Esta É uma Entrada que Também Pode Ser uma Saída

Destaque

Não sei muito bem o que virá para aqui. Alguns textos, com certeza. Contos, provavelmente. Análise de alguns filmes. Comentários de alguns livros. Esta será uma entrada para qualquer coisa. Também poderá ser uma saída. Espero que não. Logo se vê.

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O Silêncio

Reina o silêncio cá dentro de casa.
Páro no corredor. Vou a caminhar, descalço, pelo soalho de madeira e páro. Escuto o silêncio que está em casa. Não ouço nada.
Aos poucos começo a descobrir que este silêncio é mentiroso. Aos poucos começo a descobrir pequenos sons que matam o silêncio.
O primeiro som em que reparo é o da minha respiração. Tento respirar em silêncio, mas não consigo. Tenho uma respiração pesada. Respiro pela boca. Tenho o nariz entupido. Respiro pela boca e a boca fica seca. Ouço a respiração. Não é ofegante. Mas é sonora. E não consigo que não seja.
Depois percebo uma mosca ao fundo na sala. Ou se calhar não. Se calhar é aqui mais perto de mim. Não tenho uma audição tão boa. Não me é possível ouvir uma mosca a voar ao fundo, na sala. Ou é?
Com atenção, ainda percebo um ping-ping de umas gotas que caem no depósito de água da sanita.
Ouço uns estalos nos ossos do meu corpo. Primeiro nos joelhos. Talvez pelo esforço de estar aqui assim, em pé, parado, no meio do corredor. Depois as costas. Faço força para me endireitar e os ossos das costas estalam e parece que o corredor amplia o som dos ossos a estalar como uma caixa de ressonância.
Não ouço mais nada.
Retomo o caminho. Ouço-me a caminhar. Ouço os pés nus a colarem-se e descolarem-se do soalho de madeira. Vou até à sala. E ouço uma folha do jornal a esvoaçar. Mas é impossível. Não há janelas abertas. Não há corrente-de-ar. Não se produz vento. Como é que a folha do jornal esvoaça?
Vou até à janela. Olho lá para fora. Está lá o gato, sentado num muro. O gato olha para mim e abre a boca. E eu ouço o gato miar. Eu ouço o gato miar do outro lado de uma janela com vidros duplos e a uma distância de, talvez, cinco metros.
Uma águia a planar sobre a casa chama-me a atenção. Levanto o olhar. Observo-a. E ouço o som das asas a cortar o ar fffffffffffff. Vejo-a a cair sobre a terra. Desaparece atrás de umas árvores. Logo depois volta a subir. E leva algo nas garras.
E então começo a ouvir uma música como se fosse uma banda sonora. Uma banda sonora do filme da minha vida. E isto soa-me ao que John Barry fez para o Out of Africa.
E eu penso que devo estar a sonhar. Belisco-me. Dói-me. Magoo-me. Dou um berro. Acabo com o silêncio. E não percebo o que se passa comigo.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/20]

