempre a saltar de coisa em coisa. Às vezes acho que sou um salta-pocinhas.
No sexo é que se nota mais. Estou dentro dela e tento despachar-me. Quer dizer, não preciso assim tanto de tentar, que despacho-me bastante rápido, mas despacho-me, às vezes sem atender às reais necessidades dela, sim, às vezes, muitas vezes, quase todas as vezes, sou egoísta, e despacho-me e logo de seguida pego no iPad e faço um jogo de Solitaire Spider. Acabo o jogo e estou outra vez pronto para as questões sexuais. Regresso aos beijinhos, aos toques, mas às vezes já é tarde. As outras pessoas não têm a mesma capacidade de saltar entre coisas como eu. Claro que, na maior parte das vezes ela já apanhou um táxi de regresso a casa, ou já está a dormir ou, e já aconteceu, acabou por se enfiar na cama do meu colega de casa. Não há problema, não sou ciumento. Só me aborreço com alguma facilidade.
Com os filmes também acontece muito. Se for ao cinema, vejo o filme de seguida, nem tenho necessidade de ir à casa-de-banho. A minha bexiga ainda é a de um jovem. Mas se estou em casa, páro tantas vezes quanto a necessidade de ir à casa-de-banho, e aqui tenho uma bexiga de velho, a vontade de comer pipocas, a necessidade de ver as manchetes de A Bola, do Público e do Expresso (já lá vai o tempo em que também precisava de ver as manchetes da Première e dos Cahiers du Cinéma). Porquê?, porra!
É por isso que tenho sempre cinco ou seis livros na mesa-de-cabeceira. É por isso que vejo dois ou três filmes intercalados. É por isso que começo sempre três ou quatro textos ao mesmo tempo com objectivos diferentes e, já aconteceu, às vezes misturo conteúdos, o que não é mau, porque dá um ar esotérico ao trabalho. É por isso que, às vezes, mas só às vezes, tenho duas e três namoradas na mesma altura. Mas normalmente isso dá mais dor de cabeça que prazer. Troco nomes, ordens e vontades. Já perdi tudo no mesmo dia. E não é por querer tudo. Não. É, simplesmente, por não conseguir saciar este meu fastio que dá, por vezes, comigo em doido.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/03]

Na Twilight Zone

Estava em choque. Acho que estava em choque. Ou então ainda eram resquícios dos cogumelos que comi no Freedom há mais de dez anos. A alternativa era eu ser um episódio perdido da Twilight Zone e isso não me parecia muito verosímil. Por mais que a minha vida seja estranha. Por mais que eu seja um sujeito bizarro. Até porque acho que, mesmo assim, ainda sou uma pessoa e não um episódio de um programa de televisão. Se bem que, o facto de ter dito acho não me deixa muito descansado.
A verdade é que estava mesmo em choque.
A televisão não dava nada, como é costume. Uns ecos perdidos no meio da cacofonia, mas uns ecos requentados, já velhos e ultrapassados pelos desenvolvimentos mais recentes. Desenvolvimentos constantes e nada compatíveis com um serviço noticioso à hora certa. Estava tudo a acontecer em directo nas redes sociais. A revolução não será televisionada, como já tinha profetizado Gil Scott-Heron, mas será transmitida ao vivo através do Facebook e do Instagram.
Várias cidades americanas estavam a ferro-e-fogo. Manifestações de rua, algumas bem violentas, desde há uma semana, desde a morte de George Floyd. A América, Terra dos Bravos e dos Homens Livres, a tal Terra do Sonho, estava a viver um pesadelo que nos habituámos a ver noutras latitudes. O presidente americano chegou a ser escoltado pelos serviços secretos para um bunker debaixo da Casa Branca. Mais tarde, e depois de balas de borracha e gás lacrimogéneo, o presidente americano foi correr até uma igreja que fora vandalizada para, de bíblia na mão, incendiar ainda mais os ânimos das pessoas revoltadas. O bispo Michael Curry veio protestar contra essa imagem de Donald Trump de bíblia na mão. A mayor de Chicago chegou a mandar Trump foder-se.
Wow.
No Brasil as coisas não estavam melhor. A trupe de Bolsonaro começou por aplaudir uma investigação a um ex-companheiro de luta do presidente brasileiro, entretanto caído em desgraça, para logo depois ficarem furiosos, e muito irritados, ao ponto de ameaçarem, junto com a sua família, o ministro do STF responsável pelas investigações ao grupo de ódio ligado à cúpula bolsonarista, ao jeito dos gangsters como James Cagney. Ao mesmo tempo, os Anonymous, um grupo de hackers, que depois vieram dizer que afinal não eram eles, garantiam estar em posse de documentos comprometedores para Jair Bolsonaro e os filhos 01, 02 e 03, Inflávio, Carluxo e Bananinha. Numa bravata que metia Terra Plana, Marielle, pé de goiaba, copos de leite e Deus em cima de todos eles.
Ufa.
Entretanto, em Portugal, o aprendiz dos outros dois garantia que quando chegasse ao poder, ofender polícias, magistrados e guardas prisionais (estranhamente não disse nada sobre guardas alfandegários, nem dos serviços de estrangeiros e fronteiras) irá dar prisão e que, a rede social Twitter, irá deixar de ser uma bandalheira.
Fiquei parvo. Em choque. A droga anda marada.
Peguei num copo de vinho. Acendi um charro. Sentei-me no alpendre a olhar as montanhas lá ao fundo e comecei Om!… Om!…