Entre Velharias

Estou no meio da Praça. E como vim aqui parar?
Estou no meio da Praça e à minha volta uma quantidade de velharias. São bancas e banquinhas, cavaletes com portas a servir de mesas, ripas, placas, umas mais curtas umas mais compridas. Umas leves. Outras fortes. Depende do que estão a suportar. Há de tudo, para minha desgraça.
Não gosto de velharias. De antiguidades. De bibelots. De objectos artísticos feitos de madeira exótica. Não gosto de acumuladores de lixo e pó. Não gosto de casas encavalitadas em objectos parados e inúteis a ocupar espaço e a requerer, a cada duas horas, uma limpeza que não posso, não quero, dar.
Mas não sei como vim aqui parar. Nem para quê. Nem por quê.
Olho em volto e sinto tonturas. Perco-me entre chávenas de porcelana com asa partida, colecções inteiras do Top Star, Pop Star, Euro Star e PolyGram de discos em vynil, bicicletas, trotinetas, triciclos, uma mota a pedais ou uma bicicleta a motor, enxadas, sachos, encinhos, pás, podões, machados, uma foice, serras e uma serra-elétrica e vejo-me a agarrar na serra-eléctrica, puxo-lhe a corda, ponho-a a trabalhar, ouço o rrrrrrrrrrrrrrr do motor e vejo a serra a circular à volta e eu a cortar em metades, metades-verticais e metades-horizontais, gente que não conheço, a largar pedaços de carne ensanguentada por cima dos bibelots, e vejo-os a partir uma colecção completa de copos da Ivima, daqueles com piquinhos de todas as cores do arco-íris como uma bandeira do Orgulho Gay, e uma chuva ácida, vermelha, vermelha de sangue a tombar sobre a cabeça dos meninos e meninas excitados com todas aquelas velharias que entram em casa e ficam esquecidos a um canto até que uma prima faz anos e é preciso uma prenda de última hora.
Não! Afinal estou ainda parado no meio da Praça. Volto a olhar à volta. Uma colecção de louça inglesa, uma caixa com singles em vynil de 45rpm, máquinas fotográficas cheias de pó, máquinas de Super-8, tripés, máquinas de projectar, máquinas de escrever, uma delas sem a letra A, solitários, vasos, penicos, moedas, uma quantidade absurda de moedas, penso em roubar aquilo tudo e penso que provavelmente não valem um chavo, camisolas da Nazaré, casacos da Serra-da-Estrela, samarras alentejanas, uma colcha de retalhos e uma outra em renda não-sei-de-quê, talvez de bilros, talvez de Peniche, uma pasteleira, um cão velho que não sei se está para venda se é companhia do dono também ele velho e a dormir com a cabeça pendente sobre o peito e um fio de cuspo a cair do canto da boca pelo queixo abaixo.
Porque é que estou aqui?
E ouço Anda! Anda, vá lá!
Alguém agarra na minha mão e puxa-me. Alguém diz anda.
Eu abro os olhos. Estou sentado num sofá. Estou sentado num sofá numa loja do IKEA. Alguém agarra na minha mão e chama-me. Quem é? Quem me agarra na mão?
Levanto-me do sofá. Corro atrás de quem me puxa. Uma mão-na-mão, entre os corredores labirínticos da loja, entre famílias que se passeiam de mãos atrás das costas a olhar, que a carteira é sempre curta, até chegar ao pé de uma estante, cheia de prateleiras, parar e dizer É esta! É esta! É bonita, não é?
E eu ainda pergunto E quem é que vai montar isto?, mas já sei a resposta e quero voltar para a feira das velharias e agarrar na serra-eléctrica.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/19]