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

[escrito directamente no facebook em 2020/06/02]

Os Gatos Lambem o Cu

Há uns anos vivi no meio da cidade, num pequeno apartamento de um quinto andar num prédio com dois elevadores que estavam, quase sempre, avariados.
Essa foi uma época em que andei realmente bastante magro. E em excelente forma física. Subia e descia as escadas do prédio várias vezes ao dia. E é preciso dizer que era um prédio antigo com pé-direito bastante mais alto que hoje em dia. Ou seja, mais degraus para subir e descer.
Data dessa época o meu primeiro gato. Quer dizer, não era bem meu, na verdade nunca tive um gato, como nunca tive um cão, como nunca tive um carro e como, na verdade, nunca tive uma casa realmente minha. Nada em que possamos usar aquela expressão de posse Meu! Este apartamento era emprestado, por um amigo, para o meu período de trabalho na cidade. Não sabia quanto tempo iria ficar por ali e acabei por aceitar o convite. Estive três anos na cidade. Três anos naquele apartamento. Mas paguei sempre a renda, claro. Nem poderia ser de outra maneira. Um valor para amigos, de qualquer forma. Mais barato do que seria uma renda normal. Como é que as pessoas conseguem pagar as rendas das casas na cidade? Como é que uma renda tem um valor superior ao trabalho? Bom, mas foi aí, nesse apartamento, durante esse período de vida no centro da cidade, que tive, mais ou menos, o meu primeiro gato.
Eu estava, num daqueles fins-de-dia de enorme calor, em cuecas, espojado no sofá, a beber uma cerveja e a fumar um cigarro, quando vi entrar, pela porta da varanda aberta, um gato todo preto, um ninja, a caminhar com ar de dono-da-casa, arrogante como só os cabrões dos gatos sabem ser, e vir-se enroscar junto a mim. Eu deixei-o ficar. Acabei o cigarro. Acabei a cerveja. Acabei por adormecer. Acabei por ser acordado pelo miar incessante do gato. Tinha fome, claro. Não se calou enquanto não lhe dei um pires com leite que lambeu enquanto o diabo esfrega o olho.
Ficou por ali. Às vezes. Outras vezes desaparecia. Acho que ia para o apartamento do lado. De onde deve ter vindo, originalmente. As varandas comunicavam, mas era preciso perícia para saltar de uma para outra sem cair lá em baixo, cinco andares lá em baixo.
Passei a deixar a porta da varanda aberta para ele entrar e sair. Dormia várias vezes aos meus pés. Enrodilhava-se em mim quando eu estava sentado no sofá a ver um filme. Acompanhava-me à varanda quando eu ia fumar um cigarro e beber uma cerveja. Por vezes descobria-o assim, no meio da cozinha, a lamber o cu, numa operação que me parecia difícil de entender, pela parte física e, especialmente, pela parte orgânica. Faz-me confusão imaginar a língua a limpar o cu. Mas isto sou eu, filho de uma burguesia religiosa cheia de tabus e culpa.
Um dia ao chegar a casa, descobri o gato caído cá em baixo. A cabeça desfeita. Deve ter vindo a bater com ela nas varandas dos andares por onde foi passando na sua queda de cinco andares.
Fui a casa buscar um saco de lixo. Agarrei naquele corpo mole, parecia um boneco, quente, ainda estava quente, e enfiei-o no saco do lixo e fui colocá-lo no contentor do rsu.
No início não me fez muita impressão mas, depois, com o passar das horas, comecei a pensar no gato, que nunca mais ia estar em casa à minha espera, nunca mais me iria fazer companhia a ver um filme francês de merda, nunca mais me iria aquecer os pés nas noites mais frias, nunca mais teria ninguém para escutar os meus monólogos como diálogos unipessoais. Aí deu-me uma certa fraqueza. Solucei, o meu corpo contorceu-se e cheguei ao choro. Ainda tentei espreitar para o apartamento do lado mas não vi nada. Nada nem ninguém. E nunca me vieram perguntar pelo gato.
Acho que foi nesse dia que decidi nunca mais ter gatos na vida.
E foi nesse dia, também, que percebi como sou um fraco de merda que nem as minhas mais simples decisões, como nunca mais ter um gato na vida, consigo levar a sério. Aprendi as minhas fraquezas nas decisões que tenho tomado ao longo da vida. Por todas as casas por onde tenho passado, tenho tido gatos. Ou já lá estão, e são das pessoas com quem vou viver, ou aparecem-me lá por casa, assim do nada, como aquele meu primeiro gato. Nunca mais assisti à morte de um gato. Mas os que me aparecem lá por casa, acabam por desaparecer pouco tempo antes de eu me ir embora. Não sei se eles percebem, presentem ou lá o que é. Mas desaparecem da minha vida como se não quisessem ser um incómodo, quando está na altura e eu ir embora.
Não percebo esta minha relação com gatos. Eu nem gosto de gatos. Eu gosto de cães. Mas há mais de vinte anos que não tenho nenhum. Sim, há mais de vinte anos. Também não gosto de pessoas e, no entanto, insisto em ir vivendo com elas.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/01]