As Papoilas Saltitantes

O jogo ainda não terminou, mas já ouço foguetes. Há foguetes um pouco por todo o lado. São morteiros. Como aqueles que anunciam as festas nas aldeias. Para que as gentes das aldeias vizinhas venham à festa. Para que os moços das aldeias vizinhas venham bailar com as moças da terra. E os moços da terra, ciumentos, com o mau vinho a transbordar na garganta, abrem as navalhas com que cortam o toucinho salgado e o pão duro nos almoços pobres no campo, para abrir as barrigas dos invasores.
No futebol como na vida.
Há sempre este grito de pertença. Um grito em uníssono. A mesma rua. O mesmo bairro. A mesma cidade. O mesmo partido. O mesmo clube.
O mesmo grito. Mas eu fujo do grito. Do grito unificado. Não gosto de unanimidades. Gosto de bailar com as moças da aldeia vizinha.
O árbitro apita. É o fim. O fim do jogo. A vitória garante a Vitória. Está muita gente alegre. Eu estou alegre. Levanto os braços ao céu. Ninguém vê. Posso fazer estas coisas. Estou sozinho. Ninguém me vê nestas manifestações de regozijo.
Olho à volta e vejo que mal toquei nos tremoços e nas pevides. Acabei por deixar os camarõezinhos no frigorífico. Nem me lembrei deles. Por outro lado, as cervejas já foram todas. Olho para as garrafas vazias caídas no chão e penso Tenho de as apanhar. Tenho de as apanhar e levar para o vidrão. Tenho de as apanhar mas não já. Não agora.
Levanto-me a custo do sofá. Quanto tempo estive aqui sentado? Olho para trás. Olho para o sofá. Para onde estive sentado. E vejo o sofá a recuperar, lentamente, a sua forma, depois de eu o ter esmagado durante, quantas horas? Nem sei. Muitas.
Vou até à janela. Acendo um cigarro. Olho para a rua. Vejo os carros a passar. Vai gente pendurada nas janelas dos carros. Nos tectos abertos dos carros finos. Nas caixas abertas das carrinhas populares. Rapazes, a transpirar, em tronco nu. Raparigas excitadas, com os peitos a dar-a-dar. Há bandeiras. Cachecóis. Braços esticados no ar. Mãos em V. Apitos. Buzinas. Tantas buzinas. A apitar. A apitar. Lembra-me o comboio Lá vai o comboio, Lá vai a apitar, mas aqui o comboio não apita. Aqui é a Linha do Oeste e o comboio não quer saber desta gente. Esta gente que se une para festejar a vitória como se fosse sua, e não mexe um dedo para exigir, sim exigir!, que o comboio chegue a esta cidade em condições. Com horários. Com rapidez. Com condições dignas de gente digna.
Eu? Eu já não tenho nem idade nem vontade. A cidade matou-me a vontade. E os anos ajudaram a calcá-la. Mas não deixa de me entristecer.
Estou contente com a vitória. Com a vitória do meu clube. Também a sinto um pouco minha. Aliás, muito minha. Mas não vou para a rua. Não gosto de multidões. Não gosto de grupos. As multidões tendem a deixar de pensar. Seguem sempre alguém. Perdem o controle. Eu fico aqui. Aqui na minha janela. A ver à distância. A ouvir os Olé! Olé! Os Esse Ele Bê! Esse Ele Bê! E a não perder o controle.
Vejo os morteiros a rasgarem o céu. Já é quase noite. Daqui a pouco há-de haver alguém a lançar fogo-de-artifício. A iluminar, com múltiplas cores, estas vidas tão pobres e vazias que só se alegram assim, nestes momentos de catarse em grupo.
Lanço a beata para a rua. Acendo outro cigarro. A festa continua. E vai durar até amanhã. Os canais de televisão não vão largar o osso tão depressa. Têm horas ilimitadas de gente a debitar opinião. É barato e garante audiência.
Eu volto a lembrar-me dos camarõezinhos e vou até à cozinha. Já não tenho cerveja. Ainda há vinho. Acompanho os camarõezinhos com vinho tinto. É o que há. Não me queixo. Lá de fora continua a chegar o som dos foguetes, as buzinas dos carros, o cheiro a gasóleo e a borracha queimada.
E alguém canta Ser benfiquista // É ter na alma a chama imensa // Que nos conquista // E leva à palma a luz intensa // Do sol, que lá no céu // Risonho vem beijar // Com orgulho muito seu // As camisolas berrantes // Que nos campos a vibrar // São papoilas saltitantes…

[escrito directamente no facebook em 2019/05/18]

Em Estágio

Entrei em estágio. Estou a vinte e quatro horas do último jogo do campeonato e entrei em estágio. Estou preparado para o que aí vem.
Sentei-me no sofá. Estou em frente à televisão. Agora está desligada porque não quero desconcentrar-me. Estou focado no jogo. No último jogo do campeonato. No jogo que pode definir o título.
Fui à Nazaré comprar tremoços. Subi a São Pedro de Moel para comprar pevides. Fui ainda um pouco mais acima, à Figueira da Foz, para comprar uns camarõezinhos. No regresso a casa passei pelo Modelo-Continente e comprei uma grade de minis Sagres. Um volume de Marlboro Soft Pack. E gasolina para o Zippo.
Vesti a minha camisola imitação dos anos ’60. Encarnada. Debruada, na gola e nas mangas, a branco. De algodão. Com o emblema cosido à esquerda, sobre o coração.
Estou sentado no sofá. A televisão desligada à minha frente. Bebo um copo de vinho. A cerveja é para amanhã. Fumo um cigarro.
Penso que ainda faltam vinte e três horas para o jogo. Queria ligar a televisão, para ver o que se passa. Mas não quero condicionar a vontade. Não quero ouvir as especulações. Não quero perceber o nojo. Mas estou a ficar cansado de estar aqui fechado dentro de casa. A olhar para nada. Penso em ir até à rua, mas tenho medo que me aconteça alguma coisa. Pode cair-me um raio em cima. Uma marquise pode despenhar-se sobre mim. Um cão pode morder-me. E pode estar com raiva. Pode chegar uma nave extraterrestre e levar-me para fazerem experiências.
Não!
Fico aqui. Se calhar ainda faço uma cafeteira de café. Para ajudar a passar a noite. É isso! Vou fazer café! Não posso adormecer. Posso não acordar. Não posso correr o risco de não acordar. Pode dar-me o badagaio durante o sono. Um ataque cardíaco. Um AVC. Não posso correr o risco. Tenho de estar acordado. Para chamar um médico. Ou o INEM. Se fôr caso disso. Espero que não. Mas tenho de estar atento. Acordado.
Desligo o telemóvel para não me interromperem. Se liga alguém de um Call Center? Para mudar a rede do telemóvel? Para mudar o cabo? Não, o cabo não que não tenho cabo. Para mudar a rede de internet? A internet! Tenho de desligar a internet para não me pôr a interagir no Facebook, no Twitter, no Intagram, no Tinder. Não quero desconcentrar-me. Quero estar atento. Quero estar atento ao último jogo do campeonato.
Faltam pouco mais de vinte e duas horas. Estou em pulgas. Estou nervoso.
Porra! Não posso desligar a internet. A minha televisão só funciona com internet. Não tenho cabo. Só internet. Vou voltar a ligar.
Estes dias são muito complicados. Demasiadas exigências.
Bebo outro copo de vinho. Fumo outro cigarro.
Apetecia-me ler um livro. Mas não consigo. Estou demasiado excitado. Não conseguia focar-me nas letras. Abro a boca. Bocejo. Mau! Estou com sono. Ora bolas!…

Abro um olho. Depois o outro. Lá fora é dia. Foda-se! Deixei-me adormecer. Que horas são? Olho para o telemóvel. Está desligado. Olho para a televisão. Não tem horas. Levanto-me. O corpo estala. Parece que os ossos se desmontam. Vou à cozinha. Olho para a porta do forno. Faltam pouco mais de dez horas. Aproveito para beber um café. Ponho uma caneca a aquecer no micro-ondas. Levo a caneca de regresso para a sala. Sento-me de novo frente à televisão desligada. Tenho de decidir a que horas a ligo. Mas ainda há tempo. Ainda é cedo. Acendo um cigarro. Levanto-me a abro a janela da sala. Olho para a rua. É incrível como as pessoas continuam nas suas vidas sem se aperceber da importância deste dia. Sem se aperceberem que o último jogo do campeonato está quase a começar. Com o podem ser tão alheadas?
Mando a beata do cigarro para a rua. Regresso ao sofá. Olho as pevides e os tremoços na mesa de apoio. Pergunto E os camarõezinhos da Figueira? E de repente lembro-me Ah! Estão no frigorífico. Com as minis. A minha perna começa a bater no chão. Com um ritmo rápido. Estou nervoso. O estágio deixa-me nervoso.
Nunca mais começa o jogo?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/17]