Às Vezes, Sim… Mas Só Mesmo às Vezes

Às vezes esqueço-me. Às vezes penso que ela ainda está lá, aqui, aqui ao meu lado, aqui no alpendre onde me sento a beber um copo de vinho tinto e a fumar um cigarro enquanto olho as montanhas lá ao fundo, e viro-me para o lado, para o lado onde estaria a segunda cadeira que já cá não está, que eu tirei-a e arrumei-a na arrecadação, viro-me para o lado e pergunto São bonitas as montanhas, não são?
Descubro-me ali sozinho. Afinal estou sozinho. Sempre sozinho. Ela partiu já há muito tempo. Quase o tempo que levo aqui a olhar as montanhas, aqui do alpendre. Dávamos os mãos, cada um com o seu copo de vinho, partilhávamos um charro e olhávamos as montanhas. E ela dizia Temos de lá ir fazer umas fotografias. E eu dizia Sim, sim, um dia destes vamos lá, e nunca fomos. Eu já lá fui. Já lá fui tirar umas fotografias que até já me valeram um prémio. Mas fui lá sozinho. Fui depois dela já ter partido. Fui lá já depois daquele estúpido mergulho no Vale Furado. Porque quis ir à praia? Porque a incentivei a ir à praia? Porque insisti em que descêssemos aquele penhasco íngreme até à areia, até ao mar, até lá baixo ao fundo, ao fundo do Vale Furado? Porque é que mergulhei? Porque é que a deixei mergulhar?
Às vezes esqueço-me que estou sozinho e cozinho a mais. Sempre a mais. Vou enchendo tupperwares que vou depositando na arca-congeladora na arrecadação. Às vezes lembro-me que tenho lá comida já feita e vou buscá-la. Deixo-a a descongelar de um dia para o outro e depois aqueço-a no micro-ondas.
Ponho a mesa para dois. Mudo a fronha da almofada dela na cama. A escova dos dentes, ressequida, ainda está lá pelo copo em cima do lavatório. E o secador com o cabo ligado à ficha da casa-de-banho. Eu nunca usei secador. Continuo a não usar.
Às vezes vou fazer um gin tónico e faço dois. Acabo a beber os dois, é claro. Nada se perde.
Mas não estou maluquinho. Nem parei no tempo. No tempo em que ela estava aqui sentada ao meu lado, aqui onde olhávamos as montanhas lá ao fundo, aqui onde víamos os jogos do Benfica, aqui onde líamos os jornais e as revistas que ela ia buscar à aldeia, e que eu nunca mais fui buscar. Se calhar ainda estão por lá. Se calhar tenho uma grande conta para pagar na tabacaria. Eu sei que ela morreu. Eu sei que ela não vai voltar. Mas as coisas são assim. Mas não me chateio. Nem fico triste. Talvez um pouco melancólico, às vezes.
Às vezes lembro-me de uma anedota, eu que nunca me lembro de anedotas, não tenho jeito nenhum para as guardar e muito menos para as contar, às vezes lembro-me de uma, assim do nada, e conto alto para ela, para ela ouvir a anedota, e às vezes até a ouço rir, mas sei que não é ela, ela não está cá e é tudo fruto da minha imaginação.
A primeira vez que estive com uma mulher depois dela, a primeira vez que trouxe uma mulher cá a casa, ela sentou-se ao meu lado na cama, sorriu-me e disse Não há problema. Eu vou ficar aqui a ver. Mas houve problema. Não consegui estar ali com outra mulher a sentir-me observado por ela. Levantei-me da cama. Disse à mulher Desculpa, já venho! e fui fazer dois gins tónicos. Fui até ao alpendre e dei um gole num deles. O outro era para ela. E depois deixei-os lá.
Voltei para o quarto. Ela não regressou comigo. As coisas acabaram por correr bem. Correr bem! Acabaram por correr bem no limite do possível.
Quando me levantei, mais tarde, quando regressei ao alpendre, descobri os copos vazios. Mas desconfio dos gatos. Eles bebem tudo.
Às vezes sinto o corpo cansado. Deito-me na cama e digo Dá-me uma massagem, por favor. E ela dá. Ou, pelo menos, assim me parece. E sinto o corpo a relaxar. Como agora. Continua, vá. Com um pouco mais de força. Não tenhas medo. Sim, assim.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/31]