Na Pista de Manutenção

Fui dar uma volta. Fui dar uma volta a pé. Sinto-me inchado. Talvez mesmo um pouco gordo. Não que coma muito. Mas como mal. E estou muito tempo sentado.
Não vesti nenhum equipamento especial para ir dar a volta. Fui dar uma volta como quem dá um passeio. Calças de ganga. T-shirt. Sapatilhas. Levei um chapéu por causa do sol mas, como tenho o cabelo comprido, descobri-me como o palhaço Bozo quando me olhei no espelho do café onde parei para beber uma bica.
Sim, não tinha andado cinco minutos e parei no primeiro café para beber um café. Precisava de acordar. E vi um pastel de Tentúgal a olhar para mim. E como não queria que o café ficasse sozinho, ofereci-lhe o pastel. Soube-lhe bem. Sacudi as migalhas daquela espécie de massa filo que tombou sobre mim quando a trinquei. Sacudi-as para o chão. Voltei à minha caminhada.
Segui um caminho que passa por um pequeno jardim e que acaba por entrar pelo mato adentro. É uma espécie de trilho de manutenção, para onde vai gente correr vestida de cores coloridas, mas por onde eu nunca tinha passado. E fui.
Tanto ar fresco e puro começaram a dar-me azia. Tentei respirar pelo nariz. Não era fácil. Estava um pouco entupido. Fui insistindo.
Caminhei por entre o verde dos arbustos. Caminhei por baixo das ramagens das árvores. Caminhei paralelo ao rio. Nuns sítios onde o rio fazia uma curva, acumulava-se lixo. Uma quantidade indistinta de lixo. Plásticos. Garrafas. Embalagens de gelados. Preservativos. E coisas que, à distância, não consegui identificar. Havia também muito pólen a flutuar.
A meio do trajecto descobri um pequeno bar de apoio. Com umas mesas e umas cadeiras numa pequena esplanada no meio da natureza. Cheguei-me ao balcão e olhei para o que havia no interior. Nada de convidativo. Vi uns pacotes de Capri Sun (devem ser os sucessores do Capri-Sonne). Umas garrafas de água de plástico da Makro. Uma máquina de café Nespresso. Uns pastéis de nata e uns rissóis já ressequidos. Perguntei por aguardente. Sim, havia. Caseira. Sem rótulo. Numa garrafa de cinco estrelas. Nem sabia que ainda existiam. Pedi um cálice de aguardente. Bebi de um gole. Pedi um segundo copo. Acendi um cigarro. Virei-me ao contrário e encostei-me ao balcão. Para ver quem passava por ali.
Acabei de fumar o cigarro. Acabei o segundo bagaço. Ninguém passou.
Paguei e fui embora. Regressei à minha caminhada.
Ao fim de algum tempo comecei a ficar farto de verde e de árvores. Ansiava por um pouco de cheiro a gasóleo. Barulho de motores de automóveis. Gente a discutir. Confusão.
Não, é mentira. Não ansiava nada. Mas já estava um bocado farto desta cena tão bucólica.
Acabei por sair do mato.
Regressei ao asfalto. Já tinha passado quase uma hora desde que saíra de casa. Já tinha caminhado bastante.
Merecia um prémio.
Passei por uma cervejaria. Fui para o balcão. Uma imperial. Não havia tremoços. Mas havia azeitonas. Com azeite e alho. E orégãos. Bebi duas imperiais.
Fui para casa.
Andei cerca de hora e meia a caminhar.
Ainda me sentia inchado. Com um pouco de azia.
Acho que esta coisa de caminhadas não é para mim.
Precisava de me sentar frente ao computador. Abrir uma página em branco. E ficar a olhar para ela com um cigarro a fumegar na mão.

[2019/05/16]