Foder

Estávamos a foder no parque de estacionamento. A porta do lado dela aberta, ela agarrada ao tejadilho e eu por trás, a arfar junto ao ouvido, enquanto mantinha aquele vai-e-vem acelerado mas a tentar que não fosse demasiado rápido, quando ela, deixando a cabeça para trás, pendurada pelo pescoço diz És mesmo o homem da minha vida! e eu já não aguentei mais e acabei por chegar rápido, demasiado rápido para ela, mas não podia fazer de outra maneira depois de ter ouvido o que ouvi naquela voz rouca e sussurrada que fez chegar aos meus ouvidos. Isto foi à saída da praia. Estávamos ambos a arder em calor. Eram duas da tarde e, depois, haveríamos ainda de ir comer uma sardinhada.
Nós fodíamos. Nunca fizemos amor. Fodíamos. Assim. Onde quer que fosse. Quando fosse. Às vezes corríamos para as casas-de-banho de cafés e de museus. As dos museus são melhores, mais limpas. Mas as dos café dão mais tesão. Há sempre gente a querer entrar. Há sempre gente à espera que saiamos. Sai um. Depois o outro. Olham escandalizados para nós. Inveja, é o que era. Acabávamos a beber uma imperial nas esplanadas. Às vezes ela punha as cuecas na mala e abria as pernas para me mostrar como estava. Eu ficava doido. Às vezes queria voltar à casa-de-banho. Ela tinha de me chamar à razão.
A nossa relação era assim. Uma relação de doidos cheios de tesão.
Não sei quanto tempo aquilo durou. Mas durou bastante. Durou um casamento e três filhos. Filhos feitos sem amor, mas com muito desejo. Todos eles foram feitos na rua.
A primeira vez que fodemos assim, na rua, ela encostada à porta do carro, foi à saída do Armando, uma cervejaria ali em Leiria, a caminho da Guimarota.
Foi lá que nos conhecemos. Entre pequenas trincas em pedaços de camarão de Moçambique. Ambos esquecemos os amigos com quem tínhamos ido e acabámos por lá ficar um com o outro. Ainda partilhámos um creme de marisco onde eu queimei a língua. Ficámos a beber imperiais até sermos postos na rua, já de madrugada, os últimos a serem expulsos da cervejaria que queria fechar as portas. Quando saímos eu acabei a vomitar logo ali, nas escadas do Armando. Ela riu-se e levou-me para o carro dela. Mas não chegamos a entrar no carro. Ela ainda meteu a chave na fechadura. Eu não a deixei abrir a porta. Ela não se importou. E foi ali, à saída do Armando, de madrugada, que fodemos pela primeira vez. Fodemos contra a porta do carro. Foi a primeira de muitas.
Não sei quando é que tudo acabou. Mas acabou. Acabou antes mesmo de nós acabarmos. Ela disse que eu já não tinha tesão por ela. Eu achava, ainda acho, que foi ela que perdeu o desejo por mim. Já não fodíamos como dantes. Já nem fodíamos. No fundo ela queria que eu crescesse e eu queria que tudo ficasse na mesma, e fôssemos adolescentes para sempre. Mas já tínhamos três filhos. Ela queria uma casa. Um SUV. Um cão. Eu queria continuar a ir ao cinema, a concertos, a perder-me nas noites de Sexta-feira e a poder andar de sapatilhas.
Hoje, os filhos andam cá e lá. Eu continuo de sapatilhas. Ela não tem uma casa nem um cão. Não sei se é feliz. Talvez seja. Eu?…

[escrito directamente no facebook em 2020/05/30]