Tudo É Perigoso

Fui ao supermercado. Com lista. Para não me perder. Tenho tendência a encher o carrinho das compras com coisas boas mas que me rebentam a carteira. Hoje fui com lista. É claro que vigarizo um pouco a lista. Acabo sempre por trazer mais uma ou outra coisa que não consta da lista. Mas é um começo. E é só uma ou duas coisas a mais.
Aproveitei as promoções. Agora ando atento. Há coisas que, entre hoje e amanhã, podem baixar quase cinquenta por cento. Agora leio os panfletos. Tomo atenção aos descontos. Tenho poupado muito dinheiro.
Voltei para casa. Arrumei as compras.
Fui apanhar laranjas numa das laranjeiras que tenho aqui no quintal. São um pouco azedas mas, espremidas, com um pouco de açúcar ou a acompanhar um vodka, a meio da tarde, fazem milagres.
Estava a voltar para o interior de casa quando vi passar uma procissão, ao fundo da rua. Primeiro ouvi uma vozes. Uma ladainha. Percebi uma oração. Depois vi um andor. E um mar de gente atrás do andor, a ladainhar.
Fiquei ali parado por momentos. A olhar a procissão a passar lá ao fundo. A ouvir a oração. O cesto com as laranjas nas mãos. A pesar.
Perguntei-me Que procissão é esta? E não soube responder.
A procissão acabou por passar. Deixei de ver pessoas. Deixei de ouvir vozes. Entrei em casa.
Coloquei as laranjas no frigorífico. Finalmente percebi a funcionalidade das gavetas de plástico. Servem perfeitamente para guardar as laranjas.
Ouvi um estrondo. Depois um burburinho. Um burburinho ao longe. Fechei o frigorífico. Saí de casa. Espreitei para a estrada, lá ao fundo. Não vi nada. Desci o quintal até ao muro. Olhei para um lado. Depois para o outro. Vi algumas pessoas no fundo da estrada. Pareciam agitadas. Estava lá um carro parado, no meio delas. Havia gente a correr à volta do carro. Pareceu-me ouvir alguns gritos.
Saí pelo portão do quintal. Fui para a estrada. Acendi um cigarro. Vi uma miúda a correr na minha direcção. Perguntei-lhe O que houve? E ela, cansada, cansada da corrida, um pouco assustada disse Um carro foi para cima da procissão!, passou por mim e continuou a correr estrada fora.
Deixei-me estar ali. Encostei-me ao muro a fumar o cigarro. Fiquei a olhar para a confusão que se adivinhava lá ao fundo, na estrada.
Não voltou a passar mais ninguém à minha frente.
Fiquei ali um momento, hesitante, entre entrar em casa ou ir ver o que se passava ao fundo da estrada. Mas não gosto de confusões.
Voltei a entrar pelo portão. Subi o quintal. Entrei em casa. Abri o frigorífico. Espremi duas laranjas. Juntei um pouco de vodka. Fui para o alpendre.
Estava a sentar-me no alpendre quando ouvi a sirene dos bombeiros.
Acendi outro cigarro. Beberiquei um pouco do vodka com laranja. E pensei Os carros são perigosos. Olhei para as montanhas lá à frente. De manhã não as conseguia ver com o nevoeiro com que nasceu o dia. Agora estão bem nítidas e verdes. E ainda pensei As procissões também podem ser perigosas. Puxei uma passa do cigarro. E voltei a pensar Tudo é perigoso.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/15]

A Minha Mãe

Fui a casa da minha mãe. Fui dar-lhe banho. Aspirar a casa. Repôr frescos no frigorífico. Fornecer a despensa. Regar as plantas. Fazer a cama de lavado. Ligar a máquina de lavar roupa. Lavar uma ou outra peça de louça mais difícil de ser lavada à mão. Como um tacho. Uma panela. Uma frigideira.
Ela é autónoma. Mas precisa de alguma ajuda. Principalmente com coisas mais difíceis. Principalmente com coisas mais pesadas. Principalmente com coisas mais complicadas e minuciosas. Às vezes vou lá mesmo só para dizer que estou ali. Não só no outro lado do telefone, mas também ali, em casa. Ao vivo em casa dela. Ao lado dela. Para a ajudar. Para a ajudar quando for preciso.
Cheguei. Toquei a campainha e abri a porta com a minha chave. Toco sempre à campainha para ela não se assustar com a minha entrada de rompante em casa. Para não ser uma surpresa. Para não olhar para o lado e descobrir-me lá, feito parvo.
Estava sentada na mesa da cozinha a comer um iogurte. Viu-me e disse Olha! Estás aqui? e eu acenei a cabeça. Percebi que já me tinha esquecido. Às vezes esquece-me. Baralha os dias. Acha que vou no dia seguinte que é sempre o seguinte. Às vezes até eu me baralho.
Continuou a comer o iogurte. Eu arrumei no frigorífico os legumes que levei. Arrumei as mercearias na despensa. Por ordem. Mostrei-lhe umas conservas novas que lhe trouxe. Perguntou do que era. Filetes de cavala com tomate. Ela gosta de petiscar estas conservas. Às vezes acompanha com espinafres. Com rúcula. Às vezes até usa maionese. E eu pergunto-lhe Maionese, mãe? e ela responde Que é que queres? Sabe-me bem!
Acabou de comer o iogurte. Levantou-se e foi para a casa-de-banho. Eu dei-lhe tempo para se despir e segui-a. Molhei-lhe o corpo. A cabeça. Depois passei-lhe o chuveiro para as mãos e abri o champô. Saltou-me todo para cima. O que restava. Eu devia ter percebido que o frasco parecia muito leve. A embalagem estava no fim. Ela meteu água lá para dentro, para aproveitar tudo ao máximo. Quando abri a embalagem, estava à espera de uma massa pastosa e saiu um esguicho colorido para cima da minha camisola, das minhas calças e sobre as minhas sapatilhas. Que porra, pá!
Lavei-a. Sequei-a. Esfreguei-lhe o cabelo como uma toalha e ela disse que lhe estava a pôr a cabeça tonta. Depois fartou-se de rir com as cócegas que lhe fiz ao limpar-lhe os pés. Oh, mãe! Tantos anos e ainda tens cócegas nos pés? O que é que queres? Não mas tiraram! E riu-se mais ainda. Deixei-a na casa-de-banho a acabar de se arranjar sozinha e fui aspirar a casa.
Não é muito grande, a casa. Aspiro-a num instante. Mas frente ao sofá, tenho de aspirar com cuidado e atenção. Há por lá muitas migalhas. Às vezes come sentada no sofá enquanto vê televisão. Especialmente o pão. Ela que lhe ralhava a mim quando, em criança, me esquecia de levar um prato para comer uma sanduíche na sala, hoje diz que não precisa de prato. Que não faz migalhas. Não as vê! Não vê as que lhe mostro. Zanga-se comigo quando insisto. Às vezes preciso de muita paciência.
Fiz a cama de lavado. Pus a máquina a lavar.
Coloquei os comprimidos na caixinha. Pela ordem. Não anda a tomar os da manhã. Diz que lhe fazem fazer muito chichi e quando vai sair de manhã não os toma para não andar a correr para as casas-de-banho dos cafés. Algumas são muito porcas! As pessoas são muito porcas e sujam tudo! diz-me para me fazer entender porque deixa os comprimidos na caixinha.
Ela saiu da casa-de-banho e foi para o quarto vestir-se. Eu aproveitei para arrumar a casa-de-banho. Depois fui à varanda e fumei um cigarro. Ela foi lá ter comigo e perguntou-me Queres ir beber um café?
E eu sei que ela gosta de ir ao café comigo. Gosta que as pessoas me vejam com ela. Diz às raparigas do café que eu sou o namorado dela. Enfia a mão no meu braço e entra assim comigo no café.
Ela pede uma meia-de-leite com café, Mas mesmo café! Café de uma bica! Um pão-de-leite com fiambre e Um bocadinho de manteiga, mas mesmo manteiga, não margarina, e só um bocadinho, se faz favor, senão faz-me mal ao estômago, mas eu gosto muito de manteiga, mas tem de ser mesmo manteiga. Eu peço um café. Ela refila comigo. Que estou magro. Que não como. Só um café? pergunta. E eu acabo por pedir um rissol, como quase sempre.
Depois levanto-me para ir pagar. E vejo-a, pelo espelho, a dizer às miúdas do café para não receberem o meu dinheiro que é ela que vai pagar.
Volto à mesa. Dou-lhe dois beijos e digo Tenho de me ir embora. E ela responde Vai lá! Vai lá! Tens de ir trabalhar!
E eu vou embora, mas vou sempre com a sensação que devia ter ficado lá mais tempo. Que todo o tempo que estou com ela é pouco para ela. Mesmo que seja muito para mim. E penso no dia em que já não possa ficar mais tempo nenhum com ela. E sinto um nó na garganta. Acendo um cigarro. Abano a cabeça e tento esquecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/14